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quinta-feira, março 27, 2014
ROLAND VENCOVSKY
PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E
MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 29 de março de 2014.
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 29 de março de 2014.
Entrevista: Publicada aos sábados
na Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
Foto by JUNASSIF
ENTREVISTADO: ROLAND VENCOVSKY
ENTREVISTADO: ROLAND VENCOVSKY
Possui graduação em Engenharia
Agronômica pela Universidade de São Paulo (1958), mestrado em Experimental
Statistics - North Carolina State University (1967) e doutorado em Genética e
Melhoramento de Plantas pela Universidade de São Paulo (1960). Foi professor
visitante na University of Minnesota (1974-1976), na North Carolina State
University (1990-1991) e na Universidade Federal de Goiás (2000-2003). Obteve a
livre docência pela ESALQ/USP (1970) e o título de professor titular em 1994.
Foi Chefe Geral do Centro Nacional de Milho e Sorgo da EMBRAPA (1979-1984).
Orientou 77 teses e dissertações na área de concentração de Genética e
Melhoramento de Plantas da ESALQ/USP e na UFG e publicou 152 artigos em
revistas científicas nacionais e internacionais e diversos capítulos de livros.
É autor do livro Genética Biométrica no Fitomelhoramento. Agraciado com a
Comenda da Ordem do Mérito Científico, pelo Presidente da República em 2002,
eleito membro titular da Academia Brasileira de Ciências em 2005 e membro
titular da Academia de Ciências do Estado de São Paulo em 2008. Atualmente é
professor titular permissionado da Universidade de São Paulo. Tem experiência
na área de Genética, com ênfase em Genética Vegetal e Genética Biométrica,
atuando principalmente nos seguintes temas: Genética Quantitativa, Genética de
Populações, Melhoramento Genético e Conservação de Recursos Genéticos. Na sua
especialidade atuou em programas de melhoramento das seguintes espécies: milho,
várias hortaliças, cana-de-açúcar, mamoneira, eucaliptos e diversas espécies
arbóreas brasileiras. Atualmente, continua desenvolvendo métodos de estimação
de tamanho efetivo populacional em espécies dióicas e analise de QTLs em milho
e cana-de-açúcar. Orienta estudantes de pós-graduação na ESALQ/USP. Tem
interesse em estudos de processos como dispersão de pólen e sistema de
reprodução em espécies nativas para fins de conservação e pré-melhoramento
genético. Colabora com o programa de pré-melhoramento e conservação da
cagaiteira, espécie endêmica do Cerrado, junto à Escola de Agronomia da
Universidade Federal de Goiás. Continua também interagindo com programas de
melhoramento, especialmente de espécies parcialmente autógamas como a
mamoneira.
O senhor é natural de qual
cidade?
Nasci em São Paulo a 10 de junho
de 1936 no Hospital Oswaldo Cruz, (Hospital Alemão Oswaldo Cruz), meus pais
moravam em Pinheiros, em uma travessa da Rua Teodoro Sampaio. Tenho três
irmãos: Ernesto, Elfride, Manfredo. Meus pais são Otto Vencovsky e Catarina (em
português) Vencovsky. Minha mãe é natural de uma colônia de alemães do interior
do Paraná. Meu pai nasceu em Viena. Ele veio para o Brasil em 1920, após a
Primeira Guerra Mundial. Vieram os meus avôs, tios. Na década de 30 eles
passaram a representar empresas alemãs de produtos químicos, principalmente a
Bayer. Com o inicio da Segunda Guerra Mundial, a importação de produtos da
Alemanha foi interrompida. Eles venderam as propriedades que tinham em São
Paulo e adquiriram uma fazenda em Atibaia, isso foi em 1946. Foi difícil ele
sustentar uma família sem ser especializado em área agrícola, sofreu muito. Ele
produzia carvão com eucalipto e produzia aguardente fruto das plantações de
cana, era destilada e engarrafada lá recebendo o nome de “Macumba”. Guardo até
hoje o rótulo dessa cachaça. Vendia bem, o segredo era que ele vinha buscar o
fermento da cachaça em Campinas. Era o truque dele. Ele pegava sempre cepas de
linhagens puras. Uma vez por ano ele renovava o fermento e sempre saia uma
pinga boa.
Hospital Alemão Oswaldo Cruz
Antes de mudar para Atibaia o
senhor tinha freqüentado escola em São Paulo?
Tinha feito o primário no Colégio
Visconde de Porto Seguro, isso foi por volta de 1942 a 1943. Quando mudamos
para Atibaia fiz o ginásio e o colégio no Colégio Atibaiense. Ficava a 16
quilômetros da nossa fazenda, onde morávamos ficava a quatro quilômetros da
Estação Campo Largo. No período em que fiz o ginásio ia de trem pela Estrada de
Ferro Bragantina, ligada a SPR, São Paulo Railway. Era um ramal que saia de
Campo Limpo e ia até Bragança Paulista. Era a locomotiva a vapor, a Maria
Fumaça, soltava fagulhas que atingiam nossas roupas, cabelo. Depois colocaram a
máquina a diesel, perdeu-se o encanto. Só havia dois trens, um de manhã e outro
a tarde. Quando passei a estudar o colegial fui residir com parentes.
Nesse período ocorria a Segunda
Guerra Mundial, no Brasil alemães, japoneses, italianos e seus descendentes
sofreram algum tipo de discriminação?
Eu era um menino quando senti
isso, um grupo de garotos me perseguiu, sai correndo. Havia um estímulo por
parte de alguns políticos em menosprezar pessoas dessa origem. Senti isso na
pele. Passei muito medo. Tínhamos um rádio em casa, era da marca “Mende”,
sintonizávamos a Deutsche Welle GmbH.
Na época havia um fiscal do governo, chamado popularmente de “secreta”, ele nos
visitava periodicamente para saber se o meu pai não tinha nenhuma atividade
subversiva. Depois que o Brasil entrou para a guerra meu pai desligou e guardou
o rádio. Não ligou mais.
RÁDIO MENDE
O senhor trabalhava em Atibaia?
