Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

sexta-feira, janeiro 01, 2010

BABALORIXÁ AZOANE J`LOLÁ



PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 02 de janeiro de 2010
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.tribunatp.com.br/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO: BABALORIXÁ AZOANE J`LOLÁ (Diz-se: Azoane Jilolá)
Conhecido em Piracicaba como J`Lolá (pronuncia-se Jilolá), palavra que em iorubá quer dizer “Rei do Sol” ou “Supremo de Dignidade, Virtudes, Qualidades”. É o nome de Obaluaê que é o Universo. Nascido em Salvador, Bahia, no dia 26 de agosto de 1941. Babalorixá, conhecido popularmente como Pai de Santo, que deveria ser chamado de Zelador de Orixá
O senhor é católico?
A minha família sempre foi católica, fui batizado na igreja católica. Eu sou Católico Apostólico Romano, vou á igreja, freqüento a missa. Eu sou o único da família que se interessou pelo candomblé.
Como o padre vê a sua espiritualidade?
Aqui em Piracicaba acredito que eles não sabem a respeito da minha espiritualidade, pelo fato de eu não ter contato com nenhum deles. Em Salvador na Igreja do Bonfim, a Lavagem da Igreja do Bonfim é o candomblé. Lá não existe essa divergência entre o candomblé e o catolicismo. Quando eu tive que fazer uma romaria na Igreja do Bonfim, como uma atividade do candomblé, fui á Igreja do Bonfim com toda a indumentária do candomblé. O Senhor do Bonfim no candomblé é Oxalá! As baianas quando lavam as escadas estão todas de branco, que é a cor de Oxalá. Quem é adepto do candomblé no dia de Oxalá, que é toda sexta feira, não usa roupa de cor, não come comida com sal.
Que idade o senhor tinha quando se despertou para o candomblé?
Eu estava mais ou menos com sete para oito anos de idade. O sentimento espiritual já nasce conosco. É o nosso anjo da guarda. Se ele permanecer abafado ele não se desenvolve. Minha mãe era professora na Ilha de Maré, nessa época eu tinha cinco a seis anos de idade. O dia 16 de agosto é dia de São Roque, nesse dia havia uma procissão marítima. Eu enlouquecia, saia de casa e entrava no mar, os pescadores me acolhiam. Com o passar do tempo, começou a manifestarem-se certas coisas em mim, que apesar de seu ser baiano era leigo no assunto. Eu tinha medo, não aceitava, era completamente contra essas manifestações espirituais.
Como eram essas manifestações?
De repente eu “sumia”, perdia totalmente a noção de tudo que me cercava. Os médicos classificaram “essas ausências” como uma doença clássica. Receitavam remédios fortes. Depois que entrei no candomblé isso tudo passou.
O senhor passou a freqüentar algum local específico em Salvador?
Freqüentei a casa do meu Pai de Santo, Waltinho de Iroco. O local do seu Pai de Santo é denominado Ilê Axé Iba Faromi. Estive lá no mês passado. Lá é que fui feito.
O que é “ser feito”?
É a firmeza daquela entidade. A gente é raspado, é pintado é catulado.
Qual é a diferença entre catulado e raspado?
O catulado é o corte do cabelo com uma tesoura, o raspado é com a navalha.
Esses detalhes que o senhor está fornecendo eram de conhecimento restrito?
Antigamente não era permitido fornecer esse tipo de informação, hoje está aberto. É importante que sejam divulgados para que a cultura seja preservada na sua forma correta.
Como é denominado o seu local, onde o senhor é Pai de Santo?
Quando passei a ser babalorixá recebi a denominação Ilê Axé Iba Tolu.
Quais são as diferenças entre a umbanda e o candomblé?
As diferenças estão nos toques, nas preparações para o axé. O candomblé tem sua origem na África. A umbanda foi desenvolvida no Brasil. A umbanda segue a linha de trabalho com espíritos. O candomblé trabalha com divindades.
Existe a atividade desenvolvida para produzir o bem como também para produzir o mal?
Existe! Isso é lógico! O babalorixá é um conselheiro geral. No mundo existem pessoas querendo fazer de tudo. Cabe ao babalorixá fazer o que melhor decidir que deve ser feito. Já houve caso em que fui procurado para desenvolver um trabalho extremamente prejudicial a uma pessoa. Eu não aceitei. Eu aprendi dentro da seita, que não se pode simplesmente fazer o mal ás pessoas, isso pode voltar contra mim mesmo, o meu anjo da guarda me devolve aquilo.
