Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Bruno Fernandes Chamochumbi (Papai Noel)

JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 25 de dezembro de 2010
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO: Bruno Fernandes Chamochumbi (Papai Noel)
Segundo Luís da Câmara Cascudo, folclorista brasileiro, Papai Noel chegou ao Brasil na década de 1920, importado junto com o cinema e o rádio. O Natal é comemorado em todo o mundo, é uma festa tão popular, que já atingiu países como o Japão e a China. Pode-se dizer que Natal é uma festa globalizada a data de 25 de dezembro é sem dúvida a maior manifestação vivida pelos habitantes do planeta. As inúmeras facetas dessa data fascinam qualquer pesquisador, uma gigantesca catarse, quando a humanidade torna-se mais fraterna, embalados por uma mídia envolvente muitos despertam o sentimento de solidariedade, o amor ao próximo pregado pelas diversas correntes religiosas. Para um grande número de pessoas o Natal é um momento de reflexão e de grande alegria. Em Piracicaba há cerca de uma década e meia, um garoto foi contagiado pelo espírito natalino, a sua vocação latente para tornar-se um ator foi despertada pela oportunidade de representar o seu primeiro papel, o do bom velhinho que povoa a imaginação de crianças e adultos. Bruno Chamochumbi incorporou e personalizou a figura de Papai Noel, o ator evoluiu, profissionalizou-se. O tradicional trenó deu lugar a um reluzente helicóptero, cruzando os ares e levando ás alturas as fantasias e sonhos de Natal. Bruno Fernandes Chamochumbi é piracicabano, nascido em 30 de setembro de 1982, filho de Juan Alberto Vera Chamochumbi e Maria Isabel Silveira Fernandes Chamochumbi.
Seu pai é natural de qual país?
Ele veio do Peru para estudar na ESALQ, onde se formou como agrônomo. A minha mãe nasceu em Piracicaba, o seu pai é Eduardo Fernandes Filho, que teve grande participação na vida social de Piracicaba, é um dos fundadores do Lions Clube em Piracicaba, participou da fundação do Clube de Campo de Piracicaba, da Acipi, do Clube de Regatas de Piracicaba, foi contador da Escola de Musica de Piracicaba, além de suas ligações com o comércio e indústria local.
Você estudou em quais escolas?
Fiz o primário no Grupo Escolar Moraes Barros e no Grupo Escolar Prudente de Moraes. Junto com a minha família morei dois anos em Santos, freqüentando escola daquela cidade. Fiz o ginásio e o colegial no COC Piracicaba. Sou graduado em publicidade pela UNIMEP.
A sua vocação para ator manifestou-se quando?
Na escola eu já participava do teatro, sempre fui muito extrovertido, tenho uma veia humorística, minha família teve diversas atividades artísticas, meu avô cantava tangos e boleros com o seresteiro Cobrinha, temos pessoas da família que são produtores culturais, gosto muito de musica, de teatro, cinema.
Qual foi o seu primeiro papel de relevo em uma peça de teatro?
Aos 11 anos atuei como o Grilo Falante em Pinóquio, na cidade de Santos, eu gostava muito de desenhar, pintar e nessa apresentação me descobri como ator.
O que é necessário para ser publicitário?
Amor, paixão, paciência, criatividade, uma boa formação cultural, há a necessidade de conhecer cores, formas, histórias, pessoas. Temos que ter menos preconceito, quando digo um preconceito menor é porque vejo a necessidade de desvencilhar todo dia de uma pré determinação, de um pré conceito. O publicitário tem que estar sempre pronto para o novo, conhecer novas pessoas, linguagens, trabalhos, novas cores, formas. O publicitário tem que estar disposto a fazer a diferença.
Há opiniões sobre o fato de o publicitário vender produtos e serviços sem que o consumidor tenha a necessidade dos mesmos?
Não acredito nisso, como publicitários temos um papel social, que começa a ser exercido a partir do momento em que vendo somente aquilo em que acredito. Somos figuras fundamentais para que um projeto possa dar certo. Não posso vender mensagens que desarmonizem o mundo, que traga preocupação ás pessoas ou que façam mal ao próximo. Alguns de fato praticam esse tipo de ação, eu não consigo. Necessito “comprar” a idéia daquilo que vou vender, acredito até que possa ser reflexo do meu trabalho com a Casa de Noel.