Eu deveria ter uns 17 anos,
trabalhava no serviço de alto falante que existia na praça central, toda noite
fazia propaganda e colocava discos para serem tocados. Dizíamos que era “A
Maior Potência Radiofônica da Zona Bragantina” atingia só a praça central da
cidade! Na época não havia emissora de rádio.
Estação de trem em Atibaia
Como se deu o seu ingresso na
faculdade de agronomia?
Após terminar o colégio fui fazer
agronomia. Eu tinha um companheiro de colégio, seu pai era proprietário da
empresa de sementes Agroceres. Esse meu amigo é que me convenceu a fazer
agronomia em Viçosa. Fiz um exame de seleção e ingressei. Trabalhei na Rádio
Montanhesa em Viçosa, apresentava aos domingos musica erudita. Após dois anos
em Viçosa fiz a minha transferência para Piracicaba, isso foi em 1957 a 1958. Apresentei-me
ao proprietário da PRD-6, Rádio Difusora de Piracicaba, o Sr. Aristides
Figueiredo, ele tinha um Chevrolet Fleetline preto,fiz
um teste e por três anos trabalhei como locutor comercial. Lembro-me de
propagandas que fazia na época, como de “Ao Cardinalli”, da empresa que
oferecia cinco máquinas de costura para serem sorteadas ( possivelmente máquina
Leonam).
Chevrolet Fletline
Trabalhar na rádio naquela época
era ser um astro?
Eu era muito conhecido na cidade.
Muitas vezes abri a rádio, ás seis horas da manhã. Fechava a meia-noite. Quando
eu era estudante morava em uma república.
O senhor usava algum nome
artístico?
Usava! Quem me deu o nome
artístico de “Luiz Rolando” foi o Francisco Caldeira, que mais tarde assumiu a
Rádio A Voz Agrícola do Brasil. Com isso o pessoal não relacionava a minha
pessoa com o Luiz Rolando! Foi uma época muito romântica! Quando o titular
faltava cheguei a fazer programa no auditório da Rádio Difusora. O que estava
na moda era o cururu.
Qual é o fascínio que a genética
exerce em quem a estuda?
A genética tem um papel
fundamental na área agro-industrial, é o melhoramento ou aprimoramento
genético. Essa é a principal aplicação. A maioria dos nossos alimentos,
vegetais e animais, não provêm de espécies nativas, são de espécies
modificadas. O homem vem modificando as espécies por vários séculos. A genética
se aplica para entender, organizar, o melhoramento genético. Se a humanidade
fosse depender apenas das espécies nativas, aquelas que se encontram na
natureza, não sobreviveria. São pouco produtivas e de qualidade baixa. No
inicio o homem era coletor e caçador, depois é que ele passou a inventar a
agricultura. Aprendeu a semear. Nessa fase ele começou a domesticar as plantas
e os animais. Foi quando passou a fazer melhoramentos baseado em seleção. Temos
no mundo dezenas de raças de cães, esses animais provieram dos lobos. O homem
começou a conviver com os lobos, a fazer seleções e criaram todas essas raças. Isso
aconteceu com frutas, com sorgo, com soja, trigo. A base do melhoramento é
cruzamento controlado e seleção. As vacas leiteiras originalmente produziam
leite suficiente para o bezerro se desenvolver e desmamar. Atualmente produzem
tanto leite que se não forem ordenhadas ficam doentes. Por seleção o homem
começou a criar fêmeas cada vez mais produtivas. As modificações que o homem
fez nas espécies são enormes. Acho que só existe uma exceção, os peixes do mar.
Esses não foram muito modificados, porque é mais difícil. Peixes de rio todos
foram modificados.
Já adquiri morangos lindos, porém
sem sabor. Como o senhor explica isso?
É uma variedade que não é boa. É
muito bonita, mas não tem sabor. Isso acontece. É fruto de uma seleção mal
feita, intencional ou não. Não é um erro genético e sim uma propaganda
enganosa. São diferenças de variedades: boas ou ruins. Aparentemente são
iguais.
O senhor concluiu o curso na ESALQ
em que ano?
Sou da turma de 1958. Um ano
antes, em 1957 eu já tinha uma bolsa. Melhoramento genético é a minha paixão.
Eu não faço melhoramento, quem fazia era o Marcílio de Souza Dias, a nossa
produção de hortaliças era rudimentar ele revolucionou isso. O Ernesto Paterniani fez melhoramentos com o
milho, e outros fizeram melhoramentos em outros produtos. Eu trabalhava para
apoiar os trabalhos de melhoramentos. É uma atividade que exige muita avaliação
em campo. Minha parte nessa história toda é fazer a parte estatística do
melhoramento. Eu não produzia variedades, quem fazia isso eram os colegas, eu
dava suporte na genética de populações e genética quantitativa.
Friedrich Gustav Brieger
Em que ano o senhor foi
contratado pela ESALQ?
Em 1960 fui contratado como
professor assistente, no tempo do Professor Friedrich Gustav Brieger. Ele obrigava a dar
aulas de tudo, genética, aulas práticas de estatistica ligada a genética.
Citogenética, a parte celular. Fiz doutoramento, passei a ser professor
assistente doutor, fiz livre docência e depois fui professor titular. Fiz um
mestrado nos Estados Unidos em Estatistica Experimental e Genética na
Universidade da Carolina do Norte. Estive três vezes nos Estados Unidos, sempre
em estudos, no total foram cinco anos de estudos e pesquisas realizados lá.
Aprendia as últimas descobertas, assistia as disciplinas e modificava as
disciplinas que dávamos aqui.
Foto by JUNASSIF
Da esquerda para a
direita:
Dr. Bruce S. Weir,
Dr. Antonio
Augusto Franco Garcia, Dr. Roland
Vencovsky
Nas dependências do Departamento de Genética da ESALQ
O senhor tem um amigo que
conheceu em uma dessas viagens e que está visitando o Brasil?
É o Dr.
Bruce S. Weir, ele fez pós-graduação quando eu também fiz, na década de 60.
