quarta-feira, junho 19, 2024

 



                                      



                                                      WALDEMAR ROMANO

25 DE MAIO 2024

 

 

O Cirurgião Dentista Dr. Waldemar Romano é um dos pilares do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba. Transmite serenidade e simpatia, é uma pessoa dinâmica, discreta e participativa. Meticuloso, é associado ao IHGP há algumas décadas, onde ocupou cargos de diretoria. Até hoje, seus préstimos são importantes para essa entidade e para a comunidade piracicabana.

Waldemar possui uma memória invejável, um grande interesse pela História, conserva consigo uma razoável bagagem de fatos, pessoas e lugares que muitos não conhecem ou não se lembram mais. Cita datas e nomes de décadas passadas com uma precisão absoluta.

Você nasceu em qual cidade?

Nasci em Piracicaba, em 27 de julho de 1940, nasci na casa dos meus pais, situada na esquina da Rua Governador Pedro de Toledo com a Rua Treze de Maio, onde hoje é o Edifício Luciano Guidotti. Naquele tempo quase não se usava maternidade. Meu pai é Américo Romani e a minha mãe Irene Augustti Romano.

Qual era a atividade profissional do seu pai?

Meu pai cursou a Escola de Contabilidade Cristovão Colombo, popularmente conhecida como Escola do Zanin, em 1939. Ele se formou como técnico de contabilidade, naquele tempo, chamado de guarda-livros. Ele trabalhou pouco tempo no Jornal de Piracicaba, já como Técnico de Contabilidade. A seguir foi trabalhar com Nicolau Marino e família, em Rio das Pedras. Eles tinham áreas com plantações, uma máquina de descaroçar algodão em um barracão grande, com um escritório. Essas instalações ficavam próximas à Igreja Matriz de Rio das Pedras. A família Marino tinha algumas fazendas.

Seus pais tiveram quantos filhos?

Éramos em cinco filhos, hoje somos em quatro: Regina Maria, Nair, Américo Junior, que faleceu, Maria Irene e Waldemar.

Você morou quanto tempo em Rio das Pedras?

Morei lá por 5 anos quando era menino. Fui com 3 anos e fiquei até meus 8 anos de idade.

Meu pai ia voltar para Piracicaba, para trabalhar como Contador com o meu tio Antônio Romano, na Retífica de Motores. Seis meses antes, ele me trouxe para morar com minha avó, Maria Azzini Romano, que morava na casa onde nasci. Foi a forma que encontraram para que o meu aproveitamento escolar evitasse mudança de escola no meio do ano. Meu primeiro ano foi em 1948, no Grupo Escolar Prudente de Moraes, que antes tinha sido, até a década de 30, a Escola de Farmácia e Odontologia Washington Luiz onde hoje é o Museu Prudente de Moraes. A partir do segundo ano em diante fiz no Grupo Escolar Dr. Moraes Barros. Minha primeira professora foi Josephina Domenico Pinheiro, do segundo ao quarto ano fiz com a professora Maria Emília Cardinali Piedade.

Mesmo ainda muito pequeno, você, como toda a população, em menor ou maior escala, pegou reflexos da Segunda Guerra Mundial (Racionamento de alimentos, combustíveis, radicalismo ideológico contra imigrantes japoneses, italianos e alemães. A eles, era proibida a propriedade de rádio receptor comum?

Sentimos algumas mudanças nesse período. Refletiu em toda a população. Eu não acompanhava, em função da minha idade, tinha apenas 5 anos. A guerra acabou em 1945.

Vocês voltaram para Piracicaba, você prosseguiu nos estudos?

Bem, na verdade, eu não queria estudar! Eu queria trabalhar na retífica de motores da família, a Retífica Romano S/A, sediada à Rua São José, 1122.

O famoso empreendedor, Comendador Antonio Romano, tinha que grau de parentesco com você?

Era meu tio!

O Comendador Romano (Título concedido pela Santa Se´) foi um cidadão participativo, altruísta, muto bem-quisto pela comunidade, fez muito por Piracicaba.

Sem dúvida nenhuma! Ele atuou em diversas áreas. Inclusive ele fez diversas obras civis, em um tempo em que Piracicaba era bem menor, ou seja, o impacto das construções era maior. Construiu em um quarteirão quadrado, quarenta sobrados confortáveis. Ele construiu umas sessenta casas, adquiriu outras. Até 1945, quando eles estavam com a oficina mecânica e ia passar para a retífica, a minha família era muito pobre. Ninguém tinha casa própria, todo mundo pagava aluguel.

Quando ele instalou a retífica, comprou um maquinário muito completo, até encerrar as atividades, que foram encerradas de forma espontânea. Foi uma atividade muito rentável.

O Edifício Antonio Romano foi um empreendimento ousado para a realidade na época. Apartamentos com acomodações amplas, não deixando nada a desejar perto dos existentes nas principais cidades do Brasil. Em sociedade com a família Checolli, eles constituíram uma construtora, construíram o prédio na Rua Prudente de Moraes, esquina com a Avenida Armando Salles, construíram o prédio da esquina da Rua Prudente de Moraes esquina com a Rua São João, que depois recebeu o nome dele. Construíram o prédio em frente à Loja CEM, o Edifício Pedro Ometto.

Você não queria estudar, queria trabalhar na retífica, você achava bonito!

Meu pai insistiu, até que resolvi estudar, fiz um curso preparatório para entrar no ginásio.

Foi em uma escola particular, das professoras Adelina e Amália Tarsa. Situava-se na Rua Rangel Pestana, 781, se não me engano. Isso para entrar no ginásio do Sud Mennucci.  

Era um exame difícil, o chamado “vestibulinho”?

Eu e a minha irmã Regina fizemos o exame, eu me classifiquei em segundo lugar e a minha irmã em terceiro. Quem foi classificado em primeiro lugar foi Pedro Almeida de Negri, irmão do Dr. Cássio Almeida de Negri.

O Sud Mennucci era uma escola diferenciada?

O Sud Mennucci, assim como outras escolas públicas, tinha uma seleção rigorosa tanto de alunos como de professores. Isso possibilitava que o ensino público, mesmo sendo gratuito, fosse de alto padrão. O Sud Mennucci tinha um conceito muito elevado em Piracicaba. Tínhamos aulas de português com o Professor Benedito de Andrade, poliglota, o Professor Argino da Silva Leite lecionava matemática, Professora Zelinda, que era esposa do professor Argino, lecionava português. Com o professor Benedito de Andrade tive aula um ano, tive aulas de Francês com o professor Manassés.

Quem era o diretor do Sud Mennucci na época?

Era o professor Arlindo Ruffato depois foi Adolfo Basile.

O diretor Arlindo era linha dura? Era meio quieto, mas era feroz de vez em quando! ( Risos). Tive aulas de desenho com o professor Arquimedes Dutra. Aulas de química tive com o professor Demóstenes Santos Correa. As aulas de física eram com o professor Abelardo Cicarelli. Tive aulas também com o professor Frederico Alberto Blaauw e Mauro Gonçalves foi meu professor também. Foi minha professora a historiadora-mor, Maria Celestina Teixeira Mendes, a Mariinha. Eram professores muito bem-conceituados.

Praticamente, o aluno saía dali pronto para o vestibular?

Fiz o curso colegial com dedicação aos estudos, à noite, e ao mesmo tempo fazia também o Tiro de Guerra. Isso foi em 1959.

 Quem era o sargento que o comandava?

Era o Sargento Valdemy Gomes Barbosa. O Sargento Jovelino Guatura dos Santos já era também comandante, mas de uma outra companhia. Naquele tempo fazíamos de fevereiro até novembro. No ano em que fiz o serviço militar, tínhamos 400 atiradores. Hoje parece que são em torno de 200 a 250. Muitos jovens são dispensados do serviço militar.

Para você foi importante prestar o serviço militar?

O único mal do Tiro de Guerra é que a mãe faz junto!  Temos que deixar tudo limpinho todos os dias: coturno limpinho, farda limpinha! E de vez em quando voltávamos para casa enlameado! Principalmente quando tinhamos que rastejar! Quando comecei a fazer não tinha sede, o Tiro de Guerra era situado no Largo da Estação da Estrada de Ferro Sorocabana, onde hoje é o terminal do ônibus urbano, Havia um salão alugado que era utilizado como uma sede provisória. Depois, por volta de junho ou julho, mudou para a escadaria embaixo do Ginásio Municipal. A concentração era feita lá, depois seguíamos em marcha pela Avenida Independência, pela zona rural. Como estava sendo iniciado o Estádio Municipal, era a primeira gestão do prefeito Luciano Guidotti, o local onde estava sendo construído o estádio era um barreiro tremendo, o sargento nos fazia rastejar por lá. Voltávamos para casa com uns dois quilos de barro cada um.

E nessa época você morava onde?

Na Rua Governador Pedro de Toledo, 701, meu pai derrubou a casa antiga e construiu uma nova casa. Isso foi por volta de 1965 a 1966 , o número passou a ser 705. Fica entre a Rua Treze de Maio e a Rua Prudente de Moraes.

Você se locomovia a pé?

Normalmente ia a pé. Às vezes, pegava o carro do vizinho.

Ter feito o Tiro de Guerra foi importante para você?

Acho que valeu a pena! O único mal é que a mãe faz junto! A mãe que sofre também! No Tiro de Guerra a gente aprende hierarquia, disciplina, coisas que hoje fazem muita falta para a sociedade, para os jovens que vem vindo aí. Sinto quando falam: “Quero ser dispensado! Não quero fazer!”. Se tiver saúde, faça! Talvez falte noção dos benefícios que podem ter essa convivência, principalmente nessa faixa etária.

Você concluiu o Tiro de Guerra e o Curso Científico no Sud Mennucci. Você já tinha definido qual seria a próxima etapa?

Quando entra nessa faixa de idade a maioria fica vendido!  Eu fiz odontologia.

Por influência de alguém?

Na região em que eu morava tinha uns amigos que eram dentistas, eles comentavam comigo alguma coisa, contavam a respeito da profissão, mas na minha família não tinha nenhum dentista. Prestei exame na Faculdade de Odontologia de Piracicaba, que hoje é UNICAMP, naquele tempo não era. Passei em primeiro lugar no exame vestibular. Naquele tempo a faculdade tinha 40 vagas. Ela começou em 1957 a Faculdade de Odontologia que hoje é UNICAMP. Até 1970, mais ou menos, não preenchia as vagas. A minha turma tinha 32 alunos. Quem tomou frente à faculdade foi Carlos Henrique Robertson Liberalli, doutor em farmácia pela Universidade de São Paulo em 1946. Foi eleito membro da Academia Nacional de Medicina em 1964. Ele era uma pessoa extremamente culta, inteligente e empreendedora.

Quando você entrou classificado em primeiro lugar, não passou a ser visto como um aluno diferenciado?

Eu tinha facilidade em assimilar os ensinamentos.

Para quem queria seguir a carreira de mecânico, entrar em primeiro lugar na Faculdade de Odontologia foi um feito memorável!

Vou contar um caso notável. A Professora Zelinda, de português, era extremamente rigorosa no ensino e no dar notas. Ela era fora do comum sob esse aspecto. A primeira nota que tive com ela foi 0,7! Ela dava notas como -0,2; -0,3.

O aluno ficava devendo nota para ela?

Ficava devendo!

Pensei: “Eu vou pegar essa professora!”.  Ela tinha uma biblioteca que era da área dela, de português. Autores clássicos como Machado de Assis, Eça de Queiroz, escritores da época passada. Os clássicos. Passei a pegar um livro por semana, nem sempre lia inteiro, lia um pedaço, lia outro pedaço, devolvia o livro. Com isso cativei a professora, e ela passou a me dar a nota que eu merecia.

