Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

domingo, julho 26, 2015

RICARDA DIAS ALVES DA PAIXÃO

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 4 de julho de 2015.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADA: RICARDA DIAS ALVES DA PAIXÃO




Nascida em área rural pertencente a Charqueda a 29 de junho de 1935, Ricarda Dias Alves da Paixão esta completando 80 anos. Filha de João Batista Dias e Maria Moritiba Dias. Têm vivos os irmãos Sebastião Dias, Salvador Dias e Terezinha Dias. Na realidade sua mãe teve dezesseis filhos, oito faleceram ainda muito novos. Todos nasceram no sítio.
Qual era a atividade do pai da senhora?
Trabalhar na roça! Na lavoura de algodão, café, cana-de-açúcar. Lembro-me do nome das fazendas Boareto, Gava, Água Branca. Localizavam-se entre Piracicaba e Charqueada. Estudei até o quarto ano primário, a escola ficava no bairro Recreio depois que passou para Escola Mista, foi quando arrumaram uma sala na fazenda e a professora ia lá. Ela dava aula para primeiro, segundo, terceiro e quarto anos em uma única sala. Era a Escola Mista. A minha primeira professora chamava-se Maria de Lourdes.
Para ir até a escola a estrada era de terra?
Era de terra, quando chovia, para ir do Boareto até a Escola do Recreio era uma dor de cabeça, a distância era em torno de quatro quilômetros. Ia a pé. Ia uma criançada, todas juntas.
Com quantos anos a senhora começou a trabalhar?
Eu era muito doente. Tinha bronquite asmática dos dois até os dezoito anos. Em função da minha doença trabalhava nos afazeres domésticos, era casa de chão, tinha que molhar o chão com um matinho para não fazer pó. “-Molhava em uma vasilha de água e sameava o chão!” Sempre gostei de plantar flores, tinha o meu jardim em frente de casa.  Quando comecei a trabalhar mesmo, firme, eu estava aqui em Piracicaba, comecei a trabalhar como empregada doméstica. Vim para a cidade morar na casa da minha irmã Maria Aparecida, já falecida, ela era lavadeira de roupas, seu marido Benedito Antonio, era caminhoneiro.
O primeiro emprego da senhora em Piracicaba  foi na residência de qual família?
Eram todos dentistas, residiam a Rua Moraes Barros, próximo onde era a Porta Larga, era a família de João Batista de Aguiar. A casa era grande, tinha bastante serviço, lá eu lavava, passava, cozinhava, Nessa casa permaneci aproximadamente por um ano. Eu morava lá, dormia no emprego. No período de uns dois a três anos trabalhei em mais dois ou três lugares.  Casei-me e não fui trabalhar mais fora de casa.
A senhora casou-se com quem?
Casei-me com Mário Alves da Paixão.
Como vocês se conheceram?
No jardim, na Praça José Bonifácio, naquela época nós dávamos a volta em torno da praça, era o famoso “quadrar jardim”.
Qual era o percurso que vocês faziam?
Íamos pelo jardim, quando chegávamos na então Caixa Econômica do Estado de São Paulo, mais tarde Nossa Caixa Nosso Banco, hoje Banco do Brasil, na Rua Santo Antonio, dávamos a volta, seguia pela praça até a Livraria Brasil, na Rua Moraes Barros, nas proximidades da agência do Banco do Brasil, virava a esquina, ia até a matriz outra vez, virava, seguia pelo jardim e fazia o mesmo trajeto novamente.