Trabalhávamos na mesma sala como pós-graduandos. Passamos a ser amigos, temos
desde então um bom relacionamento profissional e pessoal.
Recentemente tem tomado força uma corrente que afirma que
as plantas se comunicam entre si. Isso é mais uma fábula?
Nada
é impossível. Na época de Santos Dumont grandes pensadores diziam que era
impossível voar com um corpo mais pesado do que o ar. Só voavam com balões, que
eram mais leves. Santos Dumont voou com o mais pesado do que o ar! Nesse caso
das plantas eu não tenho posição formada, mas gosto do pensamento. Tenho o
habito de pensar tudo de forma científica, se alguém me indicar algum tipo de
chá que cura determinada doença, a primeira pergunta que faço é onde está a
informação a respeito do fato. Há alguma publicação científica do assunto? Os
próprios médicos já comprovaram? Eu quero comprovações!
Foto by JUNASSIF
Qual é a importância do melhoramento genético para a
economia do Brasil? A ESALQ como tem colaborado a respeito?
A
primeira contribuição é a formação de profissionais. Hoje muitos melhoramentos
são iniciativas empresariais. Antigamente não era assim, o Instituto
Agronômico, a ESALQ, a Escola de Viçosa, a Escola de Lavras, Escola do Rio
Grande do Sul, tinham uma contribuição mais direta, criando variedades,
híbridos. Hoje quem participa muito nesse processo de criar variedades é a
EMBRAPA.
Todo o esforço de melhoria genética e produtiva, muitas
ao longo de anos de trabalho, gera resultados altamente positivos. Não é
frustrante para o pesquisador saber que milhões de pessoas passam fome atualmente, apesar do
mundo já produzir alimentos suficientes para todos?
Perde-se
muito alimento. Isso é frustrante. Falam da perda de um terço do alimento
produzido no mundo. É perdido por diversas formas: na lavoura, no transporte,
em casa.
Até algumas décadas não
existiam estampadas datas de fabricação e nem de validades dos produtos. Eles
eram avaliados para o consumo pelo odor, sabor e aparência. Há excesso de zelo
com relação a validade de alguns produtos?
Em algumas
situações há sim excesso de zelo. A determinação governamental de estabelecer a
validade dos produtos é positiva. O objetivo é precaver contra descuido ou má
fé de algum indivíduo. Estampar a validade é melhor do que produto sem data de
validade.
O senhor mantém contato
com seus colegas cientistas de outros países?
Mantenho
contato com pesquisadores dos Estados Unidos, México. Fiz umas cinco ou seis
publicações que saíram em revistas cientificas internacional junto com um
colega mexicano.
Porque o Brasil não
produz trigo?
Produz! Mas
sempre teve um problema, o trigo se desenvolve mais em clima de latitude mais
alta, Rio Grande do Sul, Santa Catarina. O grande problema do trigo no Brasil
são as doenças. Estão sempre produzindo linhagens novas que são resistentes. Durante
muitos anos houve excesso de produção de trigo nos Estados Unidos, eles
ofereciam no mercado internacional a um preço muito atrativo. Os moinhos
adquiriam o trigo importado mais barato do que o brasileiro. Isso foi por
muitos anos.
O senhor participou da
SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência?
Participei.
No inicio era o centro que reunia os pesquisadores. Depois passou a desmembrar
em cada especialidade, como por exemplo, a Sociedade Brasileira de Genética,
Sociedade Brasileira de Melhoramentos de Plantas, Sociedade Brasileira de
Biometria. Com isso meu interesse voltou-se mais para áreas diretamente ligadas
as minhas pesquisas.
A fome no nordeste
brasileiro tem solução?
Existem
alguns problemas, mas tem regiões no nordeste que são muito boas. Existe a
questão da distribuição. Acho que deveria melhorar a logística. Predominam os
pequenos produtores. A fome lá é uma questão de cultura, de política.
A fome é uma questão
cultural?
Também!
Precisa haver introdução de tecnologia com apoio do governo. Pesquisas de
apoio. Participo como consultor de um programa para criar variedades que se
desenvolvem bem em regiões onde chove menos, o solo não é tão bom. São as
chamadas áreas marginais. Já tem algumas linhagens que são mais tolerantes a
seca. A tendência no Brasil vai ser no sentido de tratar variedades de
diferentes espécies que se desenvolvam razoavelmente bem, nessas áreas chamadas
marginais. O cerrado, por exemplo, é um ambiente complicado. Tem que se criar
variedades que se dêem bem razoavelmente lá. Com a genética é possível isso ser
feito. Uma mostra disso é a soja, de origem asiática, que no início era
cultivada só no Rio Grande do Sul. A EMBRAPA fez a tropicalização da soja. Hoje
a soja é produzida no Mato grosso, em Goiás, a soja está agüentando um ambiente
que não era o ambiente natural dela. A mesma coisa aconteceu com a maçã. Não
havia maçã, consumíamos a maçã argentina. A EMBRAPA entrou nesse esquema
também. A maçã para produzir bem precisa de certo número de dias frios no ano.
Fizeram cruzamentos e seleções, hoje o Brasil é um bom produtor de maçã.
Ocupa uma área de 3.825,4 hectares, com 231 mil m² de área
construída
O produtor é relutante em
aceitar novas tecnologias?