Pelo seu esforço, seu empenho, você acabou conquistando a simpatia da professora. Você passou a falar no nível dela.  

Fiquei amigo dela. Alguns alunos nem a cumprimentavam.

Hoje eu agradeço a muitos professores, hoje sinto os frutos bem importantes. Infelizmente a pedagogia utilizada por essa professora era de difícil compreensão, as aulas do Professor Benedito de Andrade eram magníficas. Ele era um verdadeiro artista. Para dar aulas, ele cativava todo mundo, ninguém dava um pio na aula dele. Outra professora que foi muito severa, a quem agradeço, foi a professora Mariinha, Maria Teixeira Mendes, ela faleceu há poucos anos, com quase 100 anos de idade. Ela era bem severa. Com isso aprendi a escrever, embora não seja muito afeito a colocar textos em jornal, mas tenho condições de analisar textos escritos, concordância gramatical, o uso correto da linguagem. Sou bastante detalhista nisso. Outra área que passei a gostar muito é a de História! Tanto que acabei ficando associado do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.

Em que ano você tornou-se associado do IHGP?

Foi em 2003.

Quais associados são os pioneiros e fundadores do IHGP?

Temos a Dra. Marly Therezinha Germano Perecin e o Dr. Antonio Messias Galdino. O Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba foi fundado em 1967. Parece-me que o professor Frederico Alberto Blaauw também foi fundador, mas não faz mais parte, eu falo que parece-me porque estive vendo as composições de diretorias, na primeira e segunda diretoria ele fazia parte. Portanto ele deve ter feito parte e depois se afastou.

Ao ingressar na Faculdade de Odontologia de Piracicaba, ela situava-se em qual local?

Funcionava na Rua D.Pedro II, 627, esquina com a Rua Alferes José Caetano. A FOP tinha convênio com o Panamá, na minha época tinha uns cinco ou seis panamenhos fazendo o curso. Naquela calçada tinha só a faculdade, um barracão grande que era usado como estacionamento de caminhão pelo posto de gasolina que ficava na esquina, de propriedade do João Rocha. O posto de gasolina lá, tinha o desenho que é o mesmo do único posto remanescente daquela época, antes de 1950, que fica na Rua Governador Pedro de Toledo esquina com a Rua Prudente de Moraes. Antes, mesmo desse tipo de posto de gasolina, eram instaladas bombas de combustível na calçada. Tem uma bomba de combustível, que era do Adamoli, passou pelo IHGP  que fez a doação para o Museu Luiz de Queiroz. Era manual. Onde hoje é o prédio Mimi Fagundes, havia um posto de combustível. Era Posto São Paulo, se não me engano. Agora só ficou aquele posto da Prudente de Moraes, inclusive é onde abasteço.

Na época em que você fez a Faculdade de Odontologia eram quatro anos de curso?

Eram quatro anos. Participei muito do Centro Acadêmico. No primeiro ano fiquei Diretor de Assistência Social aos Acadêmicos. Conseguia remédios de graça,  algumas coisas para eles utilizarem. Depois fui Presidente da Associação Atlética, Presidente do Centro Acadêmico. No último ano de faculdade, fui Presidente do Conselho Fiscal do Centro Acadêmico. Quando estava no quarto ano da Faculdade de Odontologia, fui eleito vereador.

Você participava de algum esporte?

Dentro do Centro Acadêmico só participei um pouco do Atletismo, em especial de corridas. Corrida de 1.500 metros. Eu não treinava, então não podia ter uma performance para conseguir medalha.

Você foi eleito vereador ainda muito jovem!

Fui eleito por algumas forças, por exemplo a minha família, acadêmicos, tive 561 votos, fui o mais votado na época, fui o mais votado do Partido Republicano, na época também tinha muitos partidos políticos, a Câmara era composta por 21 vereadores. Sem remuneração nenhuma, na verdade a gente acabava pagando, como você estava em uma condição de mais evidência, recebia mais convites para festas, mais convites para casamentos, na época vereador não recebia nada.

A Câmara funcionava onde?

Era em um anexo da própria Prefeitura Municipal, mas tinha entrada independente. Com o mesmo número de hoje. Creio que em 1975, o prefeito era Adilson Benedito Maluf e o presidente da Câmara era Antonio Messias Galdino. Fizeram aquele prédio que está sendo utilizado até hoje, na Rua Alferes José Caetano e não o anexo da Rua São José esquina com a Rua do Rosário. Um fato curioso é que embora a Câmara anteriormente ficava no meio do quarteirão, número 834, junto a um jardim da Prefeitura, o prédio novo foi construído na esquina, mantendo o número 834. Ou seja, a Câmara Municipal mudou cerca de 50 metros sem alterar o número do seu prédio. (Possivelmente para economizar tempo e dinheiro, pois uma série de modificações teriam que ser feitas, em documentos, endereço de postagem, etc.)

Não sei quem destruiu o prédio da Prefeitura antiga, que era um palacete onde morou Francisco José da Conceição  nascido em Piracicaba, em  1822 , faleceu em Rio das Pedras, no dia 2 de outubro de 1900. Fazendeiro, político e cafeicultor. Foi agraciado como primeiro e único Barão de Serra Negra em 1871.

 

Cirurgião Dentista Dr. Waldemar Romano é um dos pilares do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba. Transmite serenidade e simpatia, é uma pessoa dinâmica, discreta e participativa. Meticuloso, é associado ao IHGP há algumas décadas, onde ocupou cargos de diretoria. Até hoje, seus préstimos são importantes para essa entidade e para a comunidade piracicabana.

Waldemar possui uma memória invejável, um grande interesse pela História, conserva consigo uma razoável bagagem de fatos, pessoas e lugares que muitos não conhecem ou não se lembram mais. Cita datas e nomes de décadas passadas com uma precisão absoluta.

Você nasceu em qual cidade?

Nasci em Piracicaba, em 27 de julho de 1940, nasci na casa dos meus pais, situada na esquina da Rua Governador Pedro de Toledo com a Rua Treze de Maio, onde hoje é o Edifício Luciano Guidotti. Naquele tempo quase não se usava maternidade. Meu pai é Américo Romani e a minha mãe Irene Augustti Romano.

Qual era a atividade profissional do seu pai?

Meu pai cursou a Escola de Contabilidade Cristovão Colombo, popularmente conhecida como Escola do Zanin, em 1939. Ele se formou como técnico de contabilidade, naquele tempo, chamado de guarda-livros. Ele trabalhou pouco tempo no Jornal de Piracicaba, já como Técnico de Contabilidade. A seguir foi trabalhar com Nicolau Marino e família, em Rio das Pedras. Eles tinham áreas com plantações, uma máquina de descaroçar algodão em um barracão grande, com um escritório. Essas instalações ficavam próximas à Igreja Matriz de Rio das Pedras. A família Marino tinha algumas fazendas.

Seus pais tiveram quantos filhos?

Éramos em cinco filhos, hoje somos em quatro: Regina Maria, Nair, Américo Junior, que faleceu, Maria Irene e Waldemar.

Você morou quanto tempo em Rio das Pedras?

Morei lá por 5 anos quando era menino. Fui com 3 anos e fiquei até meus 8 anos de idade.

Meu pai ia voltar para Piracicaba, para trabalhar como Contador com o meu tio Antônio Romano, na Retífica de Motores. Seis meses antes, ele me trouxe para morar com minha avó, Maria Azzini Romano, que morava na casa onde nasci. Foi a forma que encontraram para que o meu aproveitamento escolar evitasse mudança de escola no meio do ano. Meu primeiro ano foi em 1948, no Grupo Escolar Prudente de Moraes, que antes tinha sido, até a década de 30, a Escola de Farmácia e Odontologia Washington Luiz onde hoje é o Museu Prudente de Moraes. A partir do segundo ano em diante fiz no Grupo Escolar Dr. Moraes Barros. Minha primeira professora foi Josephina Domenico Pinheiro, do segundo ao quarto ano fiz com a professora Maria Emília Cardinali Piedade.

Mesmo ainda muito pequeno, você, como toda a população, em menor ou maior escala, pegou reflexos da Segunda Guerra Mundial (Racionamento de alimentos, combustíveis, radicalismo ideológico contra imigrantes japoneses, italianos e alemães. A eles, era proibida a propriedade de rádio receptor comum?

Sentimos algumas mudanças nesse período. Refletiu em toda a população. Eu não acompanhava, em função da minha idade, tinha apenas 5 anos. A guerra acabou em 1945.

Vocês voltaram para Piracicaba, você prosseguiu nos estudos?

Bem, na verdade, eu não queria estudar! Eu queria trabalhar na retífica de motores da família, a Retífica Romano S/A, sediada à Rua São José, 1122.

O famoso empreendedor, Comendador Antonio Romano, tinha que grau de parentesco com você?

Era meu tio!

O Comendador Romano (Título concedido pela Santa Se´) foi um cidadão participativo, altruísta, muto bem-quisto pela comunidade, fez muito por Piracicaba.

Sem dúvida nenhuma! Ele atuou em diversas áreas. Inclusive ele fez diversas obras civis, em um tempo em que Piracicaba era bem menor, ou seja, o impacto das construções era maior. Construiu em um quarteirão quadrado, quarenta sobrados confortáveis. Ele construiu umas sessenta casas, adquiriu outras. Até 1945, quando eles estavam com a oficina mecânica e ia passar para a retífica, a minha família era muito pobre. Ninguém tinha casa própria, todo mundo pagava aluguel.

Quando ele instalou a retífica, comprou um maquinário muito completo, até encerrar as atividades, que foram encerradas de forma espontânea. Foi uma atividade muito rentável.

O Edifício Antonio Romano foi um empreendimento ousado para a realidade na época. Apartamentos com acomodações amplas, não deixando nada a desejar perto dos existentes nas principais cidades do Brasil. Em sociedade com a família Checolli, eles constituíram uma construtora, construíram o prédio na Rua Prudente de Moraes, esquina com a Avenida Armando Salles, construíram o prédio da esquina da Rua Prudente de Moraes esquina com a Rua São João, que depois recebeu o nome dele. Construíram o prédio em frente à Loja CEM, o Edifício Pedro Ometto.

Você não queria estudar, queria trabalhar na retífica, você achava bonito!

Meu pai insistiu, até que resolvi estudar, fiz um curso preparatório para entrar no ginásio.

Foi em uma escola particular, das professoras Adelina e Amália Tarsa. Situava-se na Rua Rangel Pestana, 781, se não me engano. Isso para entrar no ginásio do Sud Mennucci.  

Era um exame difícil, o chamado “vestibulinho”?

Eu e a minha irmã Regina fizemos o exame, eu me classifiquei em segundo lugar e a minha irmã em terceiro. Quem foi classificado em primeiro lugar foi Pedro Almeida de Negri, irmão do Dr. Cássio Almeida de Negri.

O Sud Mennucci era uma escola diferenciada?

O Sud Mennucci, assim como outras escolas públicas, tinha uma seleção rigorosa tanto de alunos como de professores. Isso possibilitava que o ensino público, mesmo sendo gratuito, fosse de alto padrão. O Sud Mennucci tinha um conceito muito elevado em Piracicaba. Tínhamos aulas de português com o Professor Benedito de Andrade, poliglota, o Professor Argino da Silva Leite lecionava matemática, Professora Zelinda, que era esposa do professor Argino, lecionava português. Com o professor Benedito de Andrade tive aula um ano, tive aulas de Francês com o professor Manassés.

Quem era o diretor do Sud Mennucci na época?