Nessa época a senhora morava em que local?
Quando conheci o Mário eu morava no sítio. A gente vinha passear em Piracicaba. Depois eu vim trabalhar em Piracicaba. Conheci o Mário antes de mudar para a cidade.
Sem querer invadir a privacidade da senhora, essa sua mudança para a cidade foi motivada após conhecer o Mário?
Não! Mudei para trabalhar mesmo! Tive que fazer essa opção, o serviço na roça não era compatível com a minha saúde. O serviço era pesado demais. Como empregada embora trabalhasse muito as condições de trabalho não afetavam tanto a minha bronquite.
O namoro naquela época era bem diferente?
Era como se fosse um amigo. Conversava, falava de musica, de roupa, de dança. Na época ele já era funcionário publico.
Em qual igreja vocês se casaram?
Casamos na Igreja Bom Jesus. Uma semana antes casamos no civil, depois casamos na igreja.
A lua-de-mel foi aqui mesmo?
Não viajamos. Casamos e ficamos aqui mesmo. Casamento de pobre, não é?
Foram morar em que local?
Fomos morar a Rua São José entre a Rua do Vergueiro e a Rua Luiz de Queiroz. Alugamos uma casinha de dois cômodos. Mudamos para Limeira onde ficamos dois anos. Em seguida mudamos para Araras onde permanecemos por um ano. Voltamos a morar em Limeira. De Limeira viemos morar em Piracicaba a Avenida Presidente Vargas. Em seguida fomos morar na Vila Independência, onde moramos por oito anos. Por volta de 1969 a 1970 viemos morar na casa que residimos atualmente. Era ainda rua de terra. Entramos em uma casa praticamente com o telhado e as paredes. Graças a Deus superamos tudo isso, hoje tenho 11 netos e 7 bisnetos.
Quantos filhos vocês tiveram?
Tivemos seis filhos: Mário Alves da Paixão, Magali Alves da Paixão, Maximiliano Livramento Alves da Paixão, Maria Aparecida Alves da Paixão, Marcos Alves da Paixão e Marcelino Alves da Paixão. 
Com que idade o seu marido, Mário, faleceu?
Faleceu aos 42 anos, com o mal de Chagas. Eu tinha 38 anos.
Aos 38 anos, viúva, com seis filhos, como a senhora conseguiu superar as inúmeras dificuldades que deve ter encontrado?
Até então eu ficava só dentro de casa cuidando dos filhos. A partir desse momento tive que ir trabalhar fora de casa. Comecei trabalhando como doméstica. Com todo esforço que eu fizesse o dinheiro não era suficiente. Após inúmeras tentativas de fazer alguma coisa que agregasse algum dinheiro, como coletar ferro velho, vender jornais, percebi que a saída seria trabalhar como diarista, o salário era mais compensador. Criei meus filhos trabalhando como diarista por 33 anos. Trabalhava na cidade toda.
A senhora é religiosa?
Eu sou louvado seja Deus! Sou católica, minha maior devoção é Deus. Se, estou muito apertada me pego nele. Quando digo: “- Meu Deus do céu!” estou dizendo “Me acuda meu Deus, me ajude!”.
Nesse período todo que a senhora ficou trabalhando a senhora tinha algum tipo de diversão?
Abandonei tudo! Eu queria trabalhar! Na época a Escola Estadual Dr. Jorge Coury tinha os bolsos das camisas bordados com as iniciais do colégio: “JC”, muitos daqueles bolsos vinham para que eu bordasse. Eu bordava os bolsos, fazia guardanapos, enquanto as crianças iam a escola. Até eles voltarem as dez, onze horas eu estava bordando. Para aumentar um pouco o dinheirinho que eu ganhava. Era bordado a mão, não era a maquina. Fazia crochê. Meus filhos querem que eu coloque faxineira em casa! Isso porque quando chega às duas horas da tarde estou cansada!
Como é a saúde da senhora?
Olha, pelo que vejo de gente reclamando, eu só fico escutando. Graças a Deus não tenho nada daquilo.
E a alimentação da senhora, como é?
Normal. Sem exagero. Minhas patroas diziam: “-Por que você come tão pouco e trabalha tanto?” Eu dizia que meu jeito de viver é assim, eu me sinto bem! Nunca fui de comer em excesso. Mesmo que vá a um restaurante, é aquele pouquinho. Se eu beber uma latinha de refrigerante é muito! Quando vejo algumas pessoas comendo um prato enorme eu até passo mal. Como a pessoa consegue comer tudo aquilo?
A senhora acredita que o excesso de alimentação pode prejudicar a saúde da pessoa?
Eu acho que sim! Às vezes acho que o meu problema está relacionado com a alimentação que eu não gosto. A maioria das coisas que eu olho, não falo, mas penso: “-Não me agrada!”.

