Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

sábado, janeiro 16, 2010

JANDYRA SILVEIRA RAMOS
PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 16 de janeiro de 2010
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
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ENTREVISTADA: JANDYRA SILVEIRA RAMOS
Bisneta de Prudente de Moraes, a sua avó Maria Amélia casou-se com seu avô João Batista da Silveira Mello. A Professora Jandyra casou-se com o Professor Algemiro Coelho Ramos. Muitas gerações de piracicabanos devem a ambos não só o aprendizado formal de música, português, latim. Formaram um casal que sempre honrou e dignificou o nome de seus antepassados ilustres. Que educou antes de tudo, com o exemplo.
A senhora nasceu onde?
Nasci em Brotas no dia 12 de fevereiro de 1932. Meu avô materno tinha uma fazenda de café no Alto da Serra. Meu pai Silvio Silveira Mello tomava conta dessa fazenda. O pai dele João Batista da Silveira Mello que tinha o cognome carinhoso de Lalau foi um dos primeiros médicos de Piracicaba, ele foi casado com a filha mais velha de Prudente de Moraes, Maria Amélia. Era o genro para quem ele escrevia. Foi ele quem tomou as providencias necessárias para realizar a mudança de Prudente de Moraes quando este terminou seu mandato como presidente da república. Meu avô João Batista Silveira Mello foi um dos primeiros médicos da Estrada de Ferro Sorocabana. Lembro-me da família Martins comentar que ele foi médico deles. Minha mãe era da família Camargo Simões, seu nome é Jandyra Simões Silveira Mello. Os Simões de Brotas abriram fazendas, era sertão, viam-se onças.
Seus pais tiveram quantos filhos?
O João. A Maria Amélia, conhecida por Lia, era muito bonita. Não havia colegial em Piracicaba, ela fez um pouco em Limeira, um pouco no Colégio Piracicabano, e quando abriu no Sud Mennucci só tinha ela de mulher, a classe era de 33 alunos. Eram todos muitos amigos. Ela conheceu seu marido, Hélio Candido de Souza Dias, da família Souza Dias de São Paulo. Ele foi um dos maiores agrônomos que conheci. Eles tiveram nove filhos. Depois vinha o Silvinho, eu, Josette, e a Maria da Glória. É interessante observar que a Josette era muito amiga de Monteiro Lobato, ainda moça ela já escrevia. Monteiro Lobato quando escreveu Os Doze Trabalhos De Hercules, estava na Argentina, de lá ele mandou para ela os fascículos. Antigamente as frutas de Piracicaba eram maravilhosas, e a minha mãe mandou para Monteiro Lobato uma caixa de mangas Bourbon. Ele escreveu uma carta interessante dizendo que ele sempre pensou que a Bahia fosse a rainha das mangas, mas que ele descobriu que Piracicaba era a rainha das mangas!
A senhora conheceu Monteiro Lobato?
Conheci! Foi em uma visita em que a minha irmã Lia foi fazer a ele. A única coisa, que me lembro de ele ter dito foi quando ele me olhou e disse: “–Você é pernilonga quem nem o seu avô!”. Ele e a esposa dele gostavam muito da minha irmã Josette. Quando ele faleceu, sua esposa mandou de presente para a minha irmã Josette uma tesourinha que ele utilizava para abrir suas correspondências.
O Dr. João Batista da Silveira Mello morava aonde em Piracicaba?
Ele morou na Rua Treze de Maio, entre as ruas Santo Antonio e Alferes José Caetano, em frente aonde foi posteriormente o consultório do médico Dr.Tito. O meu pai tinha um grave problema de visão, e mesmo assim ele tomava conta da contabilidade da fazenda, com grande competência. Essa sua deficiência visual o impediu de prosseguir nos estudos. Seus irmãos prosseguiram nos estudos, um deles, João Batista também, foi juiz, o Otávio da Silveira Mello tomava conta do Jardim Botânico.
A senhora teve uma tia que foi prefeita em Limeira?
A minha tia, também neta de Prudente de Moraes, Maria Thereza Silveira Mello de Barros Camargo foi prefeita em Limeira, foi uma das primeiras deputadas.
A mãe da senhora, Dona Jandira Simões Silveira Mello estudou onde?