Era o professor Arlindo Ruffato depois foi Adolfo Basile.

O diretor Arlindo era linha dura? Era meio quieto, mas era feroz de vez em quando! ( Risos). Tive aulas de desenho com o professor Arquimedes Dutra. Aulas de química tive com o professor Demóstenes Santos Correa. As aulas de física eram com o professor Abelardo Cicarelli. Tive aulas também com o professor Frederico Alberto Blaauw e Mauro Gonçalves foi meu professor também. Foi minha professora a historiadora-mor, Maria Celestina Teixeira Mendes, a Mariinha. Eram professores muito bem-conceituados.

Praticamente, o aluno saía dali pronto para o vestibular?

Fiz o curso colegial com dedicação aos estudos, à noite, e ao mesmo tempo fazia também o Tiro de Guerra. Isso foi em 1959.

 Quem era o sargento que o comandava?

Era o Sargento Valdemy Gomes Barbosa. O Sargento Jovelino Guatura dos Santos já era também comandante, mas de uma outra companhia. Naquele tempo fazíamos de fevereiro até novembro. No ano em que fiz o serviço militar, tínhamos 400 atiradores. Hoje parece que são em torno de 200 a 250. Muitos jovens são dispensados do serviço militar.

Para você foi importante prestar o serviço militar?

O único mal do Tiro de Guerra é que a mãe faz junto!  Temos que deixar tudo limpinho todos os dias: coturno limpinho, farda limpinha! E de vez em quando voltávamos para casa enlameado! Principalmente quando tinhamos que rastejar! Quando comecei a fazer não tinha sede, o Tiro de Guerra era situado no Largo da Estação da Estrada de Ferro Sorocabana, onde hoje é o terminal do ônibus urbano, Havia um salão alugado que era utilizado como uma sede provisória. Depois, por volta de junho ou julho, mudou para a escadaria embaixo do Ginásio Municipal. A concentração era feita lá, depois seguíamos em marcha pela Avenida Independência, pela zona rural. Como estava sendo iniciado o Estádio Municipal, era a primeira gestão do prefeito Luciano Guidotti, o local onde estava sendo construído o estádio era um barreiro tremendo, o sargento nos fazia rastejar por lá. Voltávamos para casa com uns dois quilos de barro cada um.

E nessa época você morava onde?

Na Rua Governador Pedro de Toledo, 701, meu pai derrubou a casa antiga e construiu uma nova casa. Isso foi por volta de 1965 a 1966 , o número passou a ser 705. Fica entre a Rua Treze de Maio e a Rua Prudente de Moraes.

Você se locomovia a pé?

Normalmente ia a pé. Às vezes, pegava o carro do vizinho.

Ter feito o Tiro de Guerra foi importante para você?

Acho que valeu a pena! O único mal é que a mãe faz junto! A mãe que sofre também! No Tiro de Guerra a gente aprende hierarquia, disciplina, coisas que hoje fazem muita falta para a sociedade, para os jovens que vem vindo aí. Sinto quando falam: “Quero ser dispensado! Não quero fazer!”. Se tiver saúde, faça! Talvez falte noção dos benefícios que podem ter essa convivência, principalmente nessa faixa etária.

Você concluiu o Tiro de Guerra e o Curso Científico no Sud Mennucci. Você já tinha definido qual seria a próxima etapa?

Quando entra nessa faixa de idade a maioria fica vendido!  Eu fiz odontologia.

Por influência de alguém?

Na região em que eu morava tinha uns amigos que eram dentistas, eles comentavam comigo alguma coisa, contavam a respeito da profissão, mas na minha família não tinha nenhum dentista. Prestei exame na Faculdade de Odontologia de Piracicaba, que hoje é UNICAMP, naquele tempo não era. Passei em primeiro lugar no exame vestibular. Naquele tempo a faculdade tinha 40 vagas. Ela começou em 1957 a Faculdade de Odontologia que hoje é UNICAMP. Até 1970, mais ou menos, não preenchia as vagas. A minha turma tinha 32 alunos. Quem tomou frente à faculdade foi Carlos Henrique Robertson Liberalli, doutor em farmácia pela Universidade de São Paulo em 1946. Foi eleito membro da Academia Nacional de Medicina em 1964. Ele era uma pessoa extremamente culta, inteligente e empreendedora.

Quando você entrou classificado em primeiro lugar, não passou a ser visto como um aluno diferenciado?

Eu tinha facilidade em assimilar os ensinamentos.

Para quem queria seguir a carreira de mecânico, entrar em primeiro lugar na Faculdade de Odontologia foi um feito memorável!

Vou contar um caso notável. A Professora Zelinda, de português, era extremamente rigorosa no ensino e no dar notas. Ela era fora do comum sob esse aspecto. A primeira nota que tive com ela foi 0,7! Ela dava notas como -0,2; -0,3.

O aluno ficava devendo nota para ela?

Ficava devendo!

Pensei: “Eu vou pegar essa professora!”.  Ela tinha uma biblioteca que era da área dela, de português. Autores clássicos como Machado de Assis, Eça de Queiroz, escritores da época passada. Os clássicos. Passei a pegar um livro por semana, nem sempre lia inteiro, lia um pedaço, lia outro pedaço, devolvia o livro. Com isso cativei a professora, e ela passou a me dar a nota que eu merecia.

Pelo seu esforço, seu empenho, você acabou conquistando a simpatia da professora. Você passou a falar no nível dela.  

Fiquei amigo dela. Alguns alunos nem a cumprimentavam.

Hoje eu agradeço a muitos professores, hoje sinto os frutos bem importantes. Infelizmente a pedagogia utilizada por essa professora era de difícil compreensão, as aulas do Professor Benedito de Andrade eram magníficas. Ele era um verdadeiro artista. Para dar aulas, ele cativava todo mundo, ninguém dava um pio na aula dele. Outra professora que foi muito severa, a quem agradeço, foi a professora Mariinha, Maria Teixeira Mendes, ela faleceu há poucos anos, com quase 100 anos de idade. Ela era bem severa. Com isso aprendi a escrever, embora não seja muito afeito a colocar textos em jornal, mas tenho condições de analisar textos escritos, concordância gramatical, o uso correto da linguagem. Sou bastante detalhista nisso. Outra área que passei a gostar muito é a de História! Tanto que acabei ficando associado do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.

Em que ano você tornou-se associado do IHGP?

Foi em 2003.

Quais associados são os pioneiros e fundadores do IHGP?

Temos a Dra. Marly Therezinha Germano Perecin e o Dr. Antonio Messias Galdino. O Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba foi fundado em 1967. Parece-me que o professor Frederico Alberto Blaauw também foi fundador, mas não faz mais parte, eu falo que parece-me porque estive vendo as composições de diretorias, na primeira e segunda diretoria ele fazia parte. Portanto ele deve ter feito parte e depois se afastou.

Ao ingressar na Faculdade de Odontologia de Piracicaba, ela situava-se em qual local?

Funcionava na Rua D.Pedro II, 627, esquina com a Rua Alferes José Caetano. A FOP tinha convênio com o Panamá, na minha época tinha uns cinco ou seis panamenhos fazendo o curso. Naquela calçada tinha só a faculdade, um barracão grande que era usado como estacionamento de caminhão pelo posto de gasolina que ficava na esquina, de propriedade do João Rocha. O posto de gasolina lá, tinha o desenho que é o mesmo do único posto remanescente daquela época, antes de 1950, que fica na Rua Governador Pedro de Toledo esquina com a Rua Prudente de Moraes. Antes, mesmo desse tipo de posto de gasolina, eram instaladas bombas de combustível na calçada. Tem uma bomba de combustível, que era do Adamoli, passou pelo IHGP  que fez a doação para o Museu Luiz de Queiroz. Era manual. Onde hoje é o prédio Mimi Fagundes, havia um posto de combustível. Era Posto São Paulo, se não me engano. Agora só ficou aquele posto da Prudente de Moraes, inclusive é onde abasteço.

Na época em que você fez a Faculdade de Odontologia eram quatro anos de curso?

Eram quatro anos. Participei muito do Centro Acadêmico. No primeiro ano fiquei Diretor de Assistência Social aos Acadêmicos. Conseguia remédios de graça,  algumas coisas para eles utilizarem. Depois fui Presidente da Associação Atlética, Presidente do Centro Acadêmico. No último ano de faculdade, fui Presidente do Conselho Fiscal do Centro Acadêmico. Quando estava no quarto ano da Faculdade de Odontologia, fui eleito vereador.

Você participava de algum esporte?

Dentro do Centro Acadêmico só participei um pouco do Atletismo, em especial de corridas. Corrida de 1.500 metros. Eu não treinava, então não podia ter uma performance para conseguir medalha.

Você foi eleito vereador ainda muito jovem!

Fui eleito por algumas forças, por exemplo a minha família, acadêmicos, tive 561 votos, fui o mais votado na época, fui o mais votado do Partido Republicano, na época também tinha muitos partidos políticos, a Câmara era composta por 21 vereadores. Sem remuneração nenhuma, na verdade a gente acabava pagando, como você estava em uma condição de mais evidência, recebia mais convites para festas, mais convites para casamentos, na época vereador não recebia nada.

A Câmara funcionava onde?

Era em um anexo da própria Prefeitura Municipal, mas tinha entrada independente. Com o mesmo número de hoje. Creio que em 1975, o prefeito era Adilson Benedito Maluf e o presidente da Câmara era Antonio Messias Galdino. Fizeram aquele prédio que está sendo utilizado até hoje, na Rua Alferes José Caetano e não o anexo da Rua São José esquina com a Rua do Rosário. Um fato curioso é que embora a Câmara anteriormente ficava no meio do quarteirão, número 834, junto a um jardim da Prefeitura, o prédio novo foi construído na esquina, mantendo o número 834. Ou seja, a Câmara Municipal mudou cerca de 50 metros sem alterar o número do seu prédio. (Possivelmente para economizar tempo e dinheiro, pois uma série de modificações teriam que ser feitas, em documentos, endereço de postagem, etc.)

Não sei quem destruiu o prédio da Prefeitura antiga, que era um palacete onde morou Francisco José da Conceição  nascido em Piracicaba, em  1822 , faleceu em Rio das Pedras, no dia 2 de outubro de 1900. Fazendeiro, político e cafeicultor. Foi agraciado como primeiro e único Barão de Serra Negra em 1871.



Francisco José da Conceição

Barão de Serra Negra

   





  

                                                                           Rudyard Kipling

     


Quando esteve em Piracicaba, esteve hospedado no Palacete Miranda construído por Luiz de Queiroz, e visitou o Barão de Serra Negra em seu palacete. Eu me lembro de que quando João Hermann era prefeito, ele mudou o seu gabinete para aquela esquina onde hoje é um cartório, na Rua São José esquina com a Rua do Rosário. Ali já funcionou o SAMDU – Serviço de Atendimento Médico Domiciliar de Urgência, depois foi a sede da UNIODONTO e agora é um Cartório. É um casarão!

Muitas localidades preservam seus patrimônios históricos. Isso gera um fluxo de turistas elevado, e traz um retorno para a cidade. Um exemplo gritante é a cidade de Curitiba, que investiu muito na preservação histórica.  Talvez nem todos saibam, mas o Governador Adhemar de Barros nasceu em Piracicaba!

Waldemar afirma: A sua casa foi demolida! Ficava na esquina da Rua Boa Morte com a Rua Ipiranga! Na Rua Ipiranga havia a única Sinagoga da cidade, que funcionou até o início da década de 60. Foi diminuindo a colônia de judeus aqui na cidade. Cerca de 80, 100 anos atrás eram mais numerosos. O prédio foi vendido. O comprador tinha planos de construir no local, demoliu a casa que tinha sido uma sinagoga.