Qual é a sabedoria da vida, para chegar a idade que a senhora está, com essa lucidez e saúde que a senhora tem, qual é a receita?
Acho que é não dar muito ouvido para as coisas ruins, as coisas ruins fazem mal, se a pessoa se aproxima e começa a emitir comentários sobre coisas negativas, e se eu não puder ajudar, acho melhor não ouvir.
Existem as famosas “comadres” que sentem um prazer imenso em ficar comentando fatos e boatos.
Isso me faz mal! Simplesmente dou um jeito de sair dessas conversas. Dou as costas e saio! Se eu não posso ajudar, não vale a pena ouvir!
Tem gente que fica fofocando ao telefone, isso faz mal à pessoa?
Faz mal! A gente vem para casa “carregada” e preocupada com o problema alheio.
A senhora assiste televisão?
Assisto, gosto de uma novelinha, quando ela me agrada.
Política a senhora acompanha?
Não acompanho!
Conheceu algum político?
Meu filho! Meu filho é político! O Mario Alves da Paixão. Foi candidato quatro vezes e não conseguiu ser vitorioso.
O que o atraiu para a política?
Até hoje eu não sei! Até hoje ele quer voltar, eu digo a ele que não deve voltar.
A senhora fica nervosa quando ele está em campanha?
Eu fico! Posso ajudar, mas não gosto. A política o desgasta, desgasta a família.
Dos tempos passados o que traz saudade?
Tenho saudades dos meus bailes! Eu e meu marido freqüentávamos muito o Clube Treze de Maio. Barbaridade! Muitos bailes! Meu marido chegava a pagar uma pessoa de confiança, para olhar as crianças e nós irmos aos bailes.
Quais eram os tipos e música que mais faziam sucesso?
Samba, mazurca, bolero, forró, lambada, salsa, tango. Carnaval nós não pulávamos, era difícil, mas conhecemos todo o pessoal que pulava carnaval. Agora baile era normal, as crianças estavam bem de saúde, pagávamos uma pessoa e íamos ao baile.
A que horas vocês iam ao baile?
O baile naquela época começava às sete horas da noite e terminava sempre às sete horas da manhã seguinte. Eram doze horas dançando! Não era como hoje que vai para o baile a meia-noite. O prazer estava em dançar, na música, muitas vezes nem água tomava. O baile era com orquestra ao vivo. Parece que estou até vendo aqueles violões que iam até o telhado! Isso foi na década de 60.
O Clube Treze de Maio é um clube fundado por negros, naquela época aceitavam a presença de brancos?
Não havia discriminação, era freqüentado tanto por negros como por brancos. É interessante como esse período foi marcante na nossa vida, outro dia, estava em um velório de uma pessoa conhecida, conversando com uma senhora quando chegou seu marido e disse-me: “-A senhora é esposa do Mário Alves da  Paixão!”. Sua esposa me reconheceu. Eu não os reconheci. Com o passar do tempo, minhas amigas ficaram fortes, ganharam alguns quilos, eu mantive sempre o mesmo peso.
A senhora só freqüenta a igreja ou tem alguma função especial?
Freqüento a Igreja Menino Jesus de Praga. Eu ajudo a zelar a igreja. Agora estou afastada porque ela está em reforma.
A senhora freqüentou a Igreja São José?
Freqüentei, esses dias tirei fotografia junto ao Monsenhor Luiz Giuliani foi na missa em comemoração aos meus oitenta anos, o Monsenhor veio celebrar, o meu filho mais velho fez a primeira comunhão com ele. O meu filho Marcelinho foi batizado por ele. A missa em louvor aos meus oitenta anos foi concelebrada peno Monsenhor Luiz Giuliani e Padre Sebastião. Foi uma missa muito bonita mesmo.