Existe algum tipo de pessoa que deseja provocar o mal para outra pessoa?
Os mais interessados nesse tipo de ação são pessoas envolvidas na política. Desejam que o seu adversário que se lasque! Procuram travar, enfraquecer, impedir o adversário de ter sucesso.
Pessoas com problemas sérios de saúde procuram suas orações?
Procuram! Somos impedidos de fazer certas coisas na vida, por ser uma afronta com o nosso espírito, com o nosso anjo da guarda. Por desconhecimento muitas vezes as pessoas agem de forma errada. Dentro do nosso ritual, das origens, quem manda em nossa cabeça é Iemanjá. Dia primeiro de fevereiro nas praias são feitas as homenagens á ela.
O senhor ficou até 25 anos de idade em Salvador?
Permaneci em Salvador, porém não me dedicava apenas a religiosidade, trabalhava como professor. Por parte da família da minha mãe todos foram professores, existe em Salvador colégio em nome do meu avô. Meu pai era policial. Toda a minha cultura foi para o lado da minha mãe. Antes de entrar no candomblé eu tinha medo, eu ficava assustado. Existia uma Mãe de Santo que passava sempre na porta da minha casa, quando eu a via, corria. Escondia-me, tal o medo que aquela mulher me dava. Quando entrei para o candomblé eu já não podia fazer mais isso, até que um dia, isso foi em 1961, ela disse-me: “Meu filho, você terá os melhores empregos em sua vida, mas a sua vocação é o candomblé”.
O senhor conheceu Mãe Menininha do Gantois?
Conheci. Ela fazia trabalhos com o meu Pai de Santo.
O senhor veio para São Paulo?
Vim para São Paulo, trabalhei na RCA VICTOR. Depois de certo tempo voltei para Salvador. Voltei para São Paulo, fui trabalhar em Congonhas, na Transbrasil Linhas Aéreas. Descobriram lá dentro que eu era espírita. Passou a ter um afluxo de funcionários da empresa, buscando comigo soluções para problemas afetivos, domésticos. Não havia a história de ver se poderia voar! (risos). É interessante, mas quanto maior o nível de cultura da pessoa maior é o seu gosto em buscar as respostas. É natural do ser humano. Acabei pedindo a conta da Transbrasil, voltei para Salvador. Permaneci mais um tempo lá. Voltei para São Paulo, fui trabalhar na Enciclopédia Britânica. Jogaram-me em Rio Branco, no Acre. Tinha a responsabilidade de realizar cobranças jurídicas. Eles me ofereciam boas condições de trabalho, passagens de avião.Eu morava em uma casa que a companhia me oferecia. Certo dia chegou uma mulher com uma criança e disse-me: “Benza o meu filho!”. Eu disse-lhe: “- A senhora está fora do seu juízo! Eu nem sei o que é isso!”. De tanto ela insistir, para satisfazê-la acabei atendendo o seu pedido. Noutra semana eu não dormia mais era muita gente na minha porta. Comecei a dispensar as pessoas. Voltei para São Paulo e pedi a minha conta. Voltei á Salvador.
E Piracicaba como surgiu na vida do senhor?
Vim em 1992 vim para passar uns dias e já faz 17 anos que estou aqui! Tenho 47 anos de espiritismo, reconhecido pela Federação Baiana de Culto Afro-Religioso.
O que é Ikiri?
É um coquinho. Nele eu consigo ver a trajetória de um ser humano. Só oito pessoas fazem essa leitura no mundo, sendo que mulher não tem acesso ao ikiri, assim meu Pai de Santo me orientou. O verdadeiro fundamento do ikiri está no fundamento branco do meio dos coquinhos. Quem estará presente é o seu anjo da guarda. É essencial que a pessoa esteja presente durante o ritual de leitura do ikiri, não pode ser feito via Embratel e também deve ser guardado o devido respeito, não podendo ser transportado de um lado para outro.
Como o senhor chama uma entidade?
Balançando um sino com duas bocas, ou campânulas, J`Lola explica: “O som produzido pelo adjá é a forma de chamar o Orixá. Não existe como eu falar venha cá”.
O senhor consegue visualizar acontecimentos próximos?
O falecimento da Kassia Eller eu vi aqui. A eleição do Lula eu vi aqui.
O senhor permite fazer duas perguntas que estão na cabeça de muitos brasileiros?