Você conheceu o Teatro Santo Estevão?

Eu morava ali perto, na Rua Governador Pedro de Toledo, desde novembro de 1953, ele foi demolido em 1954 ou 1955.Eu nunca entrei naquele Teatro. Visto pelo lado de fora, era uma construção sem grandes desenhos, não tinha as características de arte que são normais em algumas construções antigas. Podemos até dizer que no lado externo era uma construção simples. Mas deveria ser conservado, pelo seu valor cultural.

O famoso Hotel Central deixou muitas lembranças?

No meu entendimento, perto de uma igreja, não se constrói ao lado dela, um prédio que seja mais alto do que ela. Quando a igreja é mais alta do que os seus vizinhos, você está pondo o espírito acima da matéria. O prédio que ocupou o local onde era o Hotel Central, coloca a matéria acima do espírito. Não sei de quem é aquele prédio. Infelizmente as construções tombadas são conservadas de pé, porém a maioria não os conserva bem. Na Rua do Rosário, onde era antigamente a Sociedade Portuguesa, o dono daquele prédio é um amigo meu, um engenheiro, ele conserva tudo perfeitamente.  

Em contrapartida, o prédio vizinho foi demolido e só restou a fachada!

Pelo que eu vi, os tombamentos em Piracicaba começaram na década de 80, salvo engano, foi na gestão de Adilson Benedito Maluf. Esses procedimentos são novos, então perdeu-se muita coisa.

Na esquina das Ruas Voluntários de Piracicaba e Alferes José Caetano tinha um casarão onde funcionou a Biblioteca Municipal.

Entrei lá muitas vezes para estudar.

Você sabe quem morou originariamente naquela casa?

A prefeitura alugava aquela casa.

Na esquina da Rua Treze de Maio com a Rua São José havia uma casa muito vistosa, antiga, com classe. Foi demolida para ser construído um prédio comercial. Nas proximidades, tinha um outro imóvel que foi demolido e que também tinha características próprias de épocas passadas. Já faz uns 10 anos que se tornou apenas um terreno para vender ou alugar.

Voltando ao seu período na Faculdade, a sua integração foi tranquila?

Passei em primeiro lugar no vestibular, depois fui um aluno médio, dentro do padrão, na parte prática eu fui bem, tinha habilidade. Desde o tempo de ginásio eu tinha habilidade com detalhes, o meu professor de trabalhos manuais foi o professor Lino Sansigolo, ele trabalhava muito os alunos, era bem dedicado. Fiz muitos trabalhos manuais, delicados, com serra tico-tico. Eu tinha uma espécie de moinho holandês, cheio de detalhes, fiz uns sete ou oito daqueles moinhos. Fazia em casa, serrando a madeira. Posso dizer que já tinha preparado os meus dedos para trabalhos delicados. Tive facilidade em aprender. Em 1964 instalei meu consultório, na Rua Alferes José Caetano, juntamente com o meu colega Francisco Braga, alugamos uma casa e instalamos lá, no número 902. Depois mudei para a Rua Moraes Barros, 1.127, onde fiquei até junho de 1978. De julho de 1978 até encerrar a minha atividade, trabalhei na Rua Bom Jesus, 811, já era imóvel de minha propriedade. Encerrei a minha atividade relativamente cedo, embora gostasse muito de trabalhar na profissão. Minha esposa teve um AVC hemorrágico muito forte em julho de 1998, precisando da minha ajuda para tudo. Ela ficou dependente de mim por quase 10 anos, vindo a falecer em 15 de março de 2008.

Vocês tiveram filhos?

Tivemos duas filhas: Aline e Claudia: Aline que tem um filho chamado Nicolas. Outra é a Cláudia, que tem uma filha chamada Amanda e um filho chamado Igor. A Amanda está fazendo medicina em Jundiaí e o Igor, seu irmão, está fazendo curso de Informática na UNICAMP. O Nicolas, está fazendo cursinho para entrar em escola superior. 

 

Qual era o nome da sua esposa?

Maria Ignês de Mattos Romano, ela foi funcionária da Câmara Municipal, onde a conheci, em 1963. Quando eu era estudante, frequentava a Câmara para assistir as sessões anteriores ao meu ingresso, eleito como vereador. Quando entrei lá já conhecia um pouco do funcionamento. Eu gostava de ver os debates, naquele tempo só havia microfone local, a transmissão por rádio começou através da Rádio Difusora PRD-6. Hoje a Câmara tem muitos recursos na área de comunicação. Na época, a Câmara inteira tinha 4 funcionários! Eram: Lino Vitti, Rubens Vitti, José Gomes que fazia serviço de rua e a Maria Ignês, minha futura esposa. Nesse tempo acho que o Guilherme Vitti estava trabalhando no gabinete do prefeito. Hoje são quatro ou cinco funcionários para cada vereador. O Guilherme Vitti acredito que foi para a Câmara dos Vereadores depois da construção do prédio novo. Ele então foi para a Seção de Arquivo Histórico. Hoje há um departamento com diversos funcionários. Aliás, eles publicam na imprensa local, diversos fatos da Câmara de tempos atrás. Eu tenho lido o trabalho deles.

Você conheceu Terenzio Galesi?

Pessoalmente não o conheci. Só a fama. Foi um dos primeiros banqueiros de Piracicaba, milionário, construiu o prédio que existe até hoje na Rua Prudente de Moraes, com um segundo andar, usando material importado da Inglaterra. 

                

                                                     




                                                   


O Mario Stolf, que era vereador também, era uma pessoa muito boa.  Excelente, se alguém falar que ele ganhou dinheiro na política, eu falo que ele perdeu.  

Todos perderam!

Todo mundo que trabalhou de graça, perdeu.

Ele teve em Piracicaba a Agência Citroen, na esquina da Rua Moraes Barros com a atual Avenida Armando de Sales Oliveira, na época não existia essa avenida, o córrego do Ribeirão Itapeva era a céu aberto, hoje corre sob a avenida. Um dia o Mário me disse: “Terenzio Galesi era muito audacioso, até mesmo esnobe, ele, às vezes, fumava cigarro de palha, só que no lugar da palha ele pegava a cédula de dinheiro de valor mais alto que circulava, e fumava!” Uma demonstração no mínimo exótica.

Infelizmente o Terenzio perdeu muito dinheiro em suas atividades comerciais e bancárias. Na parte inferior do prédio, que existe parcialmente até hoje, havia trilhos para um vagonete transportar mercadorias. Sua propriedade ia da Rua Prudente de Moraes até a Rua São José. Mais tarde, no térreo, funcionou o jornal “O Diário”, de propriedade de Sebastião Ferraz, depois adquirido pelo jornalista Cecílio Elias Netto, tendo entre seus colaboradores , Galdino e  Rolim.

Quando você montou o consultório, era muito comum, naquela época, a extração total dos dentes?

No meu tempo, o conceito já estava mudando! Aqueles que se formaram na Faculdade de Odontologia antiga que existiu em Piracicaba de 1914 a 1932, era transmitido o conceito de destruir. O paciente chegava com uma porção de problemas nos dentes, isso em 6,7,8 dentes! O conceito era “-Vamos limpar tudo!”. O conceito de dentadura, popularmente denominada também de chapa, quando me formei já estava mudando. Tinha material mais avançado, já estava mudando a conscientização da população, foi um processo lento para mudar, a geração que nasce com um conceito dificilmente muda. Não sei mexer direito com computador, não sei mexer direito com celular, porque não tenho estímulo para isso.

Quando passamos pela Câmara, aprovamos uma lei para fluoretação das águas de Piracicaba, foi uma das primeiras cidades do Estado de São Paulo a fluoretar as águas. Só não fluoretou logo após a lei, por volta de 1964, quando era prefeito o Luciano Guidotti . Ele escutava alguns outros assessores, que achavam que iam colocar o produto na água para depois lavar calçada, lavar carro; Aí veio o Nélio Ferraz de Arruda, que como prefeito ia colocar, depois não colocou, mais tarde veio o Salgot, que não deu nem tempo de esquentar a cadeira, foi cassado. A seguir veio o Cassio Paschoal Padovani, uma porção de colegas nossos, entre eles, Antonio Oswaldo Storel, Antonio Durval DortaMilton Nascimento, Edson Furlan. Eles faziam parte da nossa associação. Quando o Cássio entrou, logo na primeira vez, ele entendeu perfeitamente. O Cássio tinha uma forma de pensar muito lógica. Ele chamou o Paulo Geraldo Serra que era o diretor do SEMAE. O SEMAE foi fundado nessa pequena gestão do Salgot, em 1969. Dizem que o Cássio disse ao Serra e a mais alguém, eu não estava lá no momento: “- “Quanto tempo vocês levam para pôr isso em prática?”. O Serra respondeu: “- Uns três meses!”. O Cássio determinou: “- Três meses é muito, vocês vão colocar em 20 dias!”. Essa fluoretação de águas é o melhor método para águas de abastecimento público, é o melhor método para se aproveitar a ação do flúor na prevenção do dente, para proteger o esmalte do dente. Por isso que hoje aqui em Piracicaba, não sei em outras cidades, nunca trabalhei fora de Piracicaba, dificilmente se encontra uma criança com dente cariado. Outros fatores concorreram, a educação da saúde, hoje as mães na época da gestação, recebem orientação, inclusive da importância da higiene bucal, sobre o valor dos dentes, quando as crianças nascem as mães cuidam melhor. No tempo em que eu era menino, ainda estudante, abusava-se de balas, de açúcar, abusava-se de qualquer coisa que provocava cárie nos dentes.

Na verdade, os recursos materiais naquela época eram limitados.

Eu quando era menino, meus pais eram pobres, levava pão com açúcar na escola. Não tinha orientação. Hoje está muito melhor. Dá gosto de ver!   

Você conheceu a clínica do Marcelino Serrano?

Conheci! Era uma clínica popular. Ele trabalhava naquele estilo bem antigo, tinha muita gente que ia lá. Ele almoçava lá, jantava lá, ia para casa às 10 horas da noite. Ele trabalhava muito, punha como empregados dele uns dois ou três, depois dele vieram outros, entre eles, Vasco Altafin.

O Dimas de Almeida era dentista prático?

Não. O Dimas era formado em Alfenas. No tempo em que não tinha faculdade aqui, alguns alunos foram estudar em Alfenas: Jonas Vaz de Arruda, Rene Gerdes, Dimas de Almeida, Alberto Nobre Ferraz. E de Campinas, antes de instalar a nossa faculdade aqui, foram contemporâneos nossos, alunos e professores vindos da PUC, entre eles,  Krunislave Nóbilo, o pai dele  era iugoslavo, José Rensi, Said Dumit. Da Escola de Ribeirão Preto, que naquele tempo era particular, depois a USP assumiu, vieram Aparecido Nascimento, Lourenço Bozzo, Walter Daruge, irmão do Eduardo Daruge, este último foi meu professor, Angélica que era casada com o Walter, Neimar dos Santos que não ficou na faculdade, Roberto Domingos dos Santos, esses vieram de Ribeirão Preto. O Professor Eduardo Daruge me ensinou Odontologia Legal, depois mudou para Deontologia. Ele se especializou em pesquisa com cadáver, identificação humana. Ele tem trabalho sobre os que eram inconfidentes mineiros, o Eduardo, filho dele, ajudou nisso aí. A Clotildes Fernandes é minha colega de turma, eu a conheci desde criança, quando eles vieram de São Pedro. Eles moravam na Avenida Saldanha Marinho, tinha ela, a irmã dela, a Natália, o irmão, Jorge, já falecido, eu morava na Rua do Rosário, 122, eu vim de Rio das Pedras, morei nessa casa até novembro de 1953.