Quando surgiu a oportunidade de atuar como Papai Noel?
Aos 14 anos recebi uma tarefa dada pelo Luiz André Filho, diretor da escola Poli Brasil onde eu era aluno. Eu entrava em sua sala para bater papo, sempre tive muitas idéias, como todos nós temos só que eu externava meus pensamentos. Um determinado dia ele me mostrou uma roupa de Papai Noel e perguntou-me se eu queria usar para entregar folhetos da sua escola, na época chamada de Data Brasil. Adorei aquilo! Imediatamente despertou em mim um sentimento artístico. Passei a observar que as pessoas estavam gostando do meu trabalho, respondiam de forma positiva. Permaneci na Rua Governador Pedro de Toledo quase na esquina com a Rua XV de Novembro, em frente à Alfaiataria Excelsior, divertia-me muito com aquilo tudo, ria bastante. No primeiro dia coloquei uma barba importada da China, bem simples, no segundo dia falei com a Tereza, que trabalhava em nossa casa, com uma almofada da sala criamos uma barriga para o Papai Noel. Arrumei outra barba para colocar sobre o meu cabelo, a cada dia percebi que poderia melhorar o visual do Papai Noel, com pasta d`água tornei minhas sobrancelhas brancas. Tenho a pele muito morena, passei a pintá-la, afinal sou descendente de peruano e o Papai Noel é caracterizado como natural do Pólo Norte. Eu estava tão envolvido naquilo que a cada dia inventava alguma coisa. Fui convidado pelo Bingo Broadway para descer de um helicóptero no estádio do XV de Novembro, o Barão de Serra Negra. Achei aquilo o máximo! Até os doze anos eu acreditava em Papai Noel, minha mãe fazia questão de levar uma cartinha que endereçávamos á ele.
Atualmente algum jovem com 12 anos acredita em Papai Noel?
Não! Na minha época poderiam existir muitas crianças que com essa idade acreditava em Papai Noel. Não deixei de acreditar na existência dele, eu entendi que Papai Noel é uma figura que traz uma serie de situações que não são as comerciais. Papai Noel não traz presente físico, ele traz presentes afetivos. As crianças de hoje não realizam essa descoberta somente aos 12 anos, elas descobrem antes. A mídia de forma velada fica em cima delas afirmando que Papai Noel não existe. Há uma vulgarização da figura de Papai Noel ocupando desde capas de revistas masculinas até os mais diversos produtos que se possa pensar. Com isso sua imagem se banaliza. As crianças percebem mais cedo que o Papai Noel não é apenas aquele que traz os brinquedos que elas estão pedindo, e sim quem dará lugar para o sonho de um mundo melhor. É nisso que o Projeto Casa de Noel acredita, após 14 anos de trabalho.
Qual foi o passo seguinte na trajetória do ator Bruno apresentando o Papai Noel?
Após a descida de helicóptero ocorreu minha participação em evento no Edifício Canadá, no ano em que o prédio foi inteiramente decorado com luzes de natal. Eu me divertia, ria muito, cantava a música que era o tema de uma novela da época, o refrão era: “Cadê zazá, zazá, zazá?” Eu apresentava um Papai Noel diferente, que cantava, interagia com as pessoas, tinha brincadeiras, tinha atitude. Fui convidado a estudar em uma escola particular com bolsa de estudos. Os proprietários do Colégio COC de Piracicaba moravam no Edifício Canadá. No ano seguinte o Waldir, proprietário da loja Farrawi me convidou para ficar em sua loja vestido de Papai Noel, passei a fazer a animação do estabelecimento por duas a três horas, todas as noites. Aquilo me divertia muito. Eu queria decorar a entrada da loja com motivos alusivos ao Papai Noel, falei com a proprietária de uma indústria de móveis, uma amiga da nossa família, Dona Maria Helena Corazza e pedi emprestada uma poltrona vermelha, para que o Papai Noel se apresentasse melhor caracterizado. Ao mesmo tempo em que eu estava adorando, sentia-me incomodado por Papai Noel não ter um lugar totalmente seu, com árvores, tapetes, mais peças com conotação natalina. As crianças iam diariamente tirar fotos, formava uma fila para estar com Papai Noel. Levei o coral do Colégio COC para apresentar-se na loja. Eu queria a Casa de Papai Noel de Piracicaba.
