Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

domingo, janeiro 27, 2013

DINIVAL TIBÉRIO

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 19 de janeiro de 2013
Entrevista: Publicada aos sábados na Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/


ENTREVISTADO: DINIVAL TIBÉRIO

 
Dinival Tibério nasceu em Piracicaba a 27 de abril de 1942, filho de Paulo Tibério e Angela Cocco Tibério que tiveram os filhos Anaide, Dinival, Laerte, Marlene, Humberto e Paulo, o Paoléo fotógrafo do Jornal de Piracicaba.


Você morava em que bairro?


Nasci e fui criado na Cidade Alta, na Rua Aquilino Pacheco entre a Rua D. Pedro I e D. Pedro II.


O seu pai tinha qual atividade profissional?


Ele foi construtor e goleiro do XV de Novembro de Piracicaba, ele jogou de 1940 a 1944, era conhecido como Tibério. Isso no então Estádio Roberto Gomes Pedrosa. Onde hoje é o Estádio Barão de Serra Negra era um bosque, tinha um campo de futebol de várzea, do Paulistano.


Você freqüentou quais escolas?


Estudei no Grupo Escolar Dr. João Conceição, ao lado da Igreja dos Frades, depois estudei no Grupo Escolar Dr. Alfredo Cardoso. Sou formado em jornalismo pela UNIMEP. Rádio eu comecei na antiga Rádio A Voz Agrícola do Brasil, mais tarde tornou-se Rádio Alvorada e atualmente é a Onda Livre. A Rádio A Voz Agrícola ficava na Rua Moraes Barros entre a Rua José Pinto de Almeida e Rua Santa Cruz.


Na rádio “A Voz Agrícola do Brasil” como foi seu início?


O time do Santos Futebol Clube ia jogar com o XV de Novembro, no Estádio Roberto Gomes Pedrosa. Eles estavam concentrados em Águas de São Pedro. Deram-me a tarefa de entrevistar as feras do Santos: Gilmar, Zito, Dorval, Mengaldo, Coutinho, Pelé, Pepe. O gravador na época era enorme, pesado, com fita de rolo. Era uma mala de porte significativo. Fui com a viatura da rádio. Pensando como iria enfrentar esse desafio. Lembrei-me de que Wilson Antonio Honório, o Coutinho, foi criado comigo no Bairro Alto. O pai dele era pedreiro, trabalhava com o meu pai. Imaginei que a salvação da lavoura ia ser o Coutinho. Assim que cheguei, na entrada do hotel já tinha uns verdadeiros “guarda-roupas”, eram os segurança do Santos. Perguntaram-me: “O que você quer aqui garoto?”. Identifiquei-me e disse que desejava conversar com o Coutinho. Entraram em contato com ele pelo interfone, Coutinho desceu, expliquei o que eu necessitava: realizar uma entrevista com o pessoal do Santos. Ele perguntou-me: “Serve o meu compadre?” Era o Pelé. Pelo interfone ele entrou em contato com o Pelé, que desceu. Expliquei ao Pelé que dependia daquela reportagem para ganhar uma vaga na rádio. Sugeriu que fizesse a entrevista ao vivo, ele acertou com o gerente do hotel, de lá liguei para a rádio, o operador não acreditou que o Pelé estava ao meu lado. O Seu Caldeira ordenou para colocar imediatamente no ar. O Pelé estava no auge, isso foi entre 1954 a 1955. Em 1958 ele foi campeão do mundo pela seleção brasileira. Fiz a entrevista com Pelé, no ar. Depois entrevistei Gilmar, o time inteiro do Santos.


Ao voltar para a rádio qual foi a reação que você encontrou?


Quando eu cheguei à rádio o Caldeira queria saber como eu tinha feito para conseguir aquelas entrevistas com os jogadores, era muito difícil entrar na concentração, principalmente do Santos, que era o melhor time da época. Disse-lhe que tinha cumprido a tarefa, a forma como consegui era habilidade da minha parte e que não desejava revelar, era segredo de imprensa.


