Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

sexta-feira, abril 08, 2011

MARLENE ELIAS CHIARINELLI

JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
Sábado 09 de abril de 2011
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
ENTREVISTADA: MARLENE ELIAS CHIARINELLI
Marlene Elias Chiarinelli nasceu em Piracicaba no dia 17 de novembro de 1931, filha de Amélia Abrahão Elias e Tuffi Elias, primogênita, sendo seus irmãos: Sally, Cecílio, Gabriel, Elizabeth e Amelinha.
Quando você nasceu o seu pai exercia qual atividade?
Morávamos na Rua Tiradentes entre a Rua Prudente de Moraes e Rua Treze de Maio, meu pai era marceneiro. Meus pais eram brasileiros, sendo que minha mãe era filha de libaneses e meu pai filho de sírios. Na esquina aonde mais tarde veio a ser a lanchonete Daytona e posteriormente o Banco Sudameris, atual Santander, papai montou um bar, o Tuffiniquim, esse nome era o mesmo de um aperitivo criado pelo meu pai e que fez um grande sucesso na época.
Ao mudarem para esse local qual era a sua idade?
De cinco para seis anos, logo passei a estudar e sendo a filha mais velha ajudava nas tarefas domésticas e no estabelecimento comercial da família. Estudei no Colégio Assunção desde o jardim da infância até a minha formatura.
Da sua casa até o colégio qual era a condução que você utilizava?
Ia a pé mesmo! As amigas passavam pela minha casa e nós subíamos pela Rua Boa Morte. Logo cedinho, umas cinco horas da manhã eu já estava em pé, ajudando a minha mãe a fazer sonhos, que eram colocados á venda no bar, havia muitos viajantes hospedados nos hotéis das imediações, antes de embarcarem no trem da Companhia Paulista passavam pelo Tuffiniquim para tomar o café da manhã.
Como era o uniforme escolar do Assunção?
A saia era azul marinho pregueada, a meia do tipo três quartos, blusa branca de manga comprida, sapato preto fechado. Não podia usar anéis, batom, maquiagem. Nessa época passamos por um período de grande luta, dificuldades muito grandes, contudo não foi de sofrimento, os meus pais tinham um grande amor entre eles, era um casal apaixonado, e isso tudo sobrepunha ás dificuldades, era um casal muito unido.
O Bar Tuffiniquim permaneceu por quanto tempo?
Por vários anos, após encerrarmos suas atividades mudamos para a Rua São José, no local onde hoje existe o Poupa Tempo, morávamos em uma casinha muito humilde, foi uma fase muito dura em nossa vida. Papai se estabeleceu ali com frutas, doces finos.
Nessa época como filha mais velha já ajudava no orçamento familiar?
Após estudar piano por nove anos formei-me como professora pelo Conservatório Carlos Gomes de Campinas, viajava pelo trem da Cia. Paulista. Lecionando piano eu sustentei meus estudos e ajudei na composição do orçamento familiar. Essa atração pela música faz parte da nossa família, papai tocava violino, integrava a Turma da Seresta, tocou com grandes músicos de Piracicaba como Olenio Veiga, eu tenho dois filhos músicos. É interessante observar que com todas as lutas, dificuldades, meus pais não exibiam sofrimento pela situação. Minha mãe era uma pessoa muito alegre, mesmo tendo um único vestidinho para usar ela estava sempre bonitinha, arrumadinha. Ela era muito bonita. Meus pais realmente se amavam.
Onde foi a próxima residência da família?
Em uma casa que existia na Rua São José, 681 era um casarão velho cujo inquilino anterior tinha sido a Casa da Lavoura e onde mais tarde foi construído o prédio que atualmente abriga a Procuradoria Federal. Nessa ocasião eu tinha por volta de quarenta alunos de piano, com muita dificuldade tínhamos adquirido um piano modelo armário da marca Bechstein, eu ainda dava aulas particulares de latim e francês.
Ali foi o inicio de novas atividades comerciais de Tuffi Elias?
Em uma das salas ele passou a vender máquinas da marca Olivetti em outra sala eu lecionava piano.
Como você conheceu o seu futuro marido?
Roggero Chiarinelli trabalhava na Rádio Difusora de Piracicaba, sendo inclusive locutor esportivo. Naquele tempo a valsa era um dos ritmos mais tocados, eu tinha composto a valsa “Carol” em memória de uma irmã que tinha sido vitimada por um acidente, isso quando ainda morávamos na casa na Rua São José em frente ao Cine Broadway, ao lado existia o Hotel Lago onde ficou hospedado por um bom tempo o Maestro Lameira que estava apresentando uma peça no Teatro Santo Estevão. Ele ouviu a minha musica, gostou muito. A minha mãe tinha um compadre, Carlos Brasiliense, que compunha, fazia arranjos, ele ouviu a minha música e fez um arranjo. Conheci o meu futuro marido no Teatro Santo Estevão na apresentação da minha valsa pelo Maestro Lamera. Três vezes por semana eu participava de uma apresentação ao vivo no auditório da Rádio Difusora, em beneficio do Tuberculoso Pobre. Naquela época não existia televisão, eu me apresentava com Alcides Righetto que tinha uma voz linda, com Alcides Zagatto ao violino, o programa era das sete ás sete e meia da noite, apresentado pelo Roggero. O Roggero formou-se dentista, exerceu por sete anos a profissão, até que associou ao meu pai no comércio de máquinas, mais tarde ele foi proprietário da Comercial Chiarinelli, voltada para o comércio de máquinas e equipamentos de escritório.