Você sente saúde do tempo em que morou em Rio das Pedras?

Tenho ido pouco para lá. Agora está bem diferente. Geralmente eu vinha de trem de Rio das Pedras para Piracicaba. O trem parava no Pinheirinho, parava no Chicó.

Você chegou a conhecer o Rancho Alegre?

Conheci! Era um rancho aberto, na época não existia a Avenida 31 de Março. Íamos pela hoje Avenida Bairro Verde, na época não era avenida e o chão era de terra.  

Você conheceu o dentista Antonio Abe?

Ele formou-se um ano antes de mim. Tinha consultório na Rua XV de Novembro, 444, no Edifício Domus. Quando jogava futebol era determinado, geralmente jogava como lateral direito.

No IHGP – Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, você ocupou todos os cargos, menos o de presidente.

Quando fui admitido, o presidente era Haldumont Nobre Ferraz, o Tiquinho, ele foi presidente por duas gestões, na segunda gestão dele eu entrei na diretoria dele, pelo estatuto ele não poderia mais ser reeleito, ficou o Paulo Celso Bassetti, depois do Bassetti voltou o Tiquinho mais uma vez, nessa ocasião fui Tesoureiro ou Segundo Tesoureiro, depois veio o Pedro Caldari, eu fiquei Secretário, fiquei fora em duas gestões, depois voltei ocupando alguns cargos. Atualmente sou Segundo Tesoureiro.

Qual é a sua visão sobre o Instituto Histórico?

Acho muito importante! Infelizmente, pelo Código Civil, tem que ser administrado de forma gratuita por todos os diretores. Está cada vez mais difícil encontrar quem participe como diretor ou associado. Posso afirmar que isso acontece na maioria das instituições de cunho Cultural ou filantrópico. Fiz parte do Rotary Club – Paulista de 1978 a1982. Naquele tempo, só participavam os homens, tinha cerca de 40 a 50 membros. Hoje podem participar os homens e as mulheres e têm de 20 a 25 membros, se conseguir. Hoje a gente vê, foi criado mais um Rotary, foi criado mais um Lions, eu não sou favorável a ficar repartindo em pequenos grupos. Isso porque não consegue unir um número suficiente para dar impacto. Não adianta ficar 6 ou 7 se reunindo. Você tem que ter uma equipe para trabalhar.

Quero deixar bem claro que sou favorável ao Rotary e ao Lions Clube. Sou favorável a todas as entidades com fins filantrópicos, culturais como é o IHGP, como é a Academia de Letras, só está cada dia mais difícil, e os jovens não têm muito entusiasmo por isso!

O que acontece com os jovens de hoje?

Leitura de livros mesmo, não gostam! Gostam de ler no computador, no celular, e vão ler aquilo que é obrigatório para fazer provas e passar! Com raras exceções!

Acho muito importante o trabalho que vem sendo desenvolvido pela Marly, Ivana, Leda, Carmem e outras pessoas, junto a escolas, estimulando crianças a ler, livros infantis. Algum fruto vai dar!

Tenho a impressão de que no futuro as pessoas voltarão a valorizar a leitura convencional. Você pode fazer uma defesa de tese, dando alguns parâmetros e o computador irá, em pouco tempo, oferecer uma maravilhosa tese. Quem for analisar pode usar um programa para identificar como foi feita essa tese. Irá constatar que ocorreu a ajuda de um computador. Foi então criado um programa para despistar que essa tese é de um meio eletrônico! É uma disputa de gato e rato!  

 

O que você acha do conceito de que através da inteligência artificial iremos progredir 1.000 anos em 100 anos, ou seja um século a cada 10 anos?

 

Atualmente, nós humanos, já estamos escravizados pela tecnologia! Agora quando vamos ao supermercado a máquina registradora marca tudo: preço, desconto, etc... Quando eu era menino, marcava-se em uma caderneta, o proprietário, ou balconista, tinha sempre um lápis preso entre a orelha e a cabeça. Isso tudo escrito com lápis. Levávamos a caderneta para casa e ninguém punha a mão! No dia certo, somavam-se todas as contas para pagar. O faturamento era manual. Na base da confiança mútua. Quantas vezes eu fui comprar com caderneta! Existia uma honestidade muito grande. Hoje nós temos praticamente tudo embalado. Ou é lata, ou é plástico. Naquele tempo, pegava-se com o pegador, arroz, feijão, milho, tudo a granel!

Você tem algum hobby?

Meu hobby é ler. Livros, revistas, leio muito jornal, tenho muitos livros, em casa tenho duas estantes grandes de livros. Principalmente livros de História. De Piracicaba, tenho algumas coisas raras. Tivemos uma revista chamada Mirante, que funcionou de 1957 até 1962, tenho 54 volumes encadernados. Na época eu era estudante. Todo livro da História de Piracicaba que eu encontro eu compro. Essa revista tinha muita coisa, era dirigida pelo Arlindo Romani, Roberto Wagner (Hoje é nome de avenida que margeia o Rio Piracicaba), no começo estava o Joaquim do Marco, Edson Rontani. Depois foi extinta. Voltou a ser editada, mas não na mesma categoria. Em 1980 saíram umas 10 edições. A outra era melhor em termos de apresentação, conteúdo. Tenho muitos almanaques de Piracicaba, aqueles almanaques, só o de 1914 eu tenho xerocado. O almanaque de 1900, um amigo meu, deu para mim, logo depois ele faleceu. Era original, encadernado. Algum tempo depois, alguém da família me procurou, perguntando sobre o almanaque que o falecido tinha emprestado para mim. Como não tinha como provar que ele tinha feito uma doação para mim, devolvi, para não passar por proprietário de coisa alheia. Consegui tirar cópia de alguma coisa. Se eu encontrar um hoje, em condições de xerocar eu faço a cópia. Depois apareceram diversos almanaques pequenos, eu os comprava. Tenho almanaque de 1956, está encadernado também, foi editado pelo Krähenbühl, está encadernado também. Esses outros que vieram depois 1965, 70 e 80, eu tenho todos, espero que sejam todos. São muitos. Eu gosto de História.

Quando você era jovem, frequentava cinema?

Nunca fui fanático. Alguns filmes melhores eu ia assistir.

Naquele tempo tínhamos vários cinemas: Politeama,  Broadway, Palácio, Colonial, São José, depois apareceu o Paulistinha. No Paulistinha, acho que entrei uma vez só.

Os filmes passavam primeiro no centro, depois ia para lá. O ingresso custava metade do que era cobrado no centro. Em frente ao cinema havia uma intensa troca de gibis antes do horário do filme.

Era uma época mais ingênua! Mais sincera.

Quando eu morava na Rua Governador, com os amigos, fui diversas vezes no Bar e Sorveteria Paris, ficava onde hoje é o Banco Safra. Os donos eram japoneses ou descendentes, lá conheci um deles: Tuneharo Anraku ,ele foi mais amigo meu. Tinha mais alguns que não me lembro o nome, tinha o Milton, ele era mais novo do que eu. Milton era uma parada! Sossegado! Para conversar com ele precisava diminuir muito o seu ritmo. Um dia, eu já devia estar com os meus 40 anos, trabalhava lá no Bom Jesus, passei na Rua Santa Cruz, ele tinha aberto um bar, para servir lanches, bebidas. Parei lá para comprar um sanduiche de carne. Perguntei: “-Milton, que carne você usa para fazer esse sanduiche?”. Ele em seu ritmo muito calmo, disse-me meio sossegadamente: “É coooontraaaa”, ou seja, era contrafilé.         

Ele formou-se em engenharia, mas acho que nunca trabalhou na área. Piracicaba, com a queda do Comurba, criou um receio da população em morar em edifícios. Nessa época, a empresa do Comendador Antonio Romano e companhia, estava construindo o Edifício Pedro Ometto, ao passar por lá procure ver a espessura dos pilares que existem lá, eles iam começar a construir quando caiu o Comurba, puseram excesso de concreto naquilo! Já faz 30 anos que eu moro em apartamento. Quando eu era jovem, era favorável a construção de prédios. Hoje sou contra. O que vem ocorrendo ultimamente é o correto: condomínio horizontal. Edifício com 18,20,30 andares são sujeitos a problema de trânsito, esgoto, abastecimento de água, problemas elétricos às vezes, elevador que não funciona, estou lá, então permaneço, mas se fosse para entrar hoje eu não iria. Eu achava bonito os edifícios altos. Assim como quando era menino achava bonitas as chaminés das indústrias soltando aquele rolo de fumaça!

João Chiarini você conheceu também?

João Chiarini tinha a Livraria Pilão, comprei muito livro dele lá. Ele foi eleito vereador  entre 1951 e 1955.

Você andou de bonde?

Andei bastante!

Saltava do bonde com ele em movimento?

Saltei umas duas ou três vezes, com cuidado para não encontrar um poste na frente!

O bonde que ia para a Escola de Agronomia, ESALQ ,saía do ponto inicial, o abrigo atrás da Catedral, esse abrigo existe até hoje, ia pela Rua XV de Novembro até a Rua José Pinto de Almeida, virava para a esquerda seguia até Rua Marechal Deodoro, subia duas quadras, virava na Rua São João e chegava até dentro da Agronomia, na esquina do restaurante. Lá virava os encostos dos bancos, e estava pronto para voltar.

O bonde que ia para a Vila Resende passava na Rua do Rosário, em frente onde eu morava. Ia até o ponto final, na Vila Rezende, pela Avenida Rui Barbosa. Ele saía do lado da Catedral, virava na Rua Moraes Barros, virava na Rua Alferes José Caetano, ia até a Rua Prudente de Moraes, vira ali, seguia pela Rua do Rosário, em frente a atual ACIPI tinha um desvio, era onde o bonde que vinha no sentido contrário passava, mais adiante, na Rua Campos Salles havia outro desvio.

Próximo à ponte Irmão Rebouças tinha um moinho de fubá?






        

Tinha! Era o Moinho de Fubá do Luiz Carlos Pitta, ficava próximo ao atual Hotel Beira Rio.

Ali, onde era a Praça Barão de Serra Negra, que era uma praça linda, maravilhosa, foi construído o Hotel. Na minha opinião, uma das coisas que o Guidotti fez errado. Eu conheci aquela praça. São raras as fotografias daquela praça. Era linda! Tinha as ruas em diagonal, no meio tinha um coreto, tinha um arvoredo maravilhoso. Foi o Barão de Serra Negra que construiu aquela praça. Vejo hoje o mundo materializado demais. Às vezes eu falo brincando que o mundo perdeu a alma.





Foto tirada em 28 de maio de 1967, ocasião em que se casavam Waldemar Romano (cirurgião-dentista e vereador) e Maria Ignês de Mattos Romano (funcionária da Câmara Municipal). Os convidados foram recepcionados na casa da família, situada no centro de Piracicaba. Na foto, a família Romano: Maria Azzini (ao centro) e os filhos Américo, Elza, Henrique, Pedro (Bene), Antonio, Elisa e Hélio. Atualmente, Hélio reside no bairro Cidade Alta. Henrique em Artemis. Os demais são falecidos.
A família, sob coordenação e liderança de Antonio Romano (comendador pela Santa Sé), foi proprietária da Retífica Romano S/A, instalada à rua São José, 1122, encerrando suas atividades em 1980. Pedro Romano foi proprietário da Funilaria Bene, situada à rua Bom Jesus, 735, ainda em atividade e sendo seus proprietários aqueles que, até 1997, foram seus empregados. Elza Romano, formada pelo Instituto Educacional Sud Menucci, foi professora primária em Penápolis, Pirambóis, Distrito de Tupi (Piracicaba) e aposentou-se no Grupo Escolar Barão do Rio Branco. (Fonte: Edson Rontani Jr.)