Ele não muda
com muita facilidade. Eu acredito muito no sistema adotado no sul do nosso
país, é baseado em cooperativas. São veículos importantes na difusão, em dar
apoio. Tive essa noção da importância da difusão por ter chefiado o Centro Nacional de Pesquisa de Milho e Sorgo (CNPMS), em Sete Lagoas, da EMBRAPA, durante cinco anos. Foi uma solicitação do então ministro Delfim
Neto ao diretor da ESALQ. O presidente da EMBRAPA, Dr. Eliseu Alves, havia
solicitado a ele que eu fosse indicado em função do trabalho que eu vinha
desenvolvendo. Lá aprendi muito, vi a dificuldade que é criar uma novidade
tecnológica e fazer com que o produtor aceite. Trabalhava na área de
melhoramento, de semeadura, controle de solo, fertilidade. No Brasil é muito
comum o cultivo consorciado, milho junto com feijão, na mesma área. A área é
bem aproveitada. Um dos colegas sugeriu que fosse feita uma semeadeira com duas
caixas, uma de milho outra de feijão. Semeia as duas ao mesmo tempo. Fizeram,
entraram em contato com algumas empresas fabricantes de implementos agrícolas
em São Paulo, Produziram algumas. Só que o projeto não foi levado adiante. O
pequeno produtor não gosta de arriscar, faz o que está acostumado a fazer. Acho
que o produtor deveria ter um tratamento diferenciado, com juros e taxas
menores para o pequeno agricultor. A agricultura é uma atividade de risco. O
Brasil será sempre uma fonte de alimentos para o mundo. Têm muitos que defendem
o desenvolvimento da indústria, da eletrônica. Acredito que devemos fazer de
tudo um pouco. Só que investir neste celeiro do mundo não é ruim não.
A tecnologia existente
tanto para produzir eletrônicos sofisticados como para produzir produtos
agrícolas de alta qualidade são correlatas?
As duas são
de alta sofisticação. A sociedade brasileira deveria reconhecer mais o quanto é
trabalhoso obter híbridos novos. Valorizar mais. Os órgãos públicos podem ter
mais sensibilidade para facilitar esse trabalho de grande teor tecnológico.
Parece que há um
desconhecimento geral do que se obtém através de aprimoramento de espécies?
Não acho que
seja desdouro nenhum o Brasil ser o celeiro do mundo. Muitos brasileiros acham
que isso é típico de país subdesenvolvido. Devem existir muitos políticos que
pensam dessa forma. Felizmente o Brasil está muito bem em soja, celulose,
laranja, carne bovina. Mas o país precisa investir mais. Diminuir os riscos do
pequeno produtor.
domingo, março 23, 2014
FRANCISCO PINTO FILHO ( CHICO) Presidente do SINTIPEL
PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E
MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 22 de março de 2014.
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 22 de março de 2014.
Entrevista: Publicada aos sábados
na Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
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Francisco
Pinto Filho nasceu a 11 de julho de 1959, em Fortaleza, Ceará. Chico como é
mais conhecido é fortalezense, porém já considerado cidadão
piracicabano, conforme atesta a Câmara Municipal de Piracicaba. É filho de Luiz
Pinto de Oliveira e Isaura Paula de Oliveira que tiveram os filhos: Manoel,
Francisco, Francisco (Chico) (São dois filhos com o nome Francisco) e Silvana. A
família mudou-se para Piracicaba quando Chico tinha apenas uns três anos de
vida, em 1962 seu pai foi trabalhar como metalúrgico na Dedini, onde se
aposentou. Francisco Pinto Filho é diretor nacional da Central Força
Sindical. Casado em segundas núpcias com Edna Yoshimi Nakagawa.
Em que bairro de Piracicaba a família foi morar quando chegou de
Fortaleza?
No Piracicamirim, na época mais conhecido como “Pisca”, na Rua Roberto
Mange, depois da ponte sobre o Ribeirão Piracica Mirim. Freqüentei uma
escolinha de pré-primário que hoje não existe mais. Ali no Pisca havia uma
rotatória, com uma ponte apenas, de madeira, os ônibus vinham até ali e
voltavam para o centro da cidade.
O senhor ingressou em qual Grupo Escolar?
Estudei no Grupo Escolar Dr. Alfredo Cardoso. Naquela época as ruas
daquele trecho não eram asfaltadas, vinha às aulas a pé. Necessariamente
passávamos em frente ao Cemitério da Saudade, e era comum um grupo de crianças
provocarem sustos entre si, com relação a esse trecho. A noite ninguém gostava
de passar em frente. Estudei parte do ginásio na Escola Estadual Dr. Dario
Brasil, fui estudar na Escola
Estadual Monsenhor Jerônymo Gallo no período noturno. Nessa época comecei a
trabalhar em uma fábrica de estopa, a Fábrica São João, ficava ali na Rua Julio
Prestes, na Vila Monteiro, ela existe até hoje, situa-se na Rodovia do Açúcar.
Foi o meu primeiro emprego, eu tinha 14 anos de idade e fui registrado.
Qual era a sua função na fábrica de estopa?
Eu era ajudante geral. A empresa
tinha cinco funcionários.
Legalmente, hoje, o senhor com 14 anos de
idade não poderia trabalhar. Qual é a visão pessoal do senhor sobre essa
situação?
Acho que nessa idade tem que
trabalhar, é um aprendizado de vida. Tem que trabalhar e estudar. Esse contato
com o meio profissional, com as pessoas ajuda muito na sua decisão de qual
carreira pretende seguir. Só o conceito teórico da vida não lhe dá visão da
realidade. Com o meu neto de nove anos, e sua mãe, minha filha, eu já procuro direcionar
para que trabalhe, faça alguma coisa, para ter a vivência do trabalho. O homem
que não trabalha não tem vida.
Porque o senhor acha que existe essa
política de fortes restrições de participação do menor no trabalho?
Eu ainda não consegui entender. A
parte teórica dos estudos já é muito deficiente, sem a mínima noção de trabalho
na prática, as indústrias não conseguem encontrar mão de obra com a mínima
qualificação. Temos contato com empresas que em uma seleção de 40 candidatos,
acabam por selecionar apenas 4. Há candidatos, com certificado de curso médio
que não tem a mínima noção de quanto é 50% de um produto.
Estamos criando um país onde uma grande
fatia da população é totalmente despreparada para qualquer tipo de atividade
que não seja meramente braçal?
Infelizmente é a tal geração
“nem-nem”! Nem estuda nem trabalha! São jovens na faixa de vinte anos. É uma
prova de que as coisas têm que mudar. A pressão para que isso mude tem que vir
da sociedade, tem que haver uma conscientização. O candidato a uma vaga tem que
estar qualificado e com uma experiência mínima. É fundamental que o jovem
estude, mas se ele tiver em paralelo alguma experiência de trabalho, ele terá
maiores chances de sucesso.