Onde foi celebrado seu casamento?
Após namorarmos por sete anos nosso casamento foi realizado na Catedral de Santo Antonio, á 10 de abril de 1955. A lua de mel foi no Rio de Janeiro, fomos até São Paulo de automóvel de lá para o Rio fomos de avião. Ficamos hospedados em Copacabana, em São Paulo ficamos hospedados no Ibiá Hotel na Avenida São João, a nossa viagem durou vinte dias. O Roggero já tinha se formado em odontologia pela faculdade de Uberaba, e montado o consultório que ficava na Rua São José logo abaixo da Rua Governador. Tivemos cinco filhos: Maria Cristina, Maria Silvia, Maria Regina, Roggero e Renato.
Quando começou a sua atividade com o Clube da Lady?
Há 50 anos! Ou mais! Comecei contra a vontade do Roggero, já tínhamos os cinco filhos. O Clube da Lady já existia, a Dona Maria Figueiredo, proprietária da Rádio Difusora tinha muita amizade com uma senhora de São Paulo chamada Aydee Guimarães que tinha introduzido o Clube da Lady naquela cidade. Ela desejava que em Piracicaba também fosse criado o Clube da Lady, que ficou nas mãos de Dona Otilia Furlan. Algumas senhoras se reuniam, era um grupo muito seleto. Sob a direção da Dona Alzira Maluf houve a participação de um maior numero de mulheres, passando a ser feito uma espécie de chá com as integrantes desse grupo. Zelinda Jardim presidiu por dois anos o Clube da Lady. A Ladice Salgot administrou o Club da Lady por um período de seis meses, quando seu marido Francisco Salgot Castilllon teve seu mandato político cassado pelo governo da época. Eu freqüentava o Clube da Lady, participando com sugestões e idéias, mas fui pega de surpresa quando ao ir a uma das reuniões, realizada no Teatro São José, vi escrito: “Presidente Marlene Chiarinelli”. As minhas amigas conversaram com o Roggero na perspectiva de fazer com ele aceitasse a minha atuação como presidente do Clube da Lady. Houve concordância, eu comandaria, mas de dentro da minha casa, com isso até hoje a sede do Clube da Lady é na minha casa.
O que é o Clube da Lady?
É uma entidade muito séria, está na cidade a aproximadamente 53 anos, nós atendemos a comunidade carente de Piracicaba, sem vínculos políticos ou religiosos. Realizamos promoções e distribuímos á entidades que se responsabilizam em assistir aos necessitados. Organizamos eventos mensais que ocorrem no Teatro São Jose, ali se reúnem cerca de 300 mulheres quando então arrecadamos fundos que serão repassados á 22 entidades assistenciais. Temos umas 500 senhoras de Piracicaba que são as beneméritas. O Clube da Lady é a mulher de Piracicaba, constituído de forma legal, obedecendo a todas as regras que ditam a conduta fiscal de entidades congêneres, assistido por um escritório contábil.
Nessas reuniões mensais do Clube da Lady o que acontece?
Nessas reuniões entre outra atividades temos o melhor buffet da cidade, realizamos um bingo onde as prendas arrecadadas são sorteadas.
Qual é a faixa etária das pessoas participantes?
Já tivemos um período onde a faixa etária era alta. Atualmente temos jovens que participam dos nossos eventos, assim como pessoas das mais diversas classes sociais.
Qualquer pessoa interessada pode participar?
Basta adquirir o ingresso para os chás que promovemos na ultima quarta feira de cada mês a partir das duas horas da tarde.
É permitida a participação masculina no evento do Clube da Lady?
Atualmente é permitida a participação de lordes também! Muitas senhoras levam seus maridos, assim como jovens casais de namorados. Essa participação de pessoas mais jovens é muito importante. O Clube da Lady tem como grande patrimônio a confiabilidade adquirida junto a nossa cidade. Uma entidade que permanece funcionando por mais de cinco décadas adquire uma respeitabilidade notável. A historia do Clube da Lady é muito rica, já ganhamos muitos atestados de reconhecimento, até pela Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo. Trouxemos artistas de projeção nacional para se apresentarem em nossos eventos: Sérgio Reis, Dick Farney, Elizeth Cardoso, Altemar Dutra, Antonio Marcos, Roberto Carlos que veio por três vezes, gratuitamente, quando fizemos bailes denominados “A Noite do Rei”, fui muito amiga da Nice sua esposa já falecida. Roberto Carlos tinha um rancho na beira do Rio Piracicaba, quando estavam em Piracicaba passavam pela minha casa com suas crianças. Até a Dercy Gonçalves participou de um dos nossos chás. Em determinada época a Santa Casa de Misericórdia de Piracicaba estava em uma situação financeira muito penosa, precisamos nos mobilizar para socorrê-la. Realizamos um jantar de gala no Grande Hotel de Águas de São Pedro.
