Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

domingo, maio 04, 2014

ANTONIO ROBERTO PREVIDE


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 19 de abril de 2013.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/

ENTREVISTADO: ANTONIO ROBERTO PREVIDE


 
Antonio Roberto Previde nasceu a 22 de abril de 1949, em Piracicaba, no Bairro Monte Alegre, na Colônia do Macabá. Filho do casal Virgilio Previde e Luiza Bacchin Previde que tiveram os filhos Maria Antonia, Antonio e Gilmar.
Os seus pais moravam no Bairro Monte Alegre quando ainda eram solteiros?
A minha mãe morava com sua família mais para os lados do Bairro Rural Tupi. Meu pai morava no Macabá. Eles se conheceram em uma festa que teve no Monte Alegre, era uma festa promovida pelo Comendador Pedro Morganti, um churrasco para 5.000 pessoas.  Todas as colônias da região eram convidadas para participarem. Meu avô materno, Antonio Bacchin, tinha o sítio dele com cana de açúcar. Minha mãe foi à essa festa com a família, conheceu meu pai e alguns meses depois estavam casados. Foram morar no Macabá.
Você lembra-se como era a casa em que morava na Colônia Macabá?
Lembranças eu não tenho, só depois, já adulto, é que voltei para rever. Meu pai foi por dois anos consecutivos campeão de corte de cana de açúcar. Tinha que cortar e amarrar a cana de açúcar em um feixe, havia um padrão pré-estabelecido, cada feixe era composto por 22 canas, não podiam estar com as pontas.
O campeão de corte de cana ganhava algum prêmio?
Ganhava! Meu pai dizia que com o prêmio que ganhou pela primeira vez comprou uma casa na Rua Santa Cruz. Era uma casinha simples e naquela época o imóvel não era tão valorizado como hoje. Com o valor ganho no segundo ano em que foi campeão novamente, ele adquiriu uma outra casa no Bairro São Judas, na esquina da Rua Dr. Alvin com a Rua do Trabalho, onde fomos morar. Meu pai ficou trabalhando na Usina Monte Alegre até 1951. Minha mãe cuidava da nossa casa, quando havia colheita de café ela ia ajudar.


 
Que idade você tinha quando sua família mudou-se do Monte Alegre?
Eu tinha dois anos de idade quando a minha família mudou-se para a Rua Regente Feijó esquina com a Rua Santo Antonio. Viemos morar na casa situada no Estádio Roberto Gomes Pedrosa, era a casa do caseiro. Romeu Ítalo Ripoli pediu que seu amigo Comendador Pedro Morganti, indicasse uma pessoa para cuidar do campo de futebol. O Pedro acabou indicando meu pai. Com isso moramos dentro do Estádio Roberto Gomes Pedrosa, mais ou menos, 30 anos. Eu morei lá até me casar aos trinta anos. Meu pai permaneceu mais dois anos, depois o estádio foi vendido para a MAUSA, ele permaneceu mais algum tempo e acabou saindo.

 

Você era um espectador privilegiado?
Era! O que eu assistia de jogo de futebol e jogava!
Você chegou a integrar a equipe do XV de Novembro de Piracicaba?
Sim! Desde as categorias de base, joguei como centro avante no infantil, juvenil e amador. Depois veio o XV Escola, que o falecido Jacobelli era o treinador, o Duarte Filho era o diretor de esporte, em 1969 passei a ser jogador profissional do XV de Novembro, na época em que o Comendador Humberto D`Abronzo era o presidente.
Além do XV de Novembro, você jogou em outros times?
Joguei no Platinense, de Santo Antonio da Platina, no Paraná, o técnico era o Orlando Maia, fiquei por pouco tempo no Bandeirantes, joguei em Tietê, tive uma passagem pela Ponte Preta.
Por quantos anos você jogou?
No amadorismo eu era famoso pelo chute que eu tinha, eu chutava forte mesmo. Inclusive existe uma reportagem a respeito no Jornal de Piracicaba onde fala a meu respeito, referindo-se como “O Canhão da Rua Regente”. Pelo XV de Novembro joguei praticamente dois anos. Em 1969 me profissionalizei. Infelizmente naquela época ganhava-se o salário mínimo para jogar no XV. Jogava porque gostava.