Claro, pode perguntar!
Quem será eleito presidente do Brasil?
(Nesse instante J`Lolá passa a jogar o Ikiri).
O Presidente Lula será o Fidel Castro só que discretamente, mesmo que ele coloque outra pessoa continuará governando na sombra. Ele não irá permanecer se reelegendo, irá colocar alguém, depois essa pessoa sairá, ele entrará de novo. Enquanto ele existir será presidente. Eu vejo isso. A futura presidente é uma mulher.
O Governador José Serra terá alguma chance?
O Serra poderá até atrapalhar ele.
Se a pessoa tiver muita fé em Deus ela estará totalmente protegida?
Lógico que estará. Primeiramente é Deus! Ele é o Ser Supremo.
Se alguém deseja a outro algum mal pode haver uma blindagem?
Se houver fé e um anjo de guarda fortalecido nada te acontecerá!
O senhor recomenda que as pessoas façam suas orações?
Lógico! Todo dia antes de dormir eu rezo, peço a Deus.
A oração é um escudo que o senhor recomenda para que as pessoas pratiquem no ano que se aproxima?
As pessoas devem rezar, ter fé.
O senhor tem uma oração especial para recomendar?
Quando vou deitar rezo: “Com Deus me deito, com Deus me levanto. Com a Graça de Deus, do Divino Espírito Santo. Rezo por três vezes. Amem. Deus me proteja e protegei meus inimigos”. Ás vezes eu rezo uma Ave Maria para as almas dos mortos, dos conhecidos.
Há uma falta de espiritualidade nos dias atuais?
Falta, há uma busca pela satisfação material. Há pessoas que esquecem que Deus está em toda parte e em todos os momentos. Não se podem cometer barbaridades, depois ir até um brechó, comprar um paletó e ir todo comportado a um culto qualquer e ficar perfeito. Sou do candomblé há 47 anos, venho de uma família católica, me considero católico, entro na igreja oro. Isso não é uma mistura, Deus é um só!
A cultura trazida da África mesclou-se com a religião católica?
Os escravos foram quem trouxeram isso tudo. A comida, a dança. Na Bahia teve uma época, que eu não cheguei a ver, mas que o candomblé era proibido. Eu peguei uma época em que para fazer um toque na sua casa precisava pedir licença na polícia.
O que é toque?
É uma festa com atabaque. Para realizar isso nos anos 50 era necessária a autorização policial.
Quando o senhor passa perto de uma pessoa “carregada” o senhor sente?
Sinto! Começo a abrir a boca, a bocejar.
Quem será o ganhador da Copa do Mundo em 2010?
Vai ter muita briga. O fato da representação brasileira sentir-se poderosa irá facilitar ao adversário. Eles estão muito convencidos. Tem graveto que derruba panela. Algum time fraco pode derrubar o grande, e isso pode acontecer ao Brasil. A África do Sul poderá ganhar a copa. A única coisa que pode favorecer o Dunga é que o anjo da guarda dele é da justiça.
Já pediram a ajuda do senhor para que fornecesse os possíveis resultados da Mega Sena?
Já! Eu digo que se eu soubesse não iria contar, iria eu mesmo jogar! Outra coisa, sorte a gente não adquire na vida, já nascemos com ela. Uma criança que nasce no chamado berço de ouro, tem de tudo. Muitas vezes essa pessoa tem um problema. Outra pessoa nasce á mãe joga no lixo, alguém a acolhe, ela um dia será um médico, um doutor. É a sorte!
Existe destino?
Quem faz é gente! Nesse mundo tudo que está na face da terra é o que Deus quer. Se nesse momento estou aqui fazendo isso é por ordem Dele. Não podemos discriminar nada. Ninguém quer ser ladrão, assassino, ou usar droga. Não por vontade própria. São conseqüências.
Uma família que tenha uma pessoa problemática, um dependente químico, por exemplo, há uma razão para a existência desse problema na família?
Tem alguma razão para que exista isso na família.
Um comentário sem fundamento, uma risada maldosa pode trazer conseqüências futuras?
Pode trazer conseqüências graves inclusive. Que acompanhará a pessoa até o final dos seus dias. Dependendo do que você vai falar a palavra é mais forte, em outras ocasiões a mente é mais forte.
O senhor tem discípulos?
Tenho muitos, alguns em grau avançado. É o que me deixa firme. Temos que saber espalhar, dividir.

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