O filho trabalhando, poderá
exigir mais dos pais, tirando-os de uma zona de conforto?
É uma questão muito delicada,
muitas vezes o próprio caráter do jovem determina sua ação.
Por quanto tempo o senhor
permaneceu na fábrica de estopa?
Por um ano. De lá fui trabalhar
no Tremocoldi, ficava na Rua São José, trabalhei ali por um ano como auxiliar
de escritório.
Morando ainda no “Pisca”?
A minha infância toda foi no
Pisca.
Naquela época a fama do Pisca era
brava?
Era brava, assim como também eram
bairros com fama de locais de valentões, o Risca-Faca, Bairro Verde. Época em
que os parquinhos, circos se instalavam nesses bairros, saia muita encrenca.
Com 18 anos fui fazer o Tiro de Guerra situado na Avenida Dr. Paulo de Moraes,
nosso sargento era o Munuira, o Capitão Gomes era o comandante.
Para o jovem, prestar serviço
militar no Tiro de Guerra é importante?
Vejo como uma coisa boa. Além da
convivência, aprende-se a ter disciplina. Isso faz bem.
Há uma visão de que a maior parte
dos lideres sindicalistas tem uma tendência a serem simpáticos com a esquerda
política, o senhor passa a imagem de uma pessoa bastante equilibrada.
Não tenho posições pré-definidas,
procuro analisar cada situação, trabalho muito isso, tive que fazer isso, a
vida me ensinou a ser assim.
Após concluir o Tiro de Guerra
qual foi o seu próximo trabalho?
Ingressei em uma empresa de
manutenção elétrica, Escritório
Técnico de Engenharia Etema Ltda, que prestava serviço
para a Philips. Trabalhávamos com montagens de subestações elétricas. Eu tinha
feito um curso de eletricista no Senai, as aulas práticas eram embaixo das
arquibancadas do Estádio Barão de Serra Negra, fazíamos instalações ali para
aprender. Fui montar subestação no Hotel Glória, no Rio de Janeiro, permaneci
seis meses trabalhando lá. Isso foi em 1979. Em 1980 voltei para Piracicaba e
fui trabalhar como eletricista de manutenção praticante, na Indústria de Papel
Piracicaba, do Grupo Simão, em 1986 passei a integrar o sindicato. Em 1992 a
Votorantin adquiriu a fábrica.
Oji Papeis Especiais é a mesma empresa?
Em 2011 a Oji adquiriu a empresa
do Grupo Votorantin. A Oji Paper foi
fundada em 1873 no Japão.
Que tipos de papéis são produzidos nessa indústria em Piracicaba?
São papéis especiais: autocopiativos, couchés, para imprimir e escrever.
Focada no mercado interno e na América Latina.
O senhor tem idéia de quantos funcionários trabalham na Oji em
Piracicaba?
São 530 funcionários. É uma empresa com alta tecnologia, muito
automatizada.
Talvez pelo rápido crescimento, o piracicabano em geral não tem pleno
conhecimento do grande parque industrial instalado em Piracicaba?
Talvez falte um pouco de divulgação. Há grande destaque para os setores
canavieiro e metalúrgico. O setor de papel e celulose representa 4% do PIB –
Produto Interno Bruto brasileiro. Em
2012 fiz parte do Conselho de Competividade Setorial, no setor de celulose,
criado pela presidente Dilma, voltado a criar incentivos, fazer uma política
para o setor. O prpoprio setor tinha ido reclamar de que o incentivo do governo
junto ao setor é muito pífio. O governo tem sua atenção voltada para metalurgia
e montadoras.
O Sintipel Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Papel, Papelão
e Cortiça de Piracicaba foi fundado em que ano?
Em 1956 foi fundada a Associação e em 22 de agosto de 1958 foi fundado o
sindicato. Até hoje o sindicato limitou-se a abranger Piracicaba.
Estatutariamente não temos a representação, mas a Federação deu-nos a
representação de Charqueada, Santa Maria da Serra, Rio das Pedras. Só em
Piracicaba temos cerca de 1600 trabalhadores na indústria de papel. Temos cinco
indústrias papeleiras: A Oji, a Klabin, a Reipel, RST, a Weidmann Tecnologia Elétrica Ltda,
que é uma multinacional sueca, ela produz isoladores para transformadores.
A diretoria do sindicato é composta
por quantos componentes?
Em torno de 30. Estão distribuidos
nas empresas, continuam trabalhando normalmente. Afastados do serviço somos sete,
mais seis funcionários.
Quais são os benefícios
que o sindicato oferece aos seus associados?
O sindicato cresceu muito,
temos sede própria, inaugurada em 1999, o local onde era a antiga sede foi
reformado, fica próximo a nossa sede atual, lá criamos um centro de
qualificação, para dar cursos. Construímos uma sede de campo, situada no bairro
Conceição, na estrada de Tupi. Tem amplo estacionamento, salão de festas, salão
de jogos, cancha de bocha, dois campos de futebol social, quatro quiosques com
churrasqueiras, no ano de 2013 já elaboramos o projeto da piscina. Temos um
apartamento na Praia Grande, é alugado ao associado a preço bem acessível,
temos quatro apartamentos na colônia de férias do Estado. Oferecemos
gratuitamente advogado trabalhista, acordos coletivos para dar assistência
médica, alguns com abrangência nacional. Temos atendimento odontológico no
prédio, mas estamos fechando um convênio através do qual o associado poderá ir
até o consultório dentário do profissional. Todos os anos negociamos acordos
coletivos, nas convenções, onde se consegue aumento real, nós temos um piso que
é superior a dois salários mínimos. Conquistamos reajustes, valores de horas
extras, superiores a determinação da lei. A lei estabelece 50% de acréscimo
sobre as horas extras, o nosso índice é 80%, o adicional noturno a lei
determina 20% o nosso é de 40%. Temos o auxilio creche, que consta em
convenção, 13% da categoria é composta por mulheres. Isso é fruto de negociação
do nosso sindicato com o sindicato patronal, com as empresas. Oferecemos
auxilio para crianças especiais. Se faltar até dois anos para o funcionário se
aposentar, terá a garantia de emprego nesse período, até ocorrer a
aposentadoria.