A família dela era muito grande, minha avó teve muitos filhos e a minha mãe era a mais velha. Com o tempo minha mãe entendia o francês ela lia francês, em espanhol. Ela lia para o meu pai que tinha sua visão deficiente. Eles leram todos os clássicos portugueses. O mais engraçado era quando eles iam ao cinema, com o tempo minha mãe passou a ter uma pequena deficiência auditiva. Ambos iam até o cinema, sentavam-se bem á frente da tela para não incomodar as pessoas que ali estavam. Era um horror para quem se sentava perto deles, porque minha mãe ia lendo as legendas para o meu pai. Quem se sentava sempre por perto era Erotides de Campos e sua esposa. Uma das lembranças que guardo da minha mãe era ela mexendo as panelas com um livro na outra mão: lendo! Ela lia o tempo todo! Discutia qualquer assunto. A família do meu pai era muito ligada a leitura. Ela tinha um tio-avô, o Tio Nhô-Nhô, ele era irmão da Carolina Ferraz Barbosa, esposa do Coronel Barbosa, que deu origem ao nome do Clube Coronel Barbosa. Nós morávamos na Rua Prudente de Moraes, na direção da cadeia, e o Tio Nhô-Nhô morava em uma casa que existe ainda na esquina da Rua Prudente de Moraes com a Rua Tiradentes. No tempo da Segunda Guerra Mundial ele descia até a nossa casa para ouvir o Reporte Esso. Já velhinho, ele entrava, e dizia: “Ó de casa!”. A criançada respondia: “Entra Tio Nhô-Nhô!”. Começava o Repórter Esso tínhamos que fazer silêncio. O apresentador entrava no ar e dizia aos ouvintes: “-Boa Tarde!”, Tio Nhô-Nhô respondia: “-Boa Tarde!”. Ele era lúcido. Todo dia ele ia a nossa casa para a minha mãe ler as Notas e Informações do Jornal O Estado de São Paulo. Ele estava tão acostumado, que para ele só a minha mãe é que sabia ler essas notas e informações! Ela lia bem, entendia o que estava lendo. Em casa, o castigo era quando a minha mãe viajava para acudir um parente doente, alguém era escalado para ler as Notas e Informações do Jornal Estado de São Paulo.
A senhora estudou o primário onde?
Fiz o primário aqui no Prudente, que funcionava onde é hoje o Museu Pedagógico Prudente de Moraes. Antigamente o ginásio era no Sud Menucci, a relação dos alunos que passavam ficavam expostas no Jornal de Piracicaba. Quando entrei na sala de aula a primeira coisa que o Professor Benedito Dutra fez foi fazer a chamada dos alunos, quando chegou o meu nome ele me disse: “- Dona Simões! Vamos ver se não derruba a peteca!”. Por causa dos meus tios que eram muito bons.
E piano, onde a senhora fez seus estudos?
Próximo da minha formatura foi incluído o curso de música no currículo escolar. Os conservatórios só existiam no Rio de Janeiro, em São Paulo e Campinas. Miguel Zigggiate ele vinha para Piracicaba procurando levar alunos para o conservatório. Eu, Cidinha Mahle, que estudava com Dona Dulce Rodrigues de Almeida, ela tinha uma formação excelente como pianista. Eu estudei com Dona Maria Wagner, uma senhora austríaca que tinha vindo ao Brasil para dar aulas á filha de um fazendeira de café
Quantos filhos os pais da senhora tiveram?
Éramos seis. Tínhamos um irmão que faleceu em Jacareí. O mais velho, João Batista Silveira Mello, é vivo ainda, mora em Curitiba, ele era conhecido como João Fazendinha. Ele tem filhos maravilhosos.
Ainda na fazenda a senhora teve aulas de canto?
A Dona Dirce Rodrigues nos ensinava a cantar, na época eu deveria ter de cinco a seis anos de idade. Quando viemos morar em Piracicaba ela tornou-se nossa amiga. Ela era muito amiga. da minha irmã Josette. Essa minha irmã foi pioneira no ensino de musica para bebês a partir dos 10 meses. No ano passado a Universidade Federal de São Carlos implantou esse curso de música.
A senhora tem algum parentesco com o Sr. Rubens Silveira Mello?
Eles são parentes do meu pai. Meu pai conhecia bem Dona Diva, irmão do Silas e do Celso Silveira Mello.
A senhora tem quantos filhos?
A mais velha é a Esther, médica, professora de genética, trabalha com pesquisa na USP. Ela tocava vilino e depois tocou viola na orquestra do Maestro Ernst Mahle. Por três vezes ele foi á Bahia para completar a orquestra da Universidade da Bahia. Depois dela nasceu a Ruth, já falecida. Em seguida a Rachel que é engenheira química, ela trabalhou por treze anos na Gessy Lever. Hoje ela está na Itália com o marido. Conseguimos formar os quatro filhos, dois na USP e dois na Unicamp. O Caio fez direito na São Francisco em São Paulo. Hoje ele é um dos diretores mais novos da Assembléia Legislativa. Ele gosta muito de escrever. Ao conhecer as músicas de Germano Mathias, gostou muito. Descobriu que Germano estava vivo. Ele conseguiu fazer com que o Germano voltasse á mídia, tendo inclusive escrito um livro sobre ele.
A senhora toca instrumento de teclado?
Por 30 anos toquei na Igreja Bom Jesus.
A senhora lecionou em Paraguaçu Paulista?
Lecionei e na a casa onde eu morava pertencia a um alfaiate, Sr. Adolfo Grilli. Para ele eu era a filha mais velha.
A senhora tinha algum grau de parentesco como interventor Fernando Costa?
A esposa dele era prima do meu pai.
Houve um período em que o gado, cabra era tratado com carrapaticida?