Você conquistou um lugar na rádio, o que passou a fazer?


Cobria o esporte amador, o varzeano, basquete, vôlei. Depois passeia ser setorista do XV de Novembro.


O que é setorista?


Acompanhava o dia-a-dia do XV, treinamento, amistosos, contratações.


Atualmente você tem um programa fixo em uma rádio?


No último dia 5 de janeiro completei 24 anos no ar só na Rádio Educadora de Piracicaba. O programa chama-se “Bola na Várzea”. Esse nome foi criado por mim e até hoje está no ar. É apresentado todos os sábados das 12 ás 13:30. Falo do futebol da várzea, futebol amador, englobo todos os esportes de Piracicaba, jogo de botão, jogo de baralho, bocha, jogo de malha, o que me mandar eu divulgo, tudo que for esporte é divulgado nesse programa. O SESC é quem patrocina o jogo de futebol de botão, é praticado por adultos. Não focalizo as equipes de São Paulo, a mídia paulistana já divulga muito sobre esses times.


Como ocorreu essa sua identificação com o futebol de várzea?


Comecei a praticar futebol na várzea, jogava como quarto zagueiro. Hoje está fácil jogar bola, antigamente era difícil. Antigamente para vestir a camisa do XV tinha que ser craque. O futebol mudou muito, o jogador bem preparado fisicamente é craque. Antigamente ele tinha que ter habilidade. Não havia a mordomia que existe hoje: o material ajuda, a bola ajuda, tem fisioterapeuta, fisiologista, concentração. Não existia nada disso.


Futebol amador e varzeano é a mesma coisa?


Não. Futebol amador pertence a Liga Piracicabana de Futebol, filiada a Federação Paulista de Futebol. A Associação Varzeana de Futebol é filiada a Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Atividades Motoras (Selam).


Quem mantém a Associação Varzeana de Futebol?


A prefeitura cede o espaço, localizado embaixo das arquibancadas do Estádio Barão de Serra Negra. As pessoas que trabalham aqui são todas voluntárias, inclusive eu, nós trabalhamos por gostar de esporte. Temos uma subvenção da prefeitura para manutenção do local. Sou aposentado, quebro o galho no rádio, faço matérias para o Jornal de Piracicaba. Comecei a fazer jornalismo na Tribuna, devo muito ao Evaldo Augusto Vicente, um grande amigo. Trabalhei por seis anos na Tribuna como editor de esportes isso no tempo em que não havia internet, era tudo escrito a máquina de datilografia, as fotos nós tínhamos que correr atrás delas. Após seis anos recebi uma proposta para trabalhar no Jornal de Piracicaba, onde por 25 anos trabalhei. Hoje qualquer um é jornalista, qualquer um é radialista. Antigamente fazer a mesa de rádio era muito mais difícil, hoje se aperta um botão a rádio entra no ar, Para fazer reportagem de campo havia os cabos, era comum enrolarem, em uma partida entre XV e Santos na Vila Belmiro, na época o repórter podia entrar no campo, entrei com o microfone e o cabo no campo, embaralhei, com o cabo do repórter da Tribuna de Santos, o árbitro queria cortar os dois cabos, os jogadores do XV não deixaram, todos fora ajudar a desenrolar o fio, a torcida agitando. Retardamos o jogo quase meia hora. O XV para não ser rebaixado dependia do resultado de outro jogo que se realizava em determinada cidade, com o atraso da partida ficamos sabendo do resultado favorável ao XV, bastava empatar com o Santos, o que de fato ocorreu, com isso o episódio do cabo acabou sendo positivo para o XV.


Quantos times de futebol varzeano existem em Piracicaba?


Oitenta equipes. A Associação Varzeana de Futebol foi fundada por mim em 1996 que passou a funcionar nesta sala que estamos ocupando e que tem o nome de Francisco Jesuino Avanci, o Chicão, foi ele quem inaugurou esta sala. Chicão foi um grande atleta, jogou no São Paulo, Atlético, Seleção Brasileira. Equipes de futebol amador existem 29.


