CONTOS
Ó abre alas que eu quero passar!
O Carnaval no ano eleitoral 2026!
No Brasil, ano eleitoral é tipo
carnaval prolongado: começa antes da hora, termina
depois do previsto e sempre sobra
aquela sensação de que alguém sambou na sua cabeça sem
pedir licença. Em 2026 então, tudo se
mistura: confete, urna eletrônica, candidato fantasiado
de salvador da pátria e eleitor
tentando decidir se vota, se pula ou se só observa da
arquibancada.
Os blocos já estão nas ruas: os
canhotistas de um lado e os direitálhas do outro, cada
um berrando seu enredo como se fosse
a última disputa da Sapucaí. A polarização virou febre,
virou figurino, virou marchinha de
duplo sentido. É o país se dividindo em dois carnavais que
se esbarram na esquina e fingem que é
tudo normal.
Do Norte ao Sul, o povo cai no samba
para descontar a dor que o governo, insiste em
deixar pelo caminho. Afinal, parece
que o país vive navegando dentro do próprio umbigo,
como se fosse barquinho de papel no
brejo burocrático. E o brasileiro? Ah, esse transforma dor
em batuque. É talento ou é
sobrevivência? Ninguém sabe, mas funciona.
No bloco dos canhotistas, as
alegorias vêm ousadas: “A Fogueira da Igualdade”, “A
Fênix da Justiça Social”, “O
Carrossel do Estado Protetor”. Vermelho, roxo, lilás, tudo brilhoso.
O samba-enredo mistura discurso, rap
e esperança, com refrão pedindo mais direito, mais
inclusão e umas pitadas generosas de
emenda parlamentar, jogadas para o público como
confete caríssimo pago com dinheiro
do contribuinte.
Já nos direitálhas, o desfile é outra
vibe: “O Trem da Ordem”, “O Mercado que Voa”,
“A Fantasia dos Bons Costumes”. Azul,
verde, branco e aquele dourado que parece ouro mas
muitas vezes é latão pintado. O
samba-enredo tem cara de hino, ritmo de sertanejo, letras
sobre liberdade, segurança e um
Estado magrinho, mas sempre alimentado pelas mesmas
emendas, agora virando serpentinas
que o vento carrega direto para algum gabinete.
Nos carros alegóricos, aparecem as
versões carnavalescas dos Três Poderes: o
Executivo vestido de super-herói
cansado, o Legislativo fantasiado de vendedor de pacote
turístico, e o Judiciário em traje
tão luxuoso que até a comissão de frente fica sem graça.
Todos giram bandeiras e evitam deixar
cair as máscaras, coisa difícil, porque máscara aqui não
protege só do vírus, protege de
crítica, de promessa quebrada e até de si mesmo.
A modernidade chega com drones,
hologramas, telão em 8K. Tecnologia para
impressionar, para parecer que o país
está no futuro, mesmo tropeçando no presente. É o
carnaval do “olha como estamos
avançados”, enquanto os fios ficam segurados por gambiarra.
E como não podia faltar, surgem os
"Joãozinhos 30" versão digital: estrategistas, criadores de
conteúdo, magos de algoritmo que
costuram narrativas como quem prega paetê em fantasia
de última hora. Eles definem a cor da
tinta, o brilho do discurso, a ordem do desfile emocional.
Mas na quarta-feira de cinzas, tudo
se encontra: canhotistas e direitálhas, sem glitter,
sem fantasia, sem filtro. A ressaca
chega igual para todo mundo. Ali, no chão frio da realidade,
dá para ver quem é quem, ou perceber
que, no fundo, todo mundo desfilou mais parecido do
que gostaria de admitir.
A moral? Que o Brasil precisa
escolher seu próximo carnaval político com menos
fumaça e mais verdade. Talvez seja
hora de um carnaval novo, do século 21: sem máscaras
para esconder intenção, sem confete
que tape buraco, com mais transparência e menos
truque.
E mesmo com tudo isso, o Brasil
continua sendo país de alegria teimosa. A gente ri,
dança, canta e segue. Porque depois
do carnaval vem a Copa do Mundo e finalmente a eleição,
crise, esperança, decepção e sonho.
E, no fim das contas, só resta
desejar: boa sorte, Brasil, e que os próximos desfiles
sejam mais verdadeiros que as
fantasias.
02/02/2026
Walter Naime
Arquiteto-urbanista
Empresário.
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