O SINTIPEL de Piracicaba
está ligado a outras entidades?
No Estado de São Paulo temos 19
sindicatos ligados a Federação dos Trabalhadores na Indústria de Papel no
Estado de São Paulo. É uma entidade superior ao sindicato. As convenções são
realizadas em âmbito estadual. A CNTI, que é a Confederação Nacional dos Trabalhadores
na Indústria atua em nível nacional. Hoje estão se criando outras
confederações, específicas de cada setor. Já existe a CNTQ, que é a
Confederação Nacional dos Trabalhadores no Ramo Químico, dos metalúrgicos, da
construção civil, dos comerciários. As categorias estão se organizando em
escala nacional.
Existe algum contato com
entidades similares de outros países?
Temos a FESPAM Federação dos
Papeleiros do Mercosul, com sede na Argentina, inclusive participo, sou diretor
dessa federação. É uma atividade sem remuneração. A única remuneração que tenho
é da empresa onde trabalho, nem do sindicato eu tenho remuneração, nunca teve.
Já fizemos intercâmbios com instituições congêneres do continente europeu. Ver
o que tem de melhor em outros países para trazer ao Brasil, o nosso setor de
papel e celulose está se internacionalizando muito. Muitas empresas
multinacionais estão vindo para o Brasil. Está ocorrendo uma descentralização,
muitas empresas estão se estabelecendo também fora do Estado de São Paulo.
Vemos isso no Mato Grosso do Sul, no Maranhão, no sul do país.
Há quantos anos o senhor
está como presidente do SINTIPEL?
Como presidente estou a 26
anos. É uma vida.
Como o sindicato vê a
importância do reflorestamento?
Isso é imprescindível. As
nossas maiores indústrias trabalham com matéria prima de fonte ambiental
apropriada. A árvore é plantada com essa finalidade. A produção de papel é
sustentável. Usa-se o pinus e particularmente no Brasil mais o eucalipto.
Madeira nobre não serve para fazer papel. É um desastre, por causa da fibra
dela.
Como funciona a
contabilidade de um sindicato?
Todos os atos formais têm que
ser registrados. Balancete. Balanço mensal. Tem que ter um contador
responsável. Proposta orçamentária para o ano seguinte. Balanço do ano
anterior. Tudo isso registrado em cartório, mediante convocação de assembléia
da categoria.
Sindicato recolhe
imposto?
O sindicato é isento de
impostos. Ele não tem inscrição estadual. Só recolhe impostos previdenciários
dos funcionários. Temos todos os livros com todos os balanços de todos os anos.
Todo dinheiro que entra e que sai está registrado diariamente, mensal e anual.
È um recurso que pertence a uma categoria, e tem que ser administrado com total
transparência.
O sindicato tem que se
filiar a algum setor político?
O sindicato pode se filiar a
uma central sindical, a uma federação, a uma confederação. A um partido
político não. Isso pode ser uma opção individual dos diretores. Tem que ser
participativo. O compromisso maior é com o sindicato. O lado social do
sindicato é muito importante, uma das minhas primeiras iniciativas quando
assumi a presidência foi dar aos aposentados os mesmos direitos do associado
que está em pleno exercício das suas atividades. Colocamos no estatuto, o
aposentado tem os mesmos direitos, de votar e ser votado. Temos um convenio
médico para o aposentado fruto de acordo que conseguimos, conquistamos. São
cerca de 300 aposentados que freqüentam o sindicato. Penso que temos que olhar
de forma especial nas duas extremidades: a criança e o idoso.
O senhor usa
informática?
Uso muito! É uma ferramenta de
trabalho imprescindível. Até mesmo propostas de filiação eu recebo muitas pelo
site. Mostramos que somos um sindicato de lutas e conquistas. Participamos
muito dessa questão de qualificação profissional, tanto que na Federação do
Estado sou diretor de saúde, segurança e qualificação profissional.
O nível técnico do
associado ao SINTIPEL
é um nível elevado?
É alto. Na Oji todos os
funcionários são técnicos. A própria empresa está fornecendo curso técnico em
química que é realizado pela instituição de ensino Anglo. São duas turmas por
ano.
Existe algum evento especial
realizado pelo sindicato?
Em 20 de setembro sempre
comemoramos o Dia do Papeleiro, no fim de semana mais próximo a esse dia
realizamos um evento na nossa sede de campo. São realizadas atividades
recreativas, churrasco, comparecem os associados e seus familiares. É uma
grande festa.
sexta-feira, março 14, 2014
DR. BRUCE S. WEIR e DR. ANTONIO AUGUSTO FRANCO GARCIA
PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E
MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 15 de março de 2013.
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 15 de março de 2013.
Entrevista: Publicada aos sábados
na Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
ENTREVISTADOS: DR. BRUCE S. WEIR e DR. ANTONIO AUGUSTO FRANCO GARCIA
Da esquerda para a direita:
Dr. Bruce S. Weir, Dr. Antonio Augusto Franco Garcia, Dr. Roland Vencovsky
A Universidade de Washington, foi fundada em 1861 é a maior universidade
pública no Estado de Washington com campi em Seattle, Bothell, e Tacoma. Tem cerca de 4.100 professores em tempo integral,
uma população estudantil de mais de 47.000 pessoas, incluindo alunos de
graduação e profissionais. A Universidade
oferece graduação, doutorado e mestrado profissional em 150 departamentos e
unidades. Em 1967, Roland Vencovsky, professor sênior do Departamento de Genética da Escola
Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (USP/ESALQ), fez seu mestrado em
Estatística Experimental na North Carolina State University. Na
ocasião, conheceu o pesquisador Bruce Weir e,
desde então, a genética quantitativa passou a ser o campo de interação entre o
brasileiro e o norte-americano. A convite do professor Antonio Augusto Franco Garcia que fez seu pós-doutorado no Centro de Bioinformática
chefiado por Bruce Weir, em 2013 o norte-americano participou como palestrante
no 59º Congresso Brasileiro de Genética, que aconteceu entre 16 e 19 de
setembro em Águas de Lindóia (SP). Atualmente, Bruce Weir é chefe do Departamento de Bioestatística, da University of Washington e,
entre janeiro e março, com apoio da Comissão
Fullbrigth, passará seu período sabático (uma espécie
de licença prêmio) na ESALQ. Durante sua permanência, o cientista pretende
interagir com professores, pesquisadores e alunos de graduação e pós-graduação
que estejam interessados em aprimorar seu conhecimento em Genética Estatística.