Waldemar, a sua mãe, conforme você disse, “fez junto com você!” o Tiro de Guerra, isso porque todos os cuidados para com a sua apresentação impecável tinham muito da participação dela!

De fato! E a minha mãe hoje, com 100 anos de idade, completados no dia 25 de abril de 2024, assiste televisão, enxerga bem, escuta bem.

Onde o meu tio Comendador Antonio Romano, construiu quarenta sobrados, tem várias travessas, uma delas é em homenagem ao meu avô Caetano Romano. Isso na época em que construiu, uma das travessas recebeu o nome do meu avô Caetano Romano, por iniciativa do vereador Jorge Moysés, o Gito, que exerceu mandato de 1960 a 1963. Meu avô era muito pobre, trabalhou com diversas coisas. No fim, ele faleceu com pouca idade, ele era sapateiro. 
Ele era imigrante? 
É aí que entra o detalhe, todos os meus bisavós eram italianos! Do lado da minha mãe é Augustti, tinha Foltran, Bortoletto, do lado do meu pai minha avó que era Azzini, em São Pedro tem uma família Azzini, talvez seja parente, os meus bisavós possivelmente passaram pela Casa do Imigrante, hoje Museu do Imigrante. Fui até lá, mas na época estava fechado para reforma. 
Eles vieram de qual região da Itália?
Vieram do Norte da Itália, minha bisavó falava do Vale do Pó, que é no Norte. Uma das maiores planícies da Itália, situa-se entre os Alpes e Apeninos. É percorrida pelo Rio Pó. 
A minha bisavó chamava-se Alexandrina Romani, meu avô foi registrado como Romano, disse: “Agora todos os meus filhos terão o sobrenome Romano. Os Romaní que moram em Santa Bárbara D`Oeste são todos meus primos! Américo Emílio Romani, que foi prefeito em Santa Barbara D`Oeste é nosso primo em segundo grau. 
Como a sua família escolheu a localidade para morar inicialmente?
Quando os meus bisavós vieram para cá, foram trabalhar nas terras dos Moraes Barros, naquele tempo prevalecia o cultivo do café. Eles mudaram-se para Recreio, de lá foram para Mombuca, em seguida vieram para Piracicaba. Minha mãe nasceu no Campestre. Augustti, Foltran, que são da família da minha mãe, quando vieram para cá, acho que foram direto para o Campestre pelo jeito, tinham a plantação de café, mas também o que usavam em casa: milho, batata, galinhas, porcos. A casa em que a minha mãe nasceu, não sei se demoliram, a cerca de 10 anos eu fotografei aquela casa. O Campestre na época era bem rústico, estrada de terra, uma irmã do meu avô era conserveiro daquela estrada! Trabalhava com enxada! Com enxada puxando pedra para cobrir os buracos, vinha a chuva e tinha que fazer tudo de novo. Meu pai nasceu em 1918, ele contou uma vez para mim, que os italianos quando chegaram no Brasil, sofreram muito, quando ele me falou, já fazia uns 30 anos que estavam no Brasil, e segundo ele, essa fase difícil ele não vivenciou com a mesma rigidez. Ele disse-me: “-Comer pão com sardinha, sabe como é que era? Dependurava a sardinha em um arame ou em um barbante, batia o pão na sardinha, outro batia o seu pedaço de pão no sentido contrário e a sardinha balançava de um lado para outro! Você comia pão com gosto de sardinha!”. Hoje em Santos você compra sardinha por R$ 10,00 o quilo! 
 
As coisas mudaram muito, em escala mundial. O que observamos em fotografias antigas, e mesmo há uns 50 anos atrás, era a ausência de obesos. Piracicaba teve um obeso de 120 quilos que era muito famoso, pelo seu peso, a ponto de fazer propaganda. Gordura era sinal de saúde! 
 
Waldemar, qual era o material utilizado para a obturação de um dente?
 
Tínhamos dois tipos de materiais que eram predominantes: para os dentes posteriores aquele escuro, é o melhor material que existia. Antes de eu me formar, usava-se muito ouro, ouro batido. Quando me formei aparecia um ou outro que dizia: “Quero por um dente de ouro!”. Eu aconselhava a pessoa não colocar dente de ouro. Usei ouro em alguns casos, mas usava amalgama de prata, é um excelente material, só que depois começou o conceito de que o mercúrio prejudicava a saúde da pessoa. Acho que não prejudicava, desde que você trabalhasse com ele corretamente, você espremia tudo que sobrava de mercúrio. Espremer em uma camurça. Se não estremece o excesso de mercúrio aquele trabalho iria cair a qualquer hora, se tivesse excesso de mercúrio, talvez sim, prejudicasse a saúde. Aquele que foi espremido o mercúrio fazia parte do amálgama. Não ia sobrar na boca! Depois veio o conceito de que por estética nos dentes de trás, começou a ser usada resina especial nos dentes posteriores. Nos dentes da frente, quando me formei não tinha essas resinas, usava-se material pior. Gastava-se mais na escovação. Chamava-se silicato. Usava uma matriz de celuloide, prendia no lugar, que segurasse bem o celuloide, ele ficava perfeito. Só que ele gastava mais depressa. Às vezes manchava. Naquele tempo fumavam muito. Era charme. Não era proibido fumar dentro de casa, os ônibus que iam para São Paulo tinham até cinzeiros nos braços das poltronas.
 
Havia pessoas com toda a boca cheia de dentes de ouro?
 
Há 100 anos atrás existia! Hoje quando percebem que alguém foi enterrado e tem ouro nos dentes, roubam. O ouro como material é excelente, mas não se usa mais.  Essa resina que se usa para o dente posterior hoje está mais aperfeiçoada.  Há 20 anos, a resina não tinha a qualidade do amalgama. Hoje melhorou bem. Infelizmente o preço é muito elevado. 
 
Já tinha protético como profissão na época?
 
Tinha, inclusive tinha protético que fazia dentaduras tratando diretamente com o paciente. 
 
Dentadura é um procedimento difícil de ajustar na boca do paciente?
 
Conforme a boca! Tinha boca que era difícil, outras eram mais fáceis. 
Você atendeu algum paciente que tenha engolido a dentadura?
Tive um caso de uma paciente, ela era de Tupi, existe a ponte móvel, é um serviço antigo, hoje está sendo substituída pelo implante. Se for fazer uma ponte de um dente ou dois dentes, é melhor fazer implante. É mais caro, mas é melhor. Ela tinha uma ponte móvel parcial, que outro profissional tinha feito, ela apareceu com a ponte em meu consultório, e eu disse a ela que aquela ponte não era muito conveniente fazer. Melhor fazer outro tipo de trabalho. Você pode engolir isso aí. E não é que ela engoliu mesmo! Um sábado à tarde ela chegou na porta da minha casa e disse-me: “–Engoli a ponte!”. Eu disse-lhe, que a ponte estava em uma área que não é a minha. Estava no estomago! Disse-lhe para comer bastante coisa seca, comer paçoca, comer isso ou aquilo, depois você tem que ir ao hospital e ver onde está essa ponte. Tirar uma radiografia. Ela foi, tirou a radiografia, estava no estomago. 
Teve que fazer uma cirurgia?
 
Ela acabou eliminando pelas vias naturais. A ponte tem umas garras, parece um caranguejo, pode rasgar. O médico falou a mesma coisa para ela, procurar fazer uma comida bem seca, para poder rodear a ponte e proteger o intestino. 
A ocorrência de mau hálito, pode ter várias origens?
 
Pode ocorrer por diversos motivos: excesso de dente estragado, existem medicamentos que secam a boca e produzem mau hálito, quando seca a boca pode também cair a dentadura, a aderência dela é pela umidade. Os medicamentos destinados ao tratamento psiquiátrico, geralmente secam a boca. Outro fator que causa mau hálito é ficar muito tempo sem se alimentar. De madrugada por exemplo, é comum ter um pouco de mau hálito por ter ficado muito tempo sem comer nada. 
Há pessoas que expelem gotículas de saliva quando falam, qual é o motivo?
Acho que é o método de abrir a boca, usar a língua, dá para corrigir, ensinar a pessoa a falar diferente, mais baixo. A pessoa que tem a língua presa também pode ser que tenha esse problema.
Deve procurar um profissional da área?
 
A pessoa terá que se educar. 
Ao cirurgião-dentista é facultada a prática de intervenções faciais?
 
Existem certas intervenções que são facultadas, o cirurgião buco-maxilo-facial é um especialista que poderá fazer intervenções cirúrgicas em ambiente controlado, geralmente um hospital, onde terá o suporte de outros profissionais da saúde. 
Waldemar Romano dedicou-se muito a APCD- Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas. como membro muito ativo, sendo que declinou de ocupar cargos nessa gestão, visto que desde 1965 ocupou os mais diversos cargos. Foi presidente por um mandato, declinou aceitar ser presidente outras vezes. Nem por isso deixou de trabalhar com empenho pela entidade. Em São Paulo frequentei muito, implantei Conselhos Regionais de São Paulo, abrangendo todos os Conselhos do Interior e da Capital. Na época eram 50 a 60 regionais, agora são cerca de 80 regionais, inclusive da Capital.
Quem regulamenta o exercício da profissão?
 
É o CRO – Conselho Regional de Odontologia, onde por duas gestões fui Conselheiro. Existe ainda o CFO- Conselho Federal de Odontologia. No Sindicato dos Odontologistas de São Paulo também fiquei Diretor um tempo. Agora temos Sindicato em Piracicaba também. E tem uma Delegacia Regional dentro da APCD. 
Hoje temos uma área de 6.000 metros quadrados com 2.000 metros quadrados de construção.  
O Museu Odontológico de Piracicaba ao completar 25 anos comemorou com o lançamento do livro: “Museu Odontológico – 25 anos”, de autoria dos cirurgiões-dentistas Drs. Reinaldo José Ferraz Salvego e Waldemar Romano.
Você criou o Museu de Odontologia de Piracicaba?
 
Na verdade, quem criou o Museu foi a falecida Dra. Grace Harriet Clark Alvarez, ela construiu o Museu em 1980, ficou até 1988 quando ela faleceu. Daí eu fiquei Diretor por uns tempos, depois ficou Erasto da Fonseca, Ciro Delábio Silveira, ultimamente era o Reinaldo José Salvego, ele faleceu. A UNICAMP assumiu o Museu da FOP. 
Quantos dentistas existem em Piracicaba?
Se considerarmos todos, passam de 1.000. Na ativa, trabalhando, acredito que há cerca de 300.  
 
300. O serviço diminuiu muito, o que aumentou foi o implante e a estética.  






        


 



   O associado benemérito dr. Legardeth Consolmagno foi homenageado pela Câmara de Vereadores de Rio das Pedras, cidade de onde ele é natural. O IHGP foi representado por João Umberto Nassif, membro do Conselho Fiscal da entidade.


Consolmagno completou 100 anos de vida em janeiro passado e recebeu moção de aplausos por sua dedicação à medicina, profissão a qual ele exerceu durante toda sua vida, atuando na especialidade oftalmológica.


