quarta-feira, fevereiro 04, 2026

 

 

CONTOS

Ó abre alas que eu quero passar!

O Carnaval no ano eleitoral 2026!

 

No Brasil, ano eleitoral é tipo carnaval prolongado: começa antes da hora, termina

depois do previsto e sempre sobra aquela sensação de que alguém sambou na sua cabeça sem

pedir licença. Em 2026 então, tudo se mistura: confete, urna eletrônica, candidato fantasiado

de salvador da pátria e eleitor tentando decidir se vota, se pula ou se só observa da

arquibancada.

Os blocos já estão nas ruas: os canhotistas de um lado e os direitálhas do outro, cada

um berrando seu enredo como se fosse a última disputa da Sapucaí. A polarização virou febre,

virou figurino, virou marchinha de duplo sentido. É o país se dividindo em dois carnavais que

se esbarram na esquina e fingem que é tudo normal.

Do Norte ao Sul, o povo cai no samba para descontar a dor que o governo, insiste em

deixar pelo caminho. Afinal, parece que o país vive navegando dentro do próprio umbigo,

como se fosse barquinho de papel no brejo burocrático. E o brasileiro? Ah, esse transforma dor

em batuque. É talento ou é sobrevivência? Ninguém sabe, mas funciona.

No bloco dos canhotistas, as alegorias vêm ousadas: “A Fogueira da Igualdade”, “A

Fênix da Justiça Social”, “O Carrossel do Estado Protetor”. Vermelho, roxo, lilás, tudo brilhoso.

O samba-enredo mistura discurso, rap e esperança, com refrão pedindo mais direito, mais

inclusão e umas pitadas generosas de emenda parlamentar, jogadas para o público como

confete caríssimo pago com dinheiro do contribuinte.

Já nos direitálhas, o desfile é outra vibe: “O Trem da Ordem”, “O Mercado que Voa”,

“A Fantasia dos Bons Costumes”. Azul, verde, branco e aquele dourado que parece ouro mas

muitas vezes é latão pintado. O samba-enredo tem cara de hino, ritmo de sertanejo, letras

sobre liberdade, segurança e um Estado magrinho, mas sempre alimentado pelas mesmas

emendas, agora virando serpentinas que o vento carrega direto para algum gabinete.

Nos carros alegóricos, aparecem as versões carnavalescas dos Três Poderes: o

Executivo vestido de super-herói cansado, o Legislativo fantasiado de vendedor de pacote

turístico, e o Judiciário em traje tão luxuoso que até a comissão de frente fica sem graça.

Todos giram bandeiras e evitam deixar cair as máscaras, coisa difícil, porque máscara aqui não

protege só do vírus, protege de crítica, de promessa quebrada e até de si mesmo.

A modernidade chega com drones, hologramas, telão em 8K. Tecnologia para

impressionar, para parecer que o país está no futuro, mesmo tropeçando no presente. É o

carnaval do “olha como estamos avançados”, enquanto os fios ficam segurados por gambiarra.

E como não podia faltar, surgem os "Joãozinhos 30" versão digital: estrategistas, criadores de

conteúdo, magos de algoritmo que costuram narrativas como quem prega paetê em fantasia

de última hora. Eles definem a cor da tinta, o brilho do discurso, a ordem do desfile emocional.

Mas na quarta-feira de cinzas, tudo se encontra: canhotistas e direitálhas, sem glitter,

sem fantasia, sem filtro. A ressaca chega igual para todo mundo. Ali, no chão frio da realidade,

dá para ver quem é quem, ou perceber que, no fundo, todo mundo desfilou mais parecido do

que gostaria de admitir.

A moral? Que o Brasil precisa escolher seu próximo carnaval político com menos

fumaça e mais verdade. Talvez seja hora de um carnaval novo, do século 21: sem máscaras

para esconder intenção, sem confete que tape buraco, com mais transparência e menos

truque.

E mesmo com tudo isso, o Brasil continua sendo país de alegria teimosa. A gente ri,

dança, canta e segue. Porque depois do carnaval vem a Copa do Mundo e finalmente a eleição,

crise, esperança, decepção e sonho.

E, no fim das contas, só resta desejar: boa sorte, Brasil, e que os próximos desfiles

sejam mais verdadeiros que as fantasias. 

02/02/2026

Walter Naime

Arquiteto-urbanista

Empresário.

 

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