Tinha o “bicho” (prêmio pela vitória) também?
O “bicho” não era isso tudo que falavam! Em termos atuais seria R$ 100,00 ou R$ 200,00. Não é como hoje onde ganham de bicho R$ 5.000,00 ou R$ 10.000,00. Existiam jogadores que tinham um salário melhor, como Piau, Amauri, Nicanor, Chicão, Ademir Chiarotti, Ademir Gonçalves. Época dos técnicos Julião, Cardinalli, Drace, Dema, Gaspar. Era uma época em que não havia tanto o emprego da força física, era mais habilidade mesmo. O futebol era mais gostoso de assistir. Eu afirmo que enquanto o XV de Novembro jogava no Estádio Roberto Gomes Pedrosa, todo ano se revelava um jogador. O XV sempre vendia um jogador para o Corinthians, São Paulo, Palmeiras. Com o dinheiro dessa venda acaba montando o time para o próximo campeonato. Acredito que por volta de 1973 a 1974 o XV de Novembro começou a jogar no Estádio Barão de Serra Negra,  diminuiu muito a revelação de novos jogadores para serem vendidos para os times de outras cidades.
A recente vitória do Ituano que conquistou o título estadual pode incentivar o futebol do interior?
Com certeza! Antigamente era difícil um time do interior ser campeão. Tinha que ganhar na bola e algumas vezes no apito também. Havia por parte de alguns juízes um  favorecimento aos times grandes. Havia também um favorecimento ao chamado “time caseiro”, tenho a experiência de ter jogado em várias cidades, jogar contra o time local, no seu campo, era difícil. Todo lance duvidoso era contra o time visitante. Tinha que jogar muito bem, não deixar dúvidas. Tinha um juiz, que dizia ao jogador; “Caia que eu dou o pênalti! Se você não cair como posso dar o pênalti?”. Isso são fatos que vivi não me contaram.
Você chegou a jogar contra times tidos como grandes?
Sim, contra o São Paulo, por exemplo, no tempo da dupla de zagueiros Jurandir e Dias. O Jurandir era de grande estatura, o Roberto Dias era um craque.
O XV de Novembro é um dos valores que identificam Piracicaba?
Com certeza! Lembro-me que quando os treinos eram no Estádio Roberto Gomes Pedrosa, havia um senhor que ficava na portaria e arrecadava um valor simbólico, equivalente a R$ 1,00 hoje, isso para o publico assistir os treinos do XV. Teve dia de ter 2.000 pessoas assistindo a um treino do time. Naquela época havia o folclore de haver dois treinos coletivos na semana. Normalmente as terças e quinta feiras.
No seu ponto de vista hoje é diferente por quê?
Quantos campos de futebol você vê hoje? São poucos. E estão distantes. Havia muito mais times e jogadores que se despontavam no futebol amador. Eram convidados para fazerem testes no XV. O pessoal da ESALQ jogou muito com o XV. O Atlético ( Clube Atlético Piracicabano) tinha um timaço. Assim como outros times como o MAF, Usina Costa Pinto, eu mesmo joguei no Vera Cruz, no União Porto, no Palmeirinha.
Falta estímulo ao jovem para que participe de esportes?
Falta. Hoje há também essa lei que nós temos de que o jovem só pode trabalhar depois de completar 16 anos, eu sou contra. Acho que ele fica muito tempo sem fazer nada. A criança tem o direito de brincar, mas a partir dos 12 a 13 anos ele já começa a ser adolescente. Ele não se contenta com uma bolinha de gude, ou uma bola de pano para ficar chutando. Não irá brincar de “queimada” que hoje nem se vê mais. Ainda existe o trabalho infantil escravo. E não precisa ir longe, em Piracicaba mesmo você irá encontrar. Dos 14 aos 16 anos tem muitos garotos que já são homens. E não podem trabalhar! Na nossa época com essa idade era contratado como aprendiz. Fiz o primário no Grupo Escolar Moraes Barros, o diretor era Seu Irineu. Em frente ao Grupo Escolar ficava a Fábrica de Bebidas Andrade. Bebíamos um refrigerante “Caçulinha” sem gelo!
Você além de estudar fazia alguma outra atividade?