Existiam em Piracicaba os banheiros carrapaticidas. Havia um lá adiante da Metalúrgica Dedini e outro na Paulista. A cada vinte dias o gado tinha passar por aquele banho. Era composto por corredores, onde cada pessoa que tivesse gado, cabra levava seus animais para passar por esse corredor. O serviço que o meu pai desenvolveu na escrituração dessas atividades serviu como modelo para a Água Branca, São Paulo.
A senhora lecionou em Londrina?
Quando eu me formei embora estivesse com os devidos registros, não tinha a idade obrigatória para prestar concursos, quer era de 21 anos. Meu irmão trabalhava no Paraná, e eu fui ajudar a minha cunhada a preparar uma festa de formatura. Era obrigatório ter registro para lecionar, o que no caso eu tinha. Com isso dei aulas no colégio particular, do estado.
Qual condução a senhora usou para ir á Londrina?
Fui de avião. Meu tio veio para cá e eu fui com ele. A comunicação entre Londrina e Piracicaba era quase inexistente, o telefone levava horas para poder completar uma ligação. A viagem de trem era constantemente interrompida por queda de barreira. Quando chegava á Sorocaba era um alívio. Em Londrina dei aulas de piano no conservatório de lá.
A senhora chegou à idade de poder prestar concurso, para onde foi designada?
Os concursos eram como provas de mestrado. Havia uma prova de erudição. Uma prova em que a pessoa cantava Lá-rá-rá-rá e você tinha que fazer as notas musicais correspondentes. Depois tinha uma prova com o tempo de 40 minutos, sobre um tema sorteado 24 horas antes. Uma aula dada em escola do Estado, sorteada também 24 horas antes. Na Alta Sorocabana era o local mais próximo da minha irmã. Eu saía de São Paulo ás 4 horas da tarde e chegava a Santo Anastácio no dia seguinte ás 7 horas da manhã. De presidente Prudente vim para Palmital, que é pertinho de Assis. De Palmital eu fui Paraguaçu.
Quando foi que a senhora conheceu o seu marido Professor Algemiro Coelho Ramos?
Ele lecionava latim em Paraguaçu. Ele morava com seus parentes em uma casa que ficava em frente onde eu morava. Então eu ia e voltava com, nós éramos muito amigos, ele tinha as namoradas dele. Depois ele foi para São Paulo. O pai do Algemiro era de família tradicional de Itapetininga, daqueles tradicionais coronéis, uma figura imponente, tinha muita semelhança com Washington Luiz. Na época de Getulio Vargas ele foi preso, pensaram que estavam prendendo Washington Luiz! E ele com maior orgulho! Aos 7 anos de idade a mãe de Algemiro teve morte súbita. Ele foi morar com uma tia em Itu. As Irmãs de São José perceberam que o Algemiro gostava muito de estudar, a madre o aconselhou a entrar para o Seminário em Pirapora dos Padres Premonstratenses. Só que ele não tinha a vocação sacerdotal. Quando teve que passar para o Seminário Maior em São Paulo, ele estava desapontado, conversou com os padres, que o apoiaram na sua decisão. A sua tia foi informada da sua decisão, e como ela tinha mudado para São Paulo ele foi morar com ela. Prestou exame para a Faculdade de Filosofia, entrou, e arrumou emprego em um banco. Quando ele concluiu a faculdade conseguiu uma substituição grande para dar aula de latim em Paraguaçu.
Onde foi o casamento da senhora com o Professor Algemiro?
Foi na Igreja São Judas Tadeu, em São Paulo, no dia 10 de janeiro de 1962. Foi um casamento muito simples.
Ele era uma pessoa muito franca?
Era de uma grandeza, muito preocupado com os outros. Tinha muitas pessoas que o adoravam.
Em que ano ele faleceu?
Foi dia 4 de maio de 1995. Quanta gente ele ajudou, quantas apresentações por carta ele fez! Quantas bolsas ele conseguiu no CLQ, com o Turcão, com Wilson Saito. Em Paraguaçu o Banco do Brasil estava construindo uma agencia, a moçada animou-se, lá não havia muitas oportunidades de trabalho. Pediram ao Algemiro que os preparasse para o concurso do Banco do Brasil. Todo dia ás 6 horas da manhã estava abrindo a escola, deu as aulas pra eles. Passaram todos! Uma vez Algemiro e eu fomos passear em Paraguaçu, passamos pela porta do Banco do Brasil, quando um dos funcionários nos viu, saíram todos de dentro do banco. Aqui em Piracicaba ele era procurado por pessoas das mais diversas faixas etárias para conversar com ele quando tinham problemas.

Comentários:
Fui aluno de Dona Jandira e do prof Algemiro, no ginásio Dr. Jorge Coury. A eles tenho imenso respeito e saudades dos professores de qualidade, que ajudaram a formar toda uma geração com caráter e hombridade. Esta entrevista trouxe-me muitas recordações. Parabéns, Nassif.
Um abraço de Luiz Ricardo Bastos
# postado por Luiz Ricardo Menezes : 12:11 PM

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