Para tanto coordenou na ESALQ, entre 22/1 e 12/2, a edição Brasileira do Summer Institute in
Statistical Genetics. Weir
falou sobre esse evento e estudos de genética humana realizados nos EUA.
Ele achou que o Brasil oferece
boas condições para ele realizar uma série de cursos que ele ministra nos
Estados Unidos denominados de Summer Institute in Statistical
Genetics são 20
ou 30 módulos, que são dados pelas maiores autoridades do mundo na área.
Aceitei o desafio e organizei o evento. Outra atividade importante que ele está
fazendo é desenvolvendo o relacionamento com os pesquisadores brasileiros. Aqui
na ESALQ, ele tem conversado com os alunos, com os professores. Também visitou
outros lugares no Brasil. Foi para a USP em Ribeirão Preto dar uma palestra
sobre genética médica. Vai para Sete Lagoas (Minas Gerais) na EMBRAPA. Esse
tipo de visita ele já fez em outros países, na América do Sul é a primeira vez
que realiza esse trabalho. Ele permanecerá por três meses no Brasil, irá voltar
para Seattle e em
setembro deverá ir para a Suíça.
Professor Antonio Augusto Franco
Garcia, o Dr. Bruce S. Weir é um ícone mundial na área de genética?
Ele é super famoso no mundo todo.
Um “Super Star”. É uma honra muito
grande para o nosso departamento em recebê-lo. A produção cientifica dele são
coisas impressionantes, um dos seus livros é livro texto de todas as
disciplinas. No Brasil ele ministrou cursos para cientistas brasileiros.
A qual área da genética ele se dedica?
Eu trabalho na mesma área, é a Genética Estatística.
É uma área antiga, começou nos anos 40, 50. Envolve as duas ciencias
conectadas, tem que conhecer genética e estatística. Desenvolvemos métodos para
fazer análise estatísticas.
Os frutos do trabalho cientifico do Dr. Bruce benefeciam diretamente a
humanidade?
Ele mede a estrutura populacional. Um trabalho muito
interessante que ele está realizando é tentar descobrir maneiras de fazer
previsões de doenças que a população mundial poderá contrair. Com base em
exames genéticos consegue saber se a pessoa tem propensão a determinada doença.
O foco dele é Genética Estatística com aplicações muito fortes na genética
humana. Ele tem muito contato com a área médica. O programa de pós-graduação
dele é um dos três mais famosos do mundo. É de altíssimo nível. Existe a
aplicação genética na área forense. Um exemplo, alguém comete um crime, sofre
um acidente e corta-se deixando um pingo de sangue no local. Através da
genética é possível elaborar um retrato em três dimensões dessa pessoa.
Essas análises permitem que se determine se no futuro o indivíduo poderá
ter por exemplo uma alta taxa de colesterol, o que os laboratórios
farmacêuticos pensam a respeito?
Os laboratórios estão gostando muito, a medicina
diagnóstica é uma área explosiva. Nos Estados Unidos, por algo em torno de U$
100,00 (Cem dólares) você adquire em qualquer farmácia um kit, traz para sua
casa, você mesmo extrai seu DNA e manda para análise, pela internet você recebe
o seu perfil. Com esse teste é possível saber a origem do individuo, quantos
por cento ele tem de europeu, asiático, indiano, africano, latino. Leva apenas
algumas horas. Isso é estrutura populacional. Em determinadas populações dá
para determinar até de qual localidade é sua origem.
Dr. Bruce S. Weir
Dr. Bruce S. Weir é natural
de que cidade?
Nasci em Christchurch, na Nova Zelândia, tenho
graduação em matemática, comecei a fazer estágio em uma instituição nos moldes
da EMBRAPA brasileira, as pesquisas eram com plantas. Nesta viagem ao Brasil
sinto-me como se estivesse voltando as minhas origens. (As pesquisas no Brasil são
muito fortes em plantas.). Nessa época eram feitos melhoramentos de plantas e
animais. Percebi que abriu uma nova área
nessa conexão de matemática com genética. Com isso fui fazer a pós-graduação na
Carolina do Norte, Estados Unidos.
Isso foi na década de 60, era visto como um tema
extremamente futurista?
Era uma área que já tinha uns 20 e poucos anos, estava
florescendo, no mundo existiam quatro locais de alto nível que trabalhavam
nesse sentido. Os mais importantes entre eles eram na Carolina do Norte e em Edimburgo
na Escócia. Diversos outros locais
trabalharam no mesmo sentido.
Qual é a posição do Brasil nesse campo?
O Brasil é forte nessa área, em Piracicaba, em outras
localidades, na EMBRAPA, deve-se muito ao trabalho do Professor Roland Vencovsky, um dos que iniciaram esse processo
no Brasil. Isso na área de animais e plantas. Na área de humanos desde a década
de 70 o Brasil tem bastante relevância no cenário internacional. Cientistas do
mundo inteiro têm trabalhos colaborativos com cientistas brasileiros. Há muitos
dados da população nativa (índios) brasileiros.
A Fundação Rockefeller por longo tempo agiu
de forma muito intensa propiciando estágios e bolsas de estudo. Há alguma nova
orientação a respeito?