Na ocasião, o IHGP recebeu a reprodução da árvore genealógica da família Consolmagno, que já está sendo catalogada no acervo da entidade.

quinta-feira, maio 09, 2024

 

WALTER JOSÉ RODRIGUES

 

                         Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg, mais conhecido como  Johannes Gutenberg, desenvolveu um sistema mecânico de tipos móveis que deu início à Revolução da Imprensa, por volta de 1.440, e que é amplamente considerado o invento mais importante do milênio. Através da imprensa a Humanidade mudou hábitos e costumes. Mudanças de regimes políticos.  Os livros foram de suma importância para o desenvolvimento do conhecimento humano. Vieram outras formas de comunicação, muito importantes. Atualmente, vivemos um período que ainda não conhecemos seu alcance pleno.  Fala-se muito em Inteligência Artificial. As conquistas realizadas até o momento, possivelmente tomem rumos aprimorados, mas ao que parece deve permanecer, com outra roupagem.

Enquanto assistimos e participamos voluntariamente ou não, dessas mudanças, nos deleitamos com livros de papel, jornais que além das notícias aprimoradas, trazem artigos que analisam mais a fundo, aspectos importantes da vida humana. Como entrevistador, tomei a liberdade de chamar de “Teoria da Prateleira”, onde o jornal tradicional, o rádio, a televisão, a informática em suas diversas e múltiplas funcionalidades, cada um ocupa um nicho. Seu espaço. O jornal, o rádio, as televisões utilizam a informática. A questão básica está no cérebro dos que produzem conteúdo e alimentam essas fontes de informação.

O convidado de hoje é um veterano, daqueles que começaram montando letra por letra para formar uma palavra, e o detalhe é que tinha que ser montado de forma invertida, para na hora da impressão sair de forma correta!

Walter José Rodrigues nasceu em Piracicaba, em 20 de agosto de 1965. Vive em Rio das Pedras a maior parte da sua vida. Seus pais são Valdomiro Rodrigues e Yolanda Fabian Rodrigues, que tiveram mais duas filhas. Suas irmãs são Maria e Rosângela. A Rosângela iniciou com ele trabalhando no mesmo ramo de atividade. Com o passar do tempo ,ela passou a exercer outra profissão.

Você estudou em qual escola?

Estudei na Escola Estadual "Professora Jaçanã Altair Pereira Guerrini", em Piracicaba. Inclusive o Sr. João Chiarini foi meu professor.

Como era o João Chiarini como professor?

Era incrível! O homem sabia de tudo! Era historiador e advogado. Lá estudei do curso primário até a 5ª. Série. Naquela época, era relativamente comum os filhos deixarem a escola nessa fase, para ajudarem no sustento familiar. A princípio aprendiam algum ofício, e tornavam-se trabalhadores experientes com o aprendizado prático no exercício da função.

Qual era a atividade profissional do seu pai?

Meu pai era construtor civil. Inclusive trabalhou na construção do COMURBA.

( Edifício Luiz de Queiroz, conhecido popularmente como COMURBA, foi um prédio que começou a ser construído em 1950 e, em 1964, estava em fase de acabamento, época em que desabou. Com 22 mil metros quadrados, ficava na Praça José Bonifácio, no centro da cidade.  A queda do edifício COMURBA é considerada a maior tragédia da história da cidade de Piracicaba e foi o primeiro grande acidente de engenharia civil no Brasil.  O edifício COMURBA estava localizado no centro da cidade de Piracicaba, onde atualmente funciona o Poupa Tempo. O prédio possuía uma arquitetura moderna e era visto como símbolo de desenvolvimento econômico pela cidade. A única parte que não desmoronou foi demolida no ano de 1974. O COMURBA foi um projeto ousado, um edifício com residência, escritórios, lojas comerciais e até mesmo um cinema muito luxuoso, o Cine Plaza. O motivo da sua queda parcial, até hoje não é conclusivo. Além das vidas ceifadas, a construção de edifícios por décadas ficou estagnada. O trauma foi muito grande junto à população.

O seu pai sobreviveu quando desabou praticamente a metade do prédio?

Meu estava trabalhando na parte que não desabou! Deve ter sido o maior susto da vida dele. A mesma sorte não teve o meu tio, que estava trabalhando na parte que desabou, e ele faleceu.

O seu pai é natural de Piracicaba?

Não. Meu pai nasceu na Espanha, veio de Málaga para o Brasil. A minha mãe era brasileira, descendente de italianos. O meu pai é vivo até hoje.

Como um legítimo espanhol, seu pai deve ser bastante enérgico?

Naquela época, o chefe da família era quem ditava as ordens. Por tradição, os espanhóis são pessoas que zelam pelas condutas de seus familiares.

Você aprendeu a falar espanhol com seu pai?

Não! Ele tem o domínio da língua portuguesa.

Quando tinha que chamar a atenção de alguém, era em espanhol?

Na hora de dar bronca, se estivesse muito bravo, era em espanhol! (Risos). Mas ele é um homem muito bom e justo.

Após a queda do COMURBA, o seu pai possivelmente ficou muito abalado?

Ficou. Só que era uma época em que a sobrevivência dependia do trabalho. Ele teve que se refazer e seguir em frente. Foi quando ele foi trabalhar com  o famoso arquiteto Walter Naime. O meu nome é Walter por inspiração do meu pai  no nome Walter Naime!

Com quantos anos de idade você começou a trabalhar?

Comecei a trabalhar com 10 anos de idade.

Nos dias atuais você com essa idade não poderia trabalhar!

Eu ia para a escola na parte da manhã e após o almoço, trabalhava em uma oficina de mecânica e funilaria de veículos.

Eu varria a oficina, lavava peças, era conhecida como Oficina do Castelo, situava-se na Rua Saldanha Marinho, quase no final da rua, próximo ao ribeirão Piracicamirim, afluente do Rio Piracicaba.

Vocês moravam em qual rua?

Morávamos na Rua Francisco França do Amaral, da onde eu morava até a oficina tinha a distância de uns sete quarteirões. A distância da minha casa até a escola era meia quadra. Eu nasci naquela casa. O quintal da nossa casa tinha o fundo próximo ao Ribeirão Piracicamirim. Ficava entre a ponte do Jardim Brasília e a ESALQ.

Ali dava para nadar sossegado?

Era uma água limpa! Tinha uma variedade de peixes.

Você chegou a pegar muito peixe no Ribeirão Piracicamirim?

 

Quando era moleque, por incrível que pareça, com um cabo de vassoura dávamos um golpe em bagre e o pegávamos. O bagre vinha no barranco do Piracicamirim, com o cabo de vassoura abatíamos os peixes! (Digo ao Walter que todo pescador tem uma boa história, rimos bastante!). Descia o ribeirão de bóia (Câmara de ar de pneu de veículos, utilizada para flutuar na água), era uma diversão saudável. Os jovens da época tinham um contato muito próximo com a natureza.

Trabalhando na oficina você passou a gostar de mecânica?

Ganhei conhecimento, tanto que até hoje eu mesmo dou manutenção no meu carro.

Na época o Fusca era o carro mais popular, mas também tinha concorrentes?

Foi a época do Fusquinha, Gordini, DKW, Opala, Maverick com motor V-8, canadense. Dodge Charger, Volkswagen SP2, VW Puma GTE. Foi uma época romântica, só quem viveu esse período sentiu o significado marcante desse período.

Você chegou a assistir as corridas de carros que existiam em Piracicaba?

Na Avenida Independência, logo depois da Igreja São Judas Tadeu, o pessoal fazia “racha”. Havia o  Simca Chambord, o Simca Esplanada e outros. Todos com escapamento aberto; na época a polícia era mais tolerante. Aquelas disputas eram vistas como aceitáveis, até certo ponto. O DKW era um carro que corria bem, para a época. A porta do motorista e do passageiro ao lado abriam no sentido contrário ao das portas de outros carros. Era popularmente chamada de “porta suicida”.

 

 Quanto tempo você trabalhou na oficina?

Foram uns quatro anos. Daí, parti para o ramo da gráfica.

E como você deu essa mudança de atividade?

Eu via panfletos, analisava, e cada vez mais minha curiosidade em saber como eram feitos, foi aumentando. Com isso, fui trabalhar na Gráfica Bandeirantes, situada na Rua 10 de Novembro, no Bairro Alto, próxima a Igreja São Judas Tadeu. O proprietário era Salvio da Silva Penteado.

A gráfica fazia de tudo?

Fazíamos talões de notas fiscais, folhetos, cartões de visitas, impressos em geral. Foi ali que comecei a gostar do ofício. Comecei como tipógrafo, pegava letra por letra e íamos escrevendo de ponta-cabeça, ou seja, as letras eram montadas de tal forma que ao serem impressas sairiam como normalmente lemos. O texto era montado como se fosse colocado um espelho na frente.

Tem que ter muita habilidade para fazer isso?

Tem sim. Não podia cometer nenhuma falha. O cuidado era redobrado quando se tratava de talões de notas fiscais. Não podia ter nenhuma falha. Era um trabalho longo. Não trabalhávamos à noite.

Para fazer a montagem de uma nota fiscal gastava um dia. A tipografia não tinha a opção de fazer as ilustrações artísticas que hoje muitas vezes estão disponíveis a um toque de computador.

No período eleitoral aumentava o serviço?

Em época de eleições trabalhávamos bastante. Era o período de “safra” das tipografias!

Teve algum acontecimento que você jamais tivesse imaginado? 

Eu nunca imaginei que um dia seria um tipógrafo! Quando iniciei, foi necessário colocar um banquinho para que eu subisse e alcançasse o material que necessitava. Eu tinha 14 anos de idade. Eu era um menino franzino.

Quanto tempo você ficou na gráfica?

Foi por aproximadamente 1 ano. Recebi uma proposta para trabalhar na Gráfica Riopedrense, ganhando 5 vezes mais do que eu ganhava lá. Na época, tipógrafo era contado a dedo! Quem tinha um tipógrafo, procurava segurar, quem não tinha, ofertava valores significativos. Era uma função valorizada e o profissional tinha que ser muito habilidoso. Poucos tinham a paciência, atenção, e até mesmo vocação para esse tipo de trabalho.

As máquinas de impressão exigiam muita atenção também?

Na época eram máquinas manuais. A Minerva, era a mais conhecida. Ela abre, o operador coloca o papel, ela fecha, imprime e abre para o operador puxar o papel impresso. Era tudo manual, não era automatizado como é hoje. Ela só tinha um motor para poder abrir e fechar no processo de impressão.

Era um equipamento perigoso?

Era. Naquela época, nem imaginava o risco que existia. Se na hora em que a prensa for acionada pegar a mão ou o braço, possivelmente o dano seria irreversível.

A seu ver, com a autoridade de quem começou a trabalhar muito cedo, o trabalho do menor, em atividades que não ofereçam riscos é importante para a formação do seu caráter?

Sem dúvida! Estudar e trabalhar simultaneamente só fortalece o indivíduo. Infelizmente, o sistema educacional público está em um nível muito ruim. O aluno, com as exceções de regra, não tem a formação necessária. E não tem idade para poder trabalhar. Passa a ter uma vida ociosa, nos anos mais importantes da sua formação. Isso pode comprometer o seu futuro.

Nessa época, você trabalhava, ajudava nas despesas da família, e nos fins de semana qual era a sua diversão predileta?

Naquela época havia muitos parques. Era comum os jovens irem passear lá, e também havia o flerte, tempo em que tinha o correio elegante, o alto falante anunciava “ – O moço de camisa azul e calça branca oferece a próxima música para a moça de vestido azul claro, de cabelos pretos”. Assim como uma moça também oferecia uma música para algum rapaz que ela estivesse paquerando! Geralmente havia pequenos grupos de rapazes e moças, e essa brincadeiras acabavam virando uma torcida. Nossa diversão era simples, às vezes até mesmo ingênua, mas éramos felizes!

A Gráfica Riopedrense existe até hoje?

