Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

sexta-feira, abril 17, 2009



PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS JOÃO UMBERTO NASSIF Jornalista e Radialista joaonassif@gmail.com
Sábado, 08 de abril de 2009
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://www.tribunatp.com.br/
http://www.teleresponde.com.br/ http://blognassif.blogspot.com/
ENTREVISTADO: AMADEU GOMES DOMINGUES





Em um prédio situado na esquina da Rua XV de Novembro e Rua do Rosário, uma faixa dependurada, com os dizeres “Vende-se”, parece uma página a ser virada na história recente de Piracicaba. Ao lado do “Dispensário dos Pobres” também conhecido como “Pensionato das Freiras”, onde dezenas de moças pensionistas, ali viveram durante o período de seus estudos em cursos universitários de Piracicaba. Por muitas décadas um estabelecimento comercial, de proporções físicas diminutas, foi para muitos o local que atendeu as urgências de complementos culinários e domésticos para as referidas pensionistas. Ao lado esquerdo do armazém, o Condomínio Vargas abrigava um grande número de “repúblicas” de estudantes. Profissionais de elevada competência, espalhados nos mais distantes rincões, quando ainda estudantes residiram ali, estabeleceram animados diálogos regados á deliciosa cerveja servida “no ponto”, no Bar da Rosário. Mais do que ingerir o líquido, havia a companhia de amigos, companheiros de jornada, muitos sonhando com o futuro, traçando planos. Aquele armazém além de servir gêneros próprios da sua atividade é uma fábrica de sonhos e de esperança. Em cada detalhe, parece que o tempo foi congelado. O ladrilho hidráulico, hoje bastante raro, a geladeira revestida de fórmica de um tom avermelhado, como era a moda da época. O que destoa do ambiente é a presença do proprietário que transmite uma energia simpática e autoritária, de alguém que foi talhado para atuar nesse ramo de atividade. Amadeu Gomes Domingues, aos 69 anos de idade, nasceu em 28 de novembro de 1939 é o proprietário desse armazém desde 9 de fevereiro de 1982.
Como o senhor passou a ser comerciante?
O meu trabalho anterior era na Itelpa. Uma indústria que fabrica telas para a indústria de papel. Trabalhei lá por 22 anos. Comecei a trabalhar em fevereiro de 1958, quando a Itelpa situava-se na Rua Moraes Barros esquina com a Avenida Armando Salles de Oliveira. Em 1969 ela transferiu-se para a localidade onde está situada até hoje, na rodovia que vai de Piracicaba á Tupi. Eu comecei a trabalhar na Itelpa quando tinha 18 anos de idade e sai com 40 anos. Antes eu trabalhei em uma indústria situada na Vila Rezende, era uma tecelagem de seda, chamava-se Suceda, trabalhei lá no período de 1955 até 1957, comecei a trabalhar lá com 14 anos de idade. Eu trabalhava no setor de estamparia, estampávamos o tecido. Na época eu morava no local denominado Morro do Enxofre, na Rua da Colônia, 132.
Como se chamavam seus pais?
Meu pai chamava-se Ricardo Gomes Domingues e a minha mãe Josefa Anhão Rando Gomes. Ambos vieram da Espanha, papai com 18 anos e mamãe com 11 anos de idade. Conheceram-se aqui na região de Piracicaba, naquela época havia as fazendas de café. A propaganda feita na Europa incentivou a vinda de muitos espanhóis para o Brasil. Meus pais desembarcaram em Santos, depois rumaram para São Paulo, onde ficaram na Hospedaria dos Imigrantes. Lá eram estabelecidos os contatos com emissários de fazendeiros, onde de forma fantasiosa arregimentavam os novos colonos, que na verdade vinham para substituir a mão de obra escrava dos negros libertos recentemente. Meus pais moraram no Bairro da Floresta, depois se casaram e se mudaram para Santa Maria da Serra. Isso já foi em uma fase em que tinham superado as imensas dificuldades sofridas pela família, desde a chegada ao Brasil. Mais tarde voltaram para Piracicaba e passaram a morar na Rua da Colônia. Meus pais tiveram oito filhos: Ricardo, Amadeu, Mercedes, Nelson, Maria, José, Josefa.
Onde ficava a primeira empresa em que o senhor trabalhou?
A Suceda ficava em frente ao Dedini. Para ir trabalhar tinha que pegar o primeiro bonde. Ás cinco e meia da manhã desciam os três bondes: o da Vila Rezende era o primeiro que descia, o segundo era o da Agronomia e o terceiro era o da Paulista. A garagem dos bondes era na Avenida Dr. Paulo de Moraes, próxima ao antigo Corpo de Bombeiros. Eu tinha que pegar o primeiro bonde para não pagar duas passagens. E se perdesse o primeiro bonde, teria que esperar o bonde voltar da Vila Rezende. Ou ir a pé do centro até a Suceda. Entrava ás sete horas da manhã e saia ás cinco horas da tarde, com intervalo de duas horas para o almoço. Naquele tempo levávamos a marmita. Eu trabalhava na estamparia. O tecido era estampado á mão, quadro a quadro. Um tecido com cinco cores usava cinco quadros como, por exemplo: branco, verde, preto, vermelho, amarelo. Os desenhos eram sobrepostos. Esticava-se o tecido em uma mesa com uns trinta metros de comprimento, almofadada, essa peça era colocada sobre a mesa, poderia ser popeline, seda. Ficava uma moça de cada lado com os quadros, e iam passando-se os quadros na seqüência. Tinha estampas que levavam duas cores, outras levavam quatro. Dali ia para uma máquina chamada vaporizador para fixar essa tinta no tecido. Em seguida ia para a lavanderia e para a embalagem.