Essas oitenta equipes dependem da Associação Varzeana?


Eles dependem da associação para sobreviver. Agendo jogos para eles o ano todo. Promovemos campeonatos em parceria com a Selam. No primeiro semestre promovemos o “Copão da Várzea” e o “Campeonato de Veteranos”. No segundo semestre promovemos o “Campeonato Varzeano” e o “Campeonato Sub 20”, também promovemos “Chuteira de Ouro” e “Luva de Ouro” Bola Branca Esportes., para o melhor jogador e para o melhor goleiro da várzea.


Quais times varzeanos que deixaram de existir?


Os varzeanos antigos, que pararam, foram o Benfica, Portugal, ambos da Vila Rezende, o Bangu, o Nacional, Madureira, Penharol, da Paulicéia.


A diferença entre futebol amador e varzeano é a filiação?


É a filiação, mais nada. Quem alimenta o futebol amador com revelações de atletas é o futebol varzeano. Fui um dos fundadores do Olímpico Futebol Clube, juntamente com o Carlos Francisco Puerta, Cláudio Coradini, Carlinhos Pescuma, Carlos Alberto Totti. É a equipe de várzea mais antiga de Piracicaba, deve ter completado 45 anos. Eu joguei uns oito anos no Olímpico.


Esses times jogam em que campos?


Em todos os campos existentes na cidade, inclusive na gestão do prefeito Barjas Negri e do secretário de esportes Pedro Mello, foram construídos 25 campos de futebol, com alambrado, vestiário. O meu sonho é construir um centro esportivo para o futebol amador e varzeano de Piracicaba. Já iniciamos no Estádio Pedro Morganti, no bairro Monte Alegre. Toda infra-estrutura está sendo realizada. Toda decisão do futebol amador,varzeano, feminino, juniores, infantil, será lá. Fizemos uma proeza em Piracicaba, transmitir os jogos da várzea pela internet. O narrador é Ronaldo Ducatti, como comentarista trabalharam conosco Adriana Passari, Samanta Marçal, André Camargo. Eu como repórter de campo. Fomos os pioneiros em transmitir futebol de várzea pela internet, tanto que ela é conhecida no mundo todo. Recebemos e-mails de Portugal, Alemanha, Espanha, México, Argentina e muitos outros países. O endereço é www.multiemidia.com.br


Como surgiu o futebol feminino em Piracicaba?


É outra atividade em que fui pioneiro em Piracicaba. Fui presidente da Liga Piracicabana de Futebol de 1980 a 1983. Fui diretor de futebol amador e do profissional do XV de Novembro. O futebol amador antigo era composto pelo MAF, que parou, União Costa Pinto, Clube Atlético Piracicabano, Estrela Dalva, Vila Boyes, El Tigre, Nacional, Sociedade Recreativa Palmeiras, XV Escola, Ferroviária, São João da Montanha, Flamengo, Tupi, União Monte Alegre, Katatumba, Saltinhense. Essas equipes pararam.


O jogador de futebol varzeano tem alguma remuneração?


Pelo contrário, pagam para jogar: lavagem de uniforme, condução. Jogam por amor ao esporte. No futebol amador tem jogador que recebe alguma remuneração. Na várzea é o contrário, eles sustentam a própria equipe. O futebol feminino nasceu quando fui Presidente da Liga Piracicabana de Futebol, em 1982. Surgiu pelo interesse de muitas meninas em jogar futebol e não havia quem organizasse um campeonato. Realizei o primeiro campeonato de futebol feminino em Piracicaba, inclusive ajudei a montar uma forte equipe de futebol feminino no XV de Piracicaba. O XV tinha uma atleta chamada Paula, irmã do Armando Tomazzielo, na época era a Marta do futebol feminino, ela jogava no Tiririca Futebol Clube. A Emília da Rocha Lima, a Lili, torcedora símbolo do XV também jogou futebol feminino. Existiam de oito a nove equipes de futebol feminino: Treze de Maio, do Jardim Primavera, de Artemis. O futebol feminino em Piracicaba foi lançado em 1982, era uma novidade no país. Atualmente no Sindicato da Alimentação existe um time de futebol feminino.