Existe Casa de Papai Noel em outras localidades?
Tem em Gramado, em São Paulo. Hoje represento um Papai Noel que canta musicas de MPB, internacional, musica italiana (Nesse momento Bruno dá uma palhinha cantando um trecho da música Champagne, lembrando os tenores italianos). Apresento um Papai Noel que dança, é participativo. Essa é a grande diferença.
Você ensaia?
Ensaio com a maestrina Malu Canto e com o maestro Hermes Petrini. No ano 2000 eu já tinha 18 anos, estava no terceiro colegial, sonhava com a Casa de Papai Noel, para que cantasse, passeasse pela casa. Escrevi o projeto com a ajuda de uma tia residente no Rio de Janeiro, a Rê Fernandes, especialista em redação de projeto, especialista em cor. Após redigir o projeto me animei em desenvolvê-lo, comecei a fazer reuniões com os meus colegas de classe para convidá-los a trabalhar comigo. No meio do caminho fui apresentando o projeto a diversas pessoas. Um amigo viu o projeto, gostou, ele era proprietário de uma casa na Rua Governador, 619, que estava necessitando de uma reforma, a proposta do projeto era de que cada cantinho da casa tivesse a participação de um decorador, de um arquiteto. Alguém montando a casa como se fosse o lugar onde Papai Noel escolheu para morar, com a sala, sala de brinquedos, o quarto dele, o banheiro, a banheira, a jabuticabeira. Enfim uma casa completa, um lugar mágico que eu tinha imaginado. Começamos a trabalhar em 8 de setembro, no dia 2 de dezembro a Casa de Noel estava inaugurada, totalmente reformada por 54 profissionais de arquitetura, decoração e artes plásticas.
Como você conseguiu disponibilizar esse pessoal todo?
Não sei até hoje! Juntos eu e a Cristiane que estávamos mais disponíveis, além do Mauricio e o Juliano que colaboravam muito. Ficávamos o tempo todo ligando, fazendo os contatos, convidando, conseguimos trocar o piso da casa, reformar o jardim, instalar uma cozinha planejada, fizemos um milagre na casa. Comecei a me exercitar, a me vestir como Papai Noel, passeava pela casa, Papai Noel poderia estar com os mais diversos trajes, até mesmo um roupão.
Pode-se dizer que era um “Big Brother” ao vivo com Papai Noel?
Isso! Tanto que naquele ano já havia uma chamada para o Big Brother apresentado pela TV Globo, o mundo inteiro estava alerta com o Big Brother, só depois é que fomos descobrir a proposta do espetáculo apresentado pela televisão, parecida com a nossa, apresentar o Papai Noel de tal forma que em qualquer canto da casa saísse uma foto bonita.
Para você foi um empreendimento com bons resultados financeiros?