Como o senhor ingressou na Itelpa?
Eu completei 18 anos, e nessa época a Suceda estava em declínio. Eu tinha um tio que trabalhava na Itelpa e me indicou para trabalhar lá. Entrei em 1958, já em 1961 eu tinha passado de ajudante a tecelão e fazia urdições, que é o começo da tela, do tecido. Na época o tecido era feito em bronze ou em aço inox também. Por volta de 1968 a 1970 essa tela passou a ser feita em fio sintético. O bronze era muito caro e dava muito problema. A matriz da Itelpa ficava na Alemanha. Em 1961 a Itelpa comprou uma empresa em Buenos Aires. Éramos cinco pessoas de Piracicaba que fomos para ensinar o pessoal de Buenos Aires a trabalhar com os teares. Permaneci lá por três anos.
Na época o senhor era solteiro?
Era. Tinha 22 anos. Tive contato com a cultura argentina. A cada seis meses eu tinha direito a uma viagem para o Brasil, onde permanecia por 15 dias. Realizei essas viagens de avião, com exceção de uma que fui de navio para Buenos Aires, para levar uma máquina.
Buenos Aires traz lembranças de bons vinhos, carnes?
Já se passaram quarenta e poucos anos. Mas lembro-me de que éramos muito bem servidos com carnes, pão, massas. Mesmo porque a nossa alimentação era feita exclusivamente em restaurantes, pagos pela empresa. Eu não era muito ligado a esporte, tinha vindo do interior, não tinha muito conhecimento de esportes. Nessa época Pelé estava muito em evidencia. Coutinho que era de Piracicaba, também estava em evidencia. Os argentinos tinham muita curiosidade em saber sobre Pelé. Eu não tinha muitos subsídios para poder responder a todas as questões que me faziam. Procurava sempre me informar para matar a curiosidade deles. Um dos diretores da empresa argentina era muito esportista. Coincidiu que o Santos foi fazer uma excursão por lá, levando Pelé, Coutinho. Fomos assistir a uma partida no campo do River Plate, que fica em Nuñes, um bairro muito bonito de Buenos Aires, e o Santos ganhou de 8X2. Só Pelé marcou 5 gols, Coutinho marcou mais 2. No outro dia na fábrica, os argentinos nos aclamavam. Eu cheguei a ser sócio do Racing Club. Nós estávamos hospedados no Lafayette Hotel na Calle Constitucion, um dos diretores do hotel nos tornou sócios do Racing, o que nos dava uma série de vantagens, como piscina, a dançar o tango, que foi uma das coisas que não consegui aprender a dançar com perfeição. O tango bem dançado é difícil!
Como as moças argentinas o viam?
Não sei se era pelo fato de estarmos trabalhando em uma empresa como a nossa, e desfrutarmos de uma boa condição de vida, tínhamos facilidade em conquistarmos as moças argentinas. Só que na época era um país muito distante. Hoje com o avanço dos meios de transportes tornou-se um país de mais fácil acesso. Na época usávamos a Varig, Alitália, Lufftansa, para voar.
O senhor chegou a manter um namoro firme com alguma argentina?
Quase cheguei a casar! Namorei a moça por cerca de um ano. Freqüentei a casa da moça. Ela morava bem próxima á fábrica onde trabalhávamos.
O senhor ia almoçar aos domingos na casa dela?
Fui algumas vezes. Era servido churrasco, o argentino come muita carne. Eu me dava muito bem com o pai da moça, ele trazia um vinho, é um habito deles, oferecer o melhor vinho ao visitante. Só que no fim não deu certo. Ela era muito apegada á família dela, eu sou muito apegado a minha família. Fui muito claro com ela, disse-lhe que se nós chegássemos a casar e vir embora para o Brasil, seria muito difícil ela ver a família dela. Isso se tornou um empecilho para que continuássemos nosso relacionamento.
O senhor casou-se no Brasil?
Casei-me em 21 de janeiro de 1967 com Regina Passarelli Gomes na Igreja do Bom Jesus, tendo Monsenhor Martinho Salgot como celebrante. A festa foi na casa dela, fizemos um “empalizado”nós fomos cortar bambu na fazenda do pai dela em Santa Maria da Serra, fizemos o empalizado, com o encerado cobrindo, choveu muito naquela noite, mas deu uma bela de uma festa. Isso foi na Rua Bom Jesus, 1417.