Existe! Quando vim trabalhar, ela era administrada por Antonio Generoso e Waldir Rizzato. Imprimiam notas fiscais, folhetos, que eram o carro chefe da maioria das gráficas. Fizemos revistas para o Clube Cristóvão Colombo e para a Agrotec. Fizemos livros também, mas a questão é que os livros tinham um custo muito alto.

Quantos anos você trabalhou nessa gráfica?

Em torno de 30 anos! Lá, com o tempo, eu passei a trabalhar com impressão offset. Ela teve também uma máquina de linotipo. Um profissional vinha de Capivari para operá-la. Ela tinha uma caldeira do lado, o linotipista ia digitando, fazia as barras de chumbo, de tempo em tempo ele tomava leite, saía ao ar livre, o vapor de chumbo saía da caldeira, eram necessários esses cuidados. Não trabalhei na digitação da linotipo, trabalhei na digitação quando mudou de fotografia para o fotolito. Eu digitava tudo na máquina, colava tudo na base, fotografava, era uma máquina grande, com um fole enorme, retocava para tirar coisinhas erradas, passava para o filme, para depois passar para a chapa e seguir o processo de impressão. Essa máquina não tinha caldeira, mas tinha os produtos utilizados para revelação, que também são tóxicos.  

Foi bem pioneiro?

Foi! Revolucionário! Porém durou pouco tempo. Logo passou para o sistema Ctp. Ctp é a sigla da expressão inglesa "Computer to Plate". É o processo direto de gravação da chapa de impressão a partir de um arquivo eletrônico, dispensando-se o uso de fotolitos. É feita a separação das cores. É tudo muito rápido.

Após 30 anos na gráfica Riopedrense , você saiu?

Na realidade, nesse período muita coisa mudou. A evolução técnica é inegável. Um processo de trabalho que exigia uma qualificação profissional muito elevada, com novos equipamentos foi simplificando o trabalho do profissional, a tecnologia, após implantada, já poderia ser operada por uma pessoa qualificada, mas sem as exigências necessárias pelos sistemas anteriores. Na busca de redução de custos, a minha qualificação tinha um custo elevado, segundo a empresa. Resumindo, a tecnologia substituindo a habilidade manual e intelectual do ser humano. Fui dispensado!

Você é casado?

Sou, minha esposa é a Leonice. Tenho quatro filhos, sendo que um deles faleceu recentemente em acidente com seu caminhão.

Após deixar a gráfica onde trabalhou em torno de três décadas, o que você fez?

Eu não podia ficar parado. Peguei um currículo e fui até a Tribuna Piracicabana, entreguei ao Sr. Evaldo, fiz um teste, e ele abriu as portas para que eu ingressasse na Família Tribuna. Eu considero uma família. Considero o Sr. Evaldo não um patrão apenas, mas sim um pai. Um dos seus filhos, o Evaldinho, trabalhamos juntos nas oficinas gráficas da Tribuna, considero como um irmão.

Em “A Tribuna Piracicabana” trabalha-se com muita ética profissional e amor pelo trabalho que se está fazendo, e isso gera o conceito elevado e a credibilidade angariados por ela.

Eu costumo falar que temos duas famílias, a que vive em nossa casa e a família Tribuna.

Seus filhos já estão crescidos?

O mais novo está com 16 anos. As outras duas filhas já formaram famílias. O que faleceu em acidente de caminhão tinha 24 anos. Era solteiro, vivia junto comigo aqui.

Há quanto tempo você está na Tribuna?

Estou há 15 anos.

Antes do advento da internet, os jornais se pautavam pelo serviço de rádio escuta, onde havia permanentemente pessoas que só faziam isso. O rádio era o primeiro veículo a informar. Na busca da última notícia, ou uma notícia importante, o chamado “furo de reportagem”, gerou-se o hábito de muitos jornalistas, aqui considerando-se o corpo técnico também, em “virar a noite” trabalhando. Com o avanço da tecnologia isso mudou?

Eu sou o primeiro a chegar na área de impressão. Sou eu que tenho que preparar o material. Quem define o horário é a necessidade de trabalho. Se o meu horário de trabalho normalmente inicia-se às 18 horas, mas a quantidade de trabalho é maior, eu entro às 17 horas.

Atualmente como funciona a impressão de um jornal?

O jornal é montado nos computadores da redação. É transmitido para os computadores do setor de impressão. O jornal vem para mim em PDF (Portable Document Format), é um arquivo que representa na tela do computador páginas de um documento eletrônico. Do PDF passo para o CTP (CTP significa "Computer-to-Plate", que é um processo utilizado na indústria gráfica para a produção de chapas de impressão diretamente a partir de arquivos digitais). A gravação na chapa é feita através de uma máquina a laser. O que é colorido faço a separação das cores, faço ali na máquina, ela entende o que eu pedi e separa uma cor para cada chapa, por exemplo uma cor para a chapa azul, uma do magenta(vermelho), amarelo e o preto. Na máquina de impressão a chapa azul vai onde tem a tinta azul, outra máquina tem a placa magenta, outra tem a cor amarela e outra a cor preta, com as tintas em suas respectivas cores.A cor sobre cor dá o colorido.O jornal passa uma vez em cada unidade de cor, para dar a cor final. Com a mesma matriz ou chapa, posso fazer 20 exemplares de jornal até por exemplo 40.000 exemplares, com a mesma matriz.

É um trabalho bem técnico e que exige um conhecimento razoável?

Sim, alguma falha minha e eu posso comprometer tudo.

Atualmente, quantos exemplares de jornal podem ser produzidos por hora?

Existem máquinas que fazem 20.000 exemplares por hora. Até mais! Depende da tecnologia da máquina. Só que a demanda de mercado não está correspondendo à necessidade de tiragens gigantescas.

A seu ver, o jornal deverá continuar existindo, porém voltado a artigos com qualidade, sem o tratamento superficial e vago como é tratado em alguns meios de comunicação?

Compartilho da mesma opinião. O jornal deverá permanecer, mas não será como era. Apenas ouvindo você não entende uma matéria como se estivesse lendo. Ao ler é como penetrar na matéria exposta. Apenas ouvindo, um pequeno vacilo faz com que perca o contexto.

Você lembra-se de um jornal chamado Notícias Populares?

Lembro-me! Era um jornal que diziam que se expremesse ,sairia sangue! As manchetes eram as notícias mais terríveis possíveis. Era um jornal que vivia da desgraça alheia. Até que acabou. Tudo tem o seu preço.

Qual é a primeira noticia que o leitor procura?

Tem aqueles que desejam ver como será o seu dia, e vão imediatamente para o horóscopo! Só que o dia da gente , somos nós mesmos que o fazemos! Tem outros que querem saber quem morreu! Esses procuram a seção de necrologia! Antigamente, os jornais traziam receitas culinárias, as mulheres gostavam, e geralmente faziam o que a receita indicava. Os pequenos anúncios perderam espaço para a internet, porém quando havia um anúncio de venda por exemplo, o risco de acontecer alguma coisa com quem queria comprar era bem menor. Hoje a pessoa vê um anúncio na internet, tem tal carro para vender, em tal lugar. Pode ser  uma cilada.

Você casou-se em Rio das Pedras?

Não, nós nos casamos em Piracicaba. Minha esposa morava em Rio das Pedras, onde nasceu. Moramos um tempo em Piracicaba e eu trabalhava em Rio das Pedras. Mudamos para Rio das Pedras e agora trabalho em Piracicaba. Eu me considero mais Riopedrense do que Piracicabano. Desde os 15 anos trabalhei aqui, estou com quase 60 anos, a minha relação com Rio das Pedras, entre trabalho e residência são de quase 45 anos. Sou um cidadão Riopedrense!

Mesmo trabalhando em Piracicaba, adotei Rio das Pedras como minha cidade.

Já disseram para você: “Mas você viaja todos os dias?”.

Já! Só que daqui à Piracicaba são de 10 a 15 minutos. O pessoal que mora em Piracicaba, muitas vezes demora mais tempo para  chegar ao trabalho do que eu!

Você tem algum hobby?

Eu gostava muito de jogar bola. Jogava de centro-avante. Só que depois a gente vai pegando uma certa idade, é aquele negócio, vamos poupar o corpo, o espírito é jovem, mas o corpo está na validade correspondente. Tem que aceitar. Envelhecer com alegria!Quem envelhece é o corpo, o espírito é sempre igual! O pessoal às vezes fala: “-Nossa que velho rabugento!”. Não! A pessoa já era assim! Ele só ficou mais, não tem como mudar o espírito de jovem para um espírito idoso! O espírito será sempre jovem, só que a gente tem os limites, o idoso não irá sair correndo até a esquina !

Tem idade para tudo e tem pessoas que não respeitam a idade.

Exatamente! Vive em busca do perigo.

Um jovem que queira trabalhar em gráfica ou em jornal , você aconselha?

Sim, aconselho a trabalhar, a pessoa irá aprender mais do que na própria escola! Através do jornal você conhece a literatura, conhece tudo! O português correto! Jornal não pode ter erro, principalmente ortográfico. O jornal tem que trabalhar com a verdade, não pode trabalhar com narrativas. Não pode criar uma notícia! Algo que não aconteceu. Tem que trabalhar com a realidade, aquilo que se tem certeza. Foi pesquisado, confirmado. O uso das palavras tem que ser cuidadosamente observado. Caso contrário, corre-se o risco de ser processado de forma devastadora por calúnia. Por citar coisas indevidas.

Você frequentava cinemas?

Eu gostava! Frequentei o Politeama, o Rivoli e o Cine Arte, que recebeu o nome do ator Sebastião Bernardes de Souza Prata, o Grande Otelo, e localizava-se na sala instalada no Teatro Municipal de Piracicaba Dr. Losso Netto. Eu gostava muito de assistir os filmes da Sala Grande Otelo. Era mais envolvido com teatro, cultura, tinha um nível muito elevado.

Você chegou a participar de alguma peça de teatro?

Eu e toda a minha família, participamos do teatro aqui de Rio das Pedras “Paixão de Cristo”. Este ano, não participamos, devido ao falecimento do meu filho. O meu filho que faleceu, também participava. O teatro era a vida dele! Ele que dava uma injeção de ânimo para nós participarmos.

Você interpreta qual personagem?

O de soldado romano, assim como os meus filhos. Meu neto e o meu genro também participam. A família inteira se dedica a interpretação da Paixão de Cristo no intuito de evangelizar as pessoas que estão assistindo.

Como você vê a vida?

Tive que primeiro me achar, saber as razões e propósitos da minha existência, para depois encontrar isso nas pessoas. O mal se paga com o bem, a gente nunca paga o mal com o mal. O mal não está em mim, o mal está na pessoa que o faz. É uma filosofia de vida.

Eu diria que é uma filosofia muito acertada.

Mudando um pouco nossa conversa, quando jovem, você chegou a frequentar os carnavais em Rio das Pedras?

Cheguei a frequentar a Sociedade Cultural Riopedrense por um bom tempo. Eu morava em Piracicaba, mas estava sempre em Rio das Pedras, então o meu círculo de amizade era maior por lá. Era um tempo em que a amizade prevalecia. Naquela época, você ia ao carnaval e tocavam as marchinhas. Era uma delícia. Os trajes eram sem nenhuma ousadia. Existia uma disputa de blocos, onde a criatividade era premiada.

Você é um piracicabano que se tornou Riopedrense há 45 anos?

 

Sou Riopedrense, nascido em Piracicaba.

Com seu conhecimento, círculo de amizade, família e residência em Rio das Pedras, já recebeu o título de Cidadão Riopedrense?

Já pensei nisso! Mas ainda não me legitimaram com esse título!

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