Não apenas deixamos de ganhar, como também investimos muito dinheiro. Como divulgação o evento foi um sucesso, com cobertura da TV Globo, mídia dos mais diversos locais, o Senac como parceiro contratou uma agencia de propaganda com assessoria de imprensa, houve uma grande aceitação por parte do público. Em 2001 decidimos mudar de endereço, fomos para a Società Italiana di Mutuo Soccorso. A idéia é de que os arquitetos executassem um trabalho dentro de um espaço de utilidade pública. Ao sair de lá, confesso que achei que não ser possível fazer nada, não iria dar tempo, era o mês de julho, a arquiteta Cristina Anselmo estava comigo, disse-lhe: “-Cristina, não vai dar não, é muita coisa!”. A diretoria da Societá estava reformando muitas coisas, portas e janelas, tinha refeito toda a hidráulica, uma parte da elétrica, tinha sido feita uma laje no palco, o piso anterior era de madeira, comprometido pelo cupim. Passei a noite toda sem dormir, no dia seguinte liguei para a arquiteta e disse-lhe: “- Cristina! Decidi! Vamos fazer!” Começamos a trabalhar, o marketing era intuitivo, simultaneamente tinha profissionais trabalhando em conjunto, quando vi estava coordenando um mega projeto, juntamente com o presidente da Societá Italiana que era o Marcos Guidotti. Passei muitas noites sem dormir, fiquei muito tempo dormindo na casa de uns amigos que moram ainda no Edifício São Francisco, ao lado da Societá. Fui movido pela pressão de executar um projeto de muito sucesso. Até a tinta com que foi pintada a fachada da Societá Italiana foi feita de maneira especial. Conseguimos cozinha, jardim, piso, fachada, iluminação, a Societá Italiana estava revitalizada. Nesse ano tivemos 12.000 pessoas visitando a Casa de Noel. Corais apresentando-se todas as noites. O evento começou a deslanchar, a imprensa regional passou a nos procurar. Em 2003 tivemos o patrocínio de duas empresas nacionais, a Claro e a Del Valle. O projeto passou a ser conhecido no Brasil todo. A Telefônica nos convidou para fazer um cartão telefônico.
A partir de 2003 houve um redirecionamento das atividades da Casa de Noel?
Percebemos que o foco passou a ser muito mais nas musicas que Papai Noel apresentava, nos shows, a partir de 2003 passamos a contratar profissionais que cuidassem mais da musica, do teatro, da parte cênica do nosso projeto. Começou a ser um sucesso, passamos a fazer shows em que Papai Noel cantava, seguindo um roteiro. A arquitetura e decoração deram a prioridade para dar espaço a uma parte cênica. Foi um sucesso, conseguimos muitas coisas boas, passamos a investir nos shows. Até 2005 os shows aconteciam exclusivamente na Societá. A partir de 2006 os shows passaram a sair da Societá, o SESC nos contratou, em 2007 começou o projeto “Canta Noel”, que é a chegada do Papai Noel de helicóptero na Rua do Porto. Surgiram outras manifestações, hoje a Casa de Noel não é mais um local, é um grupo de artistas que desenvolvem shows itinerantes de natal. A Casa de Noel é o coração de quem assiste. Desde o ano passado Papai Noel faz shows sobre as águas do Rio Piracicaba, em um barco iluminado. Estamos indo aos bairros, como Santa Terezinha, Vila Rezende. Abrimos o projeto.
Como é a relação do Bruno com o Papai Noel?
O Bruno hoje está com maior visibilidade, anteriormente havia a preocupação em não aparecer quem representava o papel do Papai Noel. Valorizei e continuo valorizando a imagem do Papai Noel como embaixador do nascimento de Jesus. Fortalecemos a idéia de que o projeto é organizado por um grupo de profissionais. A Mamãe Noel é uma atriz contratada.
O seu presente de natal é interpretar o Papai Noel?
Acho que o meu presente de natal até o fim da minha vida é o Papai Noel.
Como você vê a comemoração do nascimento de Jesus e a importância dada ao Papai Noel em uma mesma data?
Há quem diga que Papai Noel toma o lugar de importância que pertence a Jesus. A primeira coisa que o nosso projeto define é de que o valor do Natal fuja do aspecto comercial. A imagem da Casa de Noel é uma imagem não comercial. Ele não vem para trazer balas e pirulitos, sua função é trazer mensagens de paz, amor, alegria, renovação, vem para trazer a boa nova: “-Nasce Jesus Cristo!”, que é o símbolo máximo do natal. A Casa de Noel reconhece isso e acredita que essa divulgação seja importante, aumentar o número de pessoas que se lembrem de que o natal é o nascimento de Jesus. A origem do Papai Noel é de natureza cristã, originou do bispo São Nicolau. A imagem do Papai Noel é lúdica, é uma imagem que “cola” facilmente.
Você realizou um trabalho de pesquisa sobre a figura de Papai Noel?
Em 2000 quando abri a Casa de Noel estudei muito para estar habilitado a responder as perguntas que poderiam ocorrer principalmente às questões mais complexas que poderiam partir, sobretudo das crianças.



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