Ajudava meu pai, varria a arquibancada, eu tinha uns 12 anos. Todo domingo havia jogo, na segunda feira tinha que varrer as arquibancadas, o campo todo. Era um quarteirão quadrado. ( Cerca de 10.000 metros quadrados). Minha mãe lavava roupas, o uniforme do XV, muitas vezes eu tinha que ajudar a lavar as meias. Meu pai ganhava salário mínimo, mais a residência, água, luz e morávamos no centro.
Quanto tempo você demorava para varrer o campo todo?
Dois dias! Lavava os vestiários.
Alguma vez você encontrou alguma coisa curiosa no estádio, deixada por algum torcedor?
Achava de tudo! Dentadura, aliança, dinheiro, boneco, blusa, paletó, cachimbo, radinho de pilha.
Após concluir o curso primário no Grupo Escolar Moraes Barros você foi estudar onde?
Fui para o SENAI, que está até hoje no mesmo local, perto do colégio Dom Bosco. Naquela época o curso no SENAI durava quatro anos, dois anos de oficina e dois anos que equivalia ao ginásio. Formei-me torneiro mecânico, trabalhei na Indústria Fazanaro.  Só que não me identifiquei muito com a profissão. Em paralelo continuava jogando bola. Saia do trabalho às cinco horas da tarde e vinha a pé para treinar no campo do XV. Na época o Fazanaro ficava na Rua Bom Jesus. Naquela época havia o curso de madureza (ensino supletivo), no Colégio São Bento de Araraquara. Estudava aqui e prestava os exames lá. Por dois anos fui jogador profissional do XV de Novembro. Nunca consegui ter uma projeção, apesar das pessoas que me conheciam me chamarem de “Virgilinho”, por causa do meu pai Virgilio.
O que faltou para você despontar como estrela do futebol?
Acho que faltou orientação. Fui já de inicio para o meio de jogadores experientes, com hábitos pouco disciplinados para o esporte. Eu continuava ganhando o salário mínimo, que penso que tinha menor poder aquisitivo do que hoje. O Baú da Felicidade foi inaugurado aqui em Piracicaba, um chefe de uma equipe, Antonio Carlos Coletti, me conhecia, sabia que tinha alguma experiência em vendas, já tinha feito uns bicos. Ele me convidou, afirmou que poderia ganhar três vezes mais. O técnico do XV, o Dema, tentou evitar a minha saída da equipe, mas eu disse-lhe que não estava vendo ali muito futuro para mim. Trabalhei um ano e pouco no Baú da Felicidade, a loja ficava na Rua Governador, próxima ao Clube Cristóvão Colombo do centro. Era uma loja enorme, Ia da Rua Governador Pedro de Toledo até os fundos na Rua Benjamin Constant.
Era no auge do Baú da Felicidade?
Vendia-se muito. Eletrodomésticos e móveis. E tínhamos uma cota de carnês do Baú da Felicidade. Esse era o chamado “filet mignon”. Na época eu tinha uns 21 anos. Nessa época consegui comprar meu primeiro carro, um Fusca 1961, coral. Isso foi em 1972. Era um carro usado. Passei a jogar futebol só no amadorismo. Em 1973 foi inaugurada em Piracicaba a Eletroradiobraz. Eu e um amigo éramos vendedores do Baú, estávamos trabalhando na rua, vimos uma grande fila no SENAI, ficamos curiosos, perguntamos o que estava acontecendo, um representante da empresa disse que estavam contratando pessoal para trabalhar na Eletroradiobraz. Fizeram uma proposta melhor do que tínhamos no Baú. Fui trabalhar no setor de móveis da Eletroradiobraz.
A vinda da Eletroradiobraz à Piracicaba foi um acontecimento marcante para o comércio local?
Foi tido como a inauguração de um Shopping. A Banda União Operária executando musicas, o prefeito Adilson Maluf cortando a fita inaugural. Foi uma festa! Foi uma revolução no comércio local. Fui registrado no dia 20 de agosto de 1973, fiquei 30 dias em treinamento em Campinas, para inaugurar a loja no dia 3 de outubro de 1973, o público estava entrando pela Rua Visconde e os operários acabando de cimentar a saída pela Rua Silva Jardim. Na época tínhamos o Supermercado Brasil, a Ultragaz que era uma loja e a Casa Pernambucana, que trabalhava mais com tecidos. Eram as lojas maiores da época.
Quantos anos você permaneceu na Eletroradiobraz?