A Fundação Rockefeller foi e continua sendo muito
importante no financiamento de pesquisas. O primeiro recurso para pesquisas em
genética foi aprovado em 1960. Esse financiamento para pesquisas continuou até
2005, foram 45 anos ininterruptos. No inicio os recursos eram destinados a
pesquisas com plantas e animais, hoje são direcionados mais para a pesquisa
genética de doenças humanas. Atualmente o foco principal é a parte humana.
Houve uma mudança de ênfase. Genética molecular. É a biotecnologia. Um fato
curioso é que em humanos não há muitos resultados para prever doenças e mesmo a
cura delas, essas tecnologias aplicadas nas áreas de plantas torna-se uma
importante colaboração. Apesar dos recursos não serem dirigidos diretamente ao
pesquisador de plantas, como era antes, beneficiam-se muito dessas informações
dos dados de humanos. Tem genomas de plantas que existe nos genomas humanos.
O senhor pode citar alguns exemplos de genética humana
que possam ser utilizados?
É uma área de pesquisa quente, ainda está em andamento.
Já existe cerca de 200 remédios nos Estados Unidos que o FDA (Food and Drug Administration) exige que se
faça um teste genético antes de comprar o remédio. Existe um determinado tipo
de remédio indicado para controlar o colesterol, em algumas pessoas esse
remédio causa paralisia, um estado bem grave. Com um teste genético, bastante
simples de ser feito, o remédio poderá ser administrado sem nenhum risco.
Se cada individuo tem um comportamento diferente como pode ser feita uma
genética populacional?
O genoma (sequência dos 23 pares de cromossomos) é complicadíssimo. Cada doença está ligada é uma região
do genoma, não é a mesma. Estão sendo estudadas simultaneamente muitas pessoas,
com muitos testes genéticos, muitas doenças. Chegará uma época em que o
individuo terá um cartão, um chip, com o seu genoma gravado. O médico colocará
esse chip ou cartão em um leitor e já irá saber se a droga a ser administrada é
compatível para o individuo. A companhia “23andMe” vende por 100 dólares o kit que não analisa
o genoma em sua totalidade mas uma parte significativa. 200.000 pessoas pagaram
para fazer esse teste e autorizaram a companhia a usar os dados para algum
estudo. A companhia mandou para eles um questionário, onde havia algumas
perguntas sobre características físicas: quem era calvo por exemplo. Só com
isso a companhia conseguiu localizar o genoma que explica a calvície. Outro
exemplo interessante é como se faz a compatibilidade de transplante de medula
óssea para quem tem leucemia. Hoje no mundo todo tem uma lista de 7 milhões de
pessoas que poderiam ser potenciais doadores de medula, pessoas que se oferecem
para fazer. Mas tem haver total compatibilidade entre o doador e quem está
recebendo. Hoje é feito um teste que não é pratico, é caro, mas é o que existe.
Com essa parte de diagnostico genético já existe uma forma de fazer isso a um
custo muito mais baixo e eficaz. Em breve você poderá dizer em um banco de
dados mundial quem é portador de medula compatível.
Esses estudos são com alguma população
determinada?
Tem sido feitos basicamente com americanos e europeus.
Não tem incluído latino-hispânicos. São poucos os estudos incluindo
latino-hispânicos. Eles têm características diferentes. Essas populações são
mais suscetíveis a asma, diabetes, o Brasil é um país que desperta muito
interesse em ser estudado, se isso não for feito os geneticistas brasileiros
ficarão sem as informações essenciais.
A possibilidade de futuramente ter o controle do genoma
pode dar o poder de influir no caráter do individuo?
O fato de saber qual é o genoma do individuo pode ter
conseqüências enormes. Sabendo com antecedência que você tem genes que predispõe
a ter diabetes poderá mudar seu procedimento ou terá chances enormes de
manifestar essa doença. Isso se estende á outras questões também.
A conduta social poderá ser determinada?
Fumar é um comportamento social, pode ser evitado. Não
existe uma resposta simples. Há casos de doenças gravíssimas, sem condições de
cura, que poderão ser descobertas com antecedência. Ai entra uma discussão
seriíssima e ética que é difícil de responder. A privacidade é importantíssima.
Pela lei americana não é permitido que se faça nenhum tipo de teste dessa
natureza para criar alguma restrição ao contrato com alguma empresa de seguro
de vida. Você poderá encontrar um criminoso com muita facilidade, pelo DNA em
um copo poderá determinar quem pegou nesse copo, se você tem uma base de dados
poderá determinar quem esteve em uma sala. Por outro lado se uma companhia de
seguros analisa o individuo através do DNA deixado no copo é um comportamento
ilegal. Isso nos Estados Unidos. No Brasil não deve existir nenhuma legislação
a respeito, os legisladores não se antecipam ao fenômeno. Possivelmente primeiro ocorrerão casos para
depois sair a lei.
Dr. Bruce S. Weir o senhor acredita na existência de
Deus?
Acredito.
O senhor crê que possam existir outras formas de vida no
universo?
É provável que sim. Qualquer tipo de vida.
Uma das razões do Dr. Bruce ter vindo a Piracicaba é o Summer Institute in Statistical
Genetics. Isso para nós é espetacular. Um marco para o
nosso departamento. O Summer
Institute in Statistical Genetics existe a 20 anos.
Organizar e trazer esse instituto é uma atividade de alto nível científico. É
importante que haja uma interação dessa realização com a população.
Dr. Bruce, a longevidade humana
tende a aumentar?
Obviamente que com essas
informações você poderá viver mais saudável, ter menos doenças, o período de
vida dos humanos está aumentando cada vez mais. Pela nutrição, hoje comemos
melhor, água limpa e algumas doenças que não existem mais. Quando analiso material
genético de pessoas de pessoas com longevidade percebo os defeitos, após os 50
anos de idade todo ser humano tem defeitos causados pela divisão celular. Em
alguns casos isso é gravíssimo, ocorre o óbito do individuo, em outros casos os
pequenos defeitos vão se acumulando. Existe uma forte evidência de até que
numero de gerações as células conseguem se dividirem. Isso não tem como
impedir. Não se sabe ao certo até quantas divisões celulares é possível em
humano.
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