O Clube da Lady movimenta o lado feminino das forças vivas de Piracicaba?
Já movimentamos muito, atualmente muitas representantes das forças vivas podem até não freqüentar os nossos chás, mas colaboram muito conosco. Não temos subvenção de nenhum órgão oficial. Não temos vinculo com nenhuma entidade religiosa ou política, temos sim a nossa postura de exercer os nossos direitos de cidadãs. O Clube da Lady é apolítico, mas eu sou uma cidadã.
O Clube da Lady acompanha de perto o trabalho das entidades beneficiadas por ele?
Destinamos recursos para 22 entidades assistenciais de Piracicaba, acompanhamos o desenvolvimento das atuações de cada uma delas, as assistentes sociais nos fornecem os subsídios necessários, acompanhamos o trabalho de cada entidade com muita atenção. Um dos trabalhos mais recentes que conta com o envolvimento do Clube da Lady é o Restaurante Fome Um, que passou por um processo de reestruturação e hoje desenvolve um trabalho muito importante É voltado para assistir aos andarilhos, eles encaminham-se para lá, tomam um banho, recebem novas roupas e almoçam. Esse trabalho visa restaurar a dignidade da pessoa que vagueia pelas ruas.
Bons samaritanos dotados da maior boa vontade, adotam ações isoladas junto á pessoas carentes, como a distribuição de alimentação em logradouros públicos isso pode acarretar mais prejuízo do que benefício?
Alimentamo-nos diariamente, o fato de distribuir uma sopa uma vez por semana não irá atender plenamente a pessoa necessitada. Da mesma forma que ao oferecer um jantar especial na véspera de Natal, é uma ação isolada de impacto pouco representativo no apoio efetivo ao individuo. É necessária uma ação planejada, dentro de um contexto, com uma abordagem feita sob a supervisão de pessoas especializadas. Ao centralizarmos nossos esforços no apoio ao Restaurante Fome Um foi em decorrência do nosso acompanhamento já por mais de cinco anos dessa iniciativa. Acompanhamos passo a passo a trajetória desse trabalho assistencial, no momento apropriado demos o apoio necessário. O resultado tem sido muito gratificante, diariamente são atendidas de 160 a 200 pessoas. Andarilhos que passaram a se alimentar lá estão com outra aparência, um dos que conheço de ver pelas ruas da nossa cidade, é um senhor idoso, que se mostra recuperado fisicamente, simplesmente pelo fato de ter pelo menos uma boa alimentação diária. Às vezes ao encontrá-lo questiono se ele tem ido se alimentar no restaurante Fome Um, ele responde que vai todos os dias. São pessoas que não tem nenhuma perspectiva futura, a não ser esperar pela morte, por isso permanecem jogados nas sarjetas. É só dar um pouco de dignidade á essa pessoa, ela poder sentar á mesa para comer com roupinha limpa.
Isso não é uma obrigação do Estado?
Como o Estado não faz, nós fazemos. Pelo menos com a nossa parte nós contribuímos.
Quais são os propósito das senhoras que participam do Clube da Lady?
A credibilidade que adquirimos no decorrer dessas décadas todas é um fator que atrai as pessoas munidas de bons propósitos. Há o aspecto da interação social durante as realizações dos nossos eventos, outro fator é o desejo de realizar sua colaboração social.
Para quem não conhece as atividades desenvolvidas pelo Clube da Lady ao deparar com esse nome pode cair na tentação de imaginar que se trata de uma entidade de madames?
Se existia essa imagem ela foi extinta. Tive muito trabalho para conscientizar quem nos conhecia de que se o Clube da Lady carrega esse nome é pelo fato de ter sido assim denominado em sua origem, nos Estados Unidos, onde se deu o inicio dessa entidade.
A imprensa de Piracicaba apóia o Clube da Lady?
Ajudam-nos muito, temos o apoio das rádios e jornais de Piracicaba.
Como é a sua relação com informática?
Eu gosto muito, participo do facebook, sou “orkuteira” e “twiteira”! Senti a necessidade de me integrar ás novas tecnologias a partir do momento em que nas reuniões de fim de semana da minha família composta por 15 a 20 pessoas, muitas vezes a conversa girava em tornos desses meios de comunicação digital. Percebi que se não me inteirasse a respeito estaria ficando a margem do assunto em pauta. Senti que poderia ficar analfabeta digital. Já faz um cinco ou seis anos que tenho uma professora particular de informática que está sempre me inteirando das novidades tecnológicas. Coloquei várias musicas no Youtube. Não uso e nem gosto dos sites de bate papo No inicio eu achava que teria muitas dificuldades com a internet, principalmente pela minha idade, sempre digo que o meu passado é grande, mas meu futuro é curto. Hoje qualquer duvida que eu tenha recorro à internet. O Google é o meu santo salvador!






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