O marido da senhora tinha carro?
Tinha um Volkswagen azul claro.
A senhora dirigia?
Nunca dirigi. Arrependo-me até hoje.
Naquele tempo ia-se muito passear no Mirante do Rio Piracicaba?
Quando as crianças eram pequenas eu ia, assim cmo ia também ao zoológico, na Escola Agrícola, iam as crianças, eu o pai.  Íamos de bonde.
Do alto da sua experiência, o que a senhora pode dizer às pessoas que estão iniciando a vida agora?
Estávamos minha filha e justamente conversando sobre isso agora pouco. Se a pessoa recebe mil tem que pensar bem onde vai colocar esse dinheiro. Como dona de casa principalmente, tenho meu meio de diminuir as despesas com água, luz, não vou deixar a casa inteirinha com luz acesa à noite. Tenho que encontrar um meio de diminuir o gasto com o gás, tenho que fazer isso tudo para ajudar no final do mês, porque ganho só mil. O homem se está acostumado a tomar três garrafas de cerveja, ele terá que tomar uma garrafa de cerveja. Se ele tomar todos os dias as três garrafas, no final do mês ele terá gasto um bom dinheiro em cerveja. Daqueles mil reais deve sobrar um pouquinho.
A senhora é do tempo em que se comprava e anotava em uma caderneta, quando recebia o salário pagava. Em que lugar a senhora comprava?
Nós comprávamos no Adelino Dantas, na Vila Independência. Depois que mudamos para cá passamos a comprar no estabelecimento de propriedade do Florindo e da Branca. Hoje eles já não têm mais o estabelecimento.
E praia a senhora gosta?
Estive na Praia Grande, em Ubatuba, adoro a visão do conjunto. Não gosto de entrar na água.
A senhora vivenciou o tempo da Jovem Guarda?
Curti muito essa época!
A senhora é uma pessoa de muita fibra e coragem, ainda nova ficou viúva com seis filhos para criar com recursos bem limitados.
O bom é que eles me obedeciam. Com isso eles me ajudaram.
A senhora tem uma música favorita?
Gosto muito de Aquarela do Brasil de autoria de Ary Barroso, outra que eu gosto é Brasileirinho com letra de Pereira Costa e música de Waldir Azevedo. 
A senhora gosta de viajar?
Gosto muito! Quero ir à Brasília! Já viajei por muitos lugares do Brasil, ao nordeste fui várias vezes, inclusive em Salvador.
A senhora foi de avião?
Fui de avião. A primeira e a segunda vez eu fui de ônibus. A terceira eu fui de avião. Gostei. É rapidinho! De ônibus são três dias de viagem! Agora quero viajar de avião, a gente passa medo, mas é rápido! No inicio eu pensava que iria sentir medo, iria ficar tremendo, quando tomasse o avião. É uma maravilha! Hoje estou desfrutando, mas tudo que passei não foi fácil, embora sempre alguém me ajudou, a família, os amigos. Sempre teve alguém que deu uma força. Tivemos vizinhos maravilhosos, eu ia trabalhar eles cuidavam das crianças, Parentes que foram muito participativos.
Os patrões que a senhora teve também colaboraram muito?
Tive excelentes patrões e patroas. Fiquei treze anos trabalhando com a família Spruk. Fiquei treze anos trabalhando com Dona Ida, o marido dela era barbeiro na galeria, chamava Seu Lazinho. Trabalhei por três anos na casa da Dra. Marly Therezinha Germano Precin. Às vezes eu chegava em casa e já tinha uma mala de roupa em casa. Quem me dava era a Dra. Marly, os Ometto, onde trabalhei por cinco anos. Todo lugar que eu ia queriam que eu trabalhasse para eles. Sou feliz, não posso querer coisa melhor, aonde chego sou muito bem tratada.


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