O que desmotivou o futebol feminino em Piracicaba?


A falta de apoio. O XV de Novembro tem um dos melhores times de futebol feminino, foi realizado um torneio internacional de futebol feminino no Estádio Barão de Serra Negra.


Quais são as diferenças entre o futebol masculino e feminino?


O masculino imprime mais força física. O feminino é mais toque de bola. Tem atleta do futebol feminino que joga melhor do que atleta masculino. Um exemplo é a Marta, pode coloca-la em qualquer time de futebol que ela irá realizar uma grande partida. Ela tem explosão, é inteligente, habilidosa.


Os salários multimilionários ajudam ou prejudicam o futebol?


Prejudicam. Tem jogador que ganha muito e outros quase não ganham nada. Deveria existir uma escala salarial, onde seriam classificados os jogadores, sem essas diferenças enormes. Deveria ter um salário base desde a segunda divisão até a primeira divisão. Enquanto uns ganham milhões outros ganham alguns reais.


Porque o brasileiro gosta tanto de futebol ?


O introdutor do futebol no Brasil foi Charles William Miller, nascido em São Paulo a 24 de novembro de 1874, onde faleceu em 30 de junho de 1953, filho de pai escocês e mãe brasileira. Com dez anos de idade foi estudar na Inglaterra onde conheceu e se encantou pelo futebol. Com uma única bola 22 pessoas praticam esporte de baixo custo. É um esporte popular. Qunado fundei a Associação Varzeana de Futebol o objetivo era tirar os rapazes da rua para praticar esportes. Ao invés de se construir presídios construam-se praças de esportes, ginásios. É um dinheiro bem mais aplicado do que em presídios. Em meu programa, na abertura, sempre falo: “ Mãe, leve seu filho á igreja, não importa a religião, leve seu filho para praticar esportes, para que no futuro não tenha que visitá-lo no presídio”.E para encerrar o programa, desde que comecei a fazer rádio, a frase que uso é: “Se amanhã eu acordar Deus estará comigo, se eu não acordar estarei com ele”.


Dinival, uma iniciativa sua criou uma premiação anual concedida aos valores que se destacaram.


Em 2012 foi realizada a décima sétima edição da premiação “Melhores do Ano no Esporte e na Imprensa”. Tornou-se conhecia como o “Oscar Caipira do Interior”. Surgiu em 1995. Comecei com 10 troféus. A primeira festa foi na sala onde funciona a sede da Associação Varzeana. A Magic Paula estava no auge, a mãe dela, Dona Hilda, a Branca, todas estiveram presentes. O patrocinador dos primeiro e segundo ano foi a Passarella Calçados. O Clube Palmeiras abriu as portas para nós, onde por oito anos realizamos o evento. Quem bancava era a NM Abrasivos, do Marcos Chorilli. O Mauro Matta foi homenageado, gostou da festa e até hoje a Fast Work dá sustentação para essa festa. Realizamos a festa dois anos no Clube de Campo de Piracicaba, dois anos no SESC e dois anos no anfiteatro do Centro Cívico.


Você acredita que esse evento poderá fazer parte do calendário oficial do município?


Acredito que sim. O objetivo é incentivar quem pratica esportes e quem trabalha na imprensa, não só daqui, mas como de toda a região. A promoção é transparente, a pesquisa é feita pela empresa Teleresponde. A Teleresponde é um dos nossos patrocinadores há muito tempo.


Esporte e política se atraem?


Não se combinam esporte e política.


Voce tem idéia do número de jovens que através da sua ação com o esporte evitaram cair na marginalidade?

Foram muitos. O meu orgulho é poder tirar muitos jovens do risco da dependência química através do esporte. Tem caso em que a pessoa era dependente químico, passou a praticar esporte e hoje é um respeitado pai de família. Isso é muito gratificante. As indústrias de grande porte, o próprio governo, deveriam investir mais no esporte.










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