O senhor chegou a voltar para a Argentina depois de casado?
Voltei para a Argentina, de carro, com a minha esposa grávida e um filho de três anos. Isso foi em 1973, no primeiro ano em que surgiram as férias de 30 dias na indústria. Eu tinha comprado um Fusca ano 1970, branco, 1200cc, e fomos para Buenos Aires. Levamos seis dias de viagem. Permanecemos um dia em Florianópolis, onde morava uma prima da minha esposa. Na Argentina ficamos por volta de vinte dias na casa de amigos que foram colegas na empresa.
O senhor permaneceu na Itelpa até que ano?
Até agosto de 1980. Foi quando fiz um acordo com a empresa, de empregado estável para empregado novo. Após 90 dias fui demitido. Meu último cargo foi de Inspetor de Qualidade da Divisão Telas. Recebi todos os meus direitos. Trabalhei por um período de um ano e meio na Cicobra, na Avenida Armando Salles.
Como o senhor entrou em um ramo totalmente diferente, que é esse em que o senhor trabalha hoje?
Eu tinha um cunhado que tinha um bar na Rua XV, e descobri que o antigo proprietário deste estabelecimento, o Sr. Antonio Granzotto estava querendo vender. O prédio era alugado, assim como eu também pago aluguel.
Qual foi o impacto que o senhor teve no primeiro dia já como proprietário?
Foi difícil! Eu não entendia nada! O antigo dono permaneceu por uns 15 dias me acompanhando. Comecei a pegar o jeito da coisa e segui até hoje.
Quando o senhor se estabeleceu aqui já existia o Dispensário dos Pobres?
Já! Na época em que entrei aqui o dispensário era bem atuante.
Existia também o pensionato para as moças?
Existia. O portão de acesso para as moças era fechado ás 11 horas da noite. Os pais deixavam as moças hospedadas aí com inteira segurança. Elas faziam as faculdades de odontologia ou agronomia, cada uma fazia o curso que havia escolhido. Era pensionato de moças. Namorado não entrava. Aqui ao nosso lado temos um conjunto de apartamentos chamado Conjunto Vargas, era república só de homens. Poderia até existir alguns que tivesse alguma namorada lá, mas no horário estabelecido pelo pensionato a moça tinha que se recolher.
De forma geral como era a rotina das moças que moravam no pensionato?
Elas viajavam no final de semana para as suas cidades de origem, e quando voltavam traziam alimentos congelados. Cada uma tinha o seu espaço nas geladeiras. Elas tinham que fazer a própria comida no pensionato. Ás vezes faltava alguma coisa. Elas vinham comprar aqui, por exemplo, um ovo. Outra vinha comprar uma cebola. Ou um tomate. Algumas perguntavam: “-Você vende um ovo só?”. Eu brincava, dizia que só não vendia metade porque não tinha onde cozinhar um ovo. Algumas fumavam, vinham buscar dois, três cigarros avulsos. O nome do estabelecimento é Bar da Rosário, antigamente era conhecido como “Jumbinho da Rosário” em uma alusão ao supermercado Jumbo. Era em uma época em que eu trabalhava com legumes, e diversos gêneros alimentícios.
Os rapazes se reuniam na frente do estabelecimento para tomar cerveja?
Isso era mais aos finais de semana, na sexta-feira, sábado. Naquele tempo havia umas oito mesas eles sentavam e ficavam a vontade. Havia algumas meninas que também vinha tomar cerveja. Era um número restrito de moças. Mas ficavam tomando uma cervejinha aos sábados á tarde ou na sexta-feira.
Uma pessoa muito famosa passava ás vezes por aqui?
O Sr. Eugenio Nardin, foi um grande amigo nosso. Ele era um artista muito importante. As portas da Catedral de Piracicaba foram feitas por ele. As cadeiras do altar também foram feitas por ele.
Uma figura folclórica freqüentava o estabelecimento?
O famoso Zé do Prato era nosso cliente. Ele foi casado com uma tia de uma sobrinha minha. Com isso criou-se uma amizade. O pessoal que freqüenta aqui são quase sempre os mesmos. Um que trabalhou por 22 anos na Boyes é o Oswaldo, mais conhecido como Pardal. Uma pessoa muito boa, muito conhecida. É uma pessoa muito inteligente.
Aqui é o ponto de informação da cidade?
Justamente! O que nós damos de informação! Perguntam onde é a delegacia, onde é o posto fiscal. A maioria pergunta onde é a Acipi, aonde vai “limpar” o nome. Procuram pela Guarda-Mirim.
As questões nacionais são resolvidas na mesa do Bar da Rosário?
Geralmente todos os bares têm as soluções mais perfeitas para os problemas que afligem a humanidade!
Nesse instante um freqüentador interrompe e solta a frase lapidar:
“O Bar do Amadeu é cultura!”. (Bar da Rosário ou Bar do Amadeu como é conhecido o estabelecimento pelos habitués).




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