Fiquei 28 anos lá dentro. Com o falecimento do Plínio Sigmar Bortoletto, que era presidente do sindicato, como suplente dele assumi em 2000 a presidência do sindicato. Na Eletroradiobraz trabalhei como encarregado de móveis, de máquinas e ferramentas, de lazer, barracas, camping, bicicletas. Da linha branca: geladeira, fogão, máquina de lavar roupa. Linha de imagem: televisão, som. De Eletroradiobraz passou a se denominar Jumbo-Eletro e atualmente Pão de Açúcar, sob o controle de um grupo francês. Ainda sou funcionário do Pão de Açúcar.
Seus vencimentos provêm de qual entidade?
Provém do sindicato. Sou funcionário cedido ao sindicato. Em 1999 inaugurei o Pão de Açúcar 24 Horas. O Creso R. Lopes era meu gerente, continua gerente até hoje. Foi feita uma reforma rápida, contratou-se meia dúzia de funcionários. Nós já tínhamos uma equipe que trabalhava a noite que eram os repositores, pessoal da limpeza, segurança. Foram contratados dois caixas, uma moça na padaria e rotisseria. No inicio foi difícil, tinha que fazer a leitura às duas horas da manhã, às quatro horas da manhã, pelo fato de morar ao lado eu fazia essas leituras, com chuva, com frio, a cada duas horas ia até a loja. Fazia uma avaliação, olhava, não tinha ninguém. Hoje o Creso diz que tem sete caixas operando e quase não dá para atender a todos. De madrugada é um movimento tremendo, criou-se um habito.
Como você define comércio?
Todo mundo precisa comprar. Só que a pessoa gosta de comprar onde é bem atendido. E bem recebido. Comércio é uma arte. Precisamos qualificar cada vez mais os funcionários que trabalham no comércio. Infelizmente há uma rotatividade muito alta de funcionários. Os empresários investem muito pouco em treinamento.
Aí entra também o custo do funcionário, ele ganha mal e o empresário paga muito.
A carga tributária é alta. Se um funcionário ganha R$ 1.000,00 somando a carga tributária até a demissão dele ela chega a 100%, ou seja, para empresa ele irá custar R$ 2.000,00. Todo mundo vende com lucro, ninguém vende com prejuízo, e a concorrência por mais barato que ela venda o produto ela nunca chega ao preço de custo.
Piracicaba é uma boa praça comercial?
É uma cidade que tem dinheiro, é um bom mercado. Quando uma empresa se estabelece na cidade já fez uma pesquisa antes de vir. Todas as empresas que vieram se deram bem.
Quais categorias abrangem o seu sindicato?
Os empregados do comércio varejista e atacadista de Piracicaba. São 7.000 comerciários. Temos apenas 15% desse total que são associados.  O setor de padarias já pertence a outro sindicato. Lanchonetes são ligadas ao setor hoteleiro.
Quantos diretores têm no Sindicato dos Empregados no Comércio de Piracicaba?
São 16, sendo que 5 permanecem na sede prestando serviços diretamente ao sindicalizado.
O sindicato oferece vários benefícios aos associados?
O associado paga R$ 20,00 por mês. Ele tem tratamento dentário gratuito, para ele, esposa e filhos. Está a disposição durante o dia e funciona também a noite. Temos a farmácia que vende medicamentos a preço de custo. Oferecemos três advogados: civil, trabalhista e previdenciário. Gratuito tanto na consulta como no processo. Temos uma videoteca com uns quatro mil títulos de filmes. O associado pode freqüentar o nosso Clube dos Comerciários, em Artemis, uma área de 20.000 metros quadrados, com piscina, campo de futebol, quiosques, salão de festas. O comerciário que tiver filho tem R$ 50,00 por filho para adquirir material escolar. Oferecemos a colônia na Praia Grande, que hoje paga-se R$ 70,00 por dia para usufruir com direito ao café da manhã, almoço, jantar, quarto com ar condicionado, frigobar, televisão. O associado pagando R$ 20,00 por mês tem direito a tudo isso. Oferecemos cursos, palestras, em nossa sede.
Quando foi fundado o sindicato?
Em 17 de julho de 1962 foi criada a Associação dos Comerciários de Piracicaba, transformada em sindicato em 8 de janeiro de 1963. Fundado por Nagib Ismael, então funcionário da Porta Larga.

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