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segunda-feira, setembro 23, 2013
MÁRCIO MONTEIRO TERRA
PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E
MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 19 de setembro de 2013
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 19 de setembro de 2013
Entrevista: Publicada aos sábados
na Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
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ENTREVISTADO: MÁRCIO MONTEIRO TERRA
Márcio Monteiro Terra nasceu no
dia 17 de novembro de 1943 na cidade de Itaí, na região de Avaré, Estado de São
Paulo. Filho do professor Aracy de Moraes Terra e Zoraide Monteiro Terra que
tiveram os filhos: Magnus Monteiro Terra, Mário Monteiro Terra, Márcio Monteiro
Terra, Maurilo Monteiro Terra e Milton Aguiar Terra este último filho das
segundas núpcias do seu pai. Marcio tem um grande amigo, que considera como um
irmão: Daniel Libardi.
Até que idade você permaneceu em Itaí?
Posso afirmar que não conheço
Itaí, meu pai era inspetor escolar, era removido constantemente de uma cidade
para outra. Em Itaí ele permaneceu em torno de um ano, foi quando eu nasci, sou
itaiense por força das circunstâncias. Logo em seguida meu pai foi removido
para Tietê onde permanecemos por alguns anos, ele foi diretor do grupo escolar
de Tietê que existe até hoje. A minha mãe era formada professora, mas não
exercia a profissão.
Qual era a forma de lazer muito praticada na
época?
Sempre gostei de jogar tênis de
mesa, que na época era denominado de “ping-pong”. Lembro-me das famosas goiabadas
feitas em Tietê, a “Curuçá” era a mais conhecida.
De Tietê meu pai foi promovido de
diretor de grupo para inspetor escolar e transferido para Santos.
Quantos anos você tinha quando ocorreu a transferência
do seu pai para Santos?
Eu deveria ter mais ou menos uns
dez anos de idade. Fomos residir no bairro Gonzaga, na Avenida General
Francisco Glicério, travessa da Avenida Ana Costa, próximo onde havia a linha
de trem, não muito distante da praia. Meu pai inspecionava os grupos escolares
estaduais de toda a região de Santos. Permanecemos residindo em Santos por
cinco anos. Um concunhado dele era delegado de ensino de Piracicaba, hoje o
cargo recebe o nome de dirigente de ensino. A sede era na antiga casa do Preté,
onde chegou a ser o gabinete do prefeito de Piracicaba, na Rua São José esquina
com a Rua do Rosário. O concunhado dele, Mário de Almeida Mello, estava se
aposentando. Meu pai não queria permanecer em Santos.
Tinha algum motivo para que o seu
pai não permenecesse em Santos?
Nas visitas de inspeção ele tinha
que ir a lugares inóspitos, algumas vezes usava canoas para atravessar pequenos
rios, e em uma dessas vezes ele caiu, o barco virou e ele quase morreu afogado,
ele não sabia nadar. Estava só ele e o condutor do barco. Ele ficou
traumatizado. Sólon Borges dos Reis era muito amigo do meu pai. Meu pai foi
nomeado delegado de ensino em Piracicaba, imediatamente ele veio para cá.
Você passou uma fase muito
interessante da vida, dos 10 aos 15 anos em Santos.
Lá estudei no Instituto Canadá,
na região do Gonzaga, na Rua Mato Grosso, 163. Lembro-me que eu freqüentava
muito a praia. Jogava tênis de mesa no Clube Sírio Libanês que ficava na
Avenida Ana Costa. Meu irmão Maurilo jogava muito bem, eu era razoável.
Formávamos uma dupla e disputávamos o Campeonato Santista de Tênis de Mesa.
Naquele tempo o melhor jogador de tênis de mesa do Brasil morava em Santos, o
famoso “Biribinha” cujo nome é Ubiraci
Rodrigues da Costa, isso em 1954, 1955. Na época, Santos ainda tinha bonde.
Aproximadamente
em que ano a sua família mudou-se para Piracicaba?
Foi em
torno de 1957, viemos morar no centro da cidade, no Edifício Gianetti, no
décimo andar, bem ao lado do relógio da catedral. Eu era moço, não me importava
com as batidas do relógio marcando as horas. Talvez se fosse hoje me sentiria
incomodado. Meu pai adquiriu uma casa, fomos morar na Rua São João, quase
esquina coma Rua Regente Feijó. Eu tinha 18 anos e estava fazendo o Tiro de
Guerra, quem comandava era o sargento Guatura. Nessa época minha mãe faleceu,
ela pediu para que eu viesse até o centro comprar a revista Coquetel, ela
gostava de fazer palavras cruzadas. Quando voltei, vi a vizinhança toda em
torno de casa, ela tinha sido conduzida ao Hospital Gimenes, que mais tarde passou
a ser o Hospital Unimed, e hoje está desativado. O falecimento dela abalou a
família toda. Meu pai sofreu um golpe violento, viviam muito bem, era um casal
fantástico. Meu pai sempre foi um homem muito sério, respeitoso, integro e
honesto. Morei com o meu pai até meus 35 anos, via que ele era corretíssimo ao
extremo.
Nessa
época fazia o Tiro de Guerra e estudava onde?
Estudava
no Sud Mennucci, depois fui estudar no Colégio Dom Bosco, onde conclui o
científico. Sou do tempo do Padre Pedro Baron, primeiro diretor do
Colégio Salesiano Dom Bosco. Foram colegas
de colégio Adilson Maluf, Celsinho Silveira Mello. Nesse ínterim fui participar
de um curso de oratória promovido pelo SESI, que ficava no último andar do
prédio onde se situava o Cine Politeama, prédio que foi demolido e deu lugar ao
estacionamento do Banco Bradesco, na Praça José Bonifácio, no centro. Osvaldo Sobeck, jornalista, trabalhou na
Folha de Piracicaba de propriedade de Cecílio Elias Neto, como funcionário do
SESI ele deu um curso de oratória, participei desse curso. Alguém me falou: “-
Você tem jeito para trabalhar em rádio!”. Nessa época fui trabalhar no Jornal
de Piracicaba, onde permaneci por três anos como revisor. Entrava as onze horas
da noite e saia as cinco ou seis horas da manhã. Trabalhei com Losso Netto,
Nene Ferraz, Acary de Oliveira Mendes, Luiz De Francisco. Eu tinha uma atenção
especial com o editorial feito pelo Dr. Losso Netto. Isso no tempo do linotipo.
Eu saia do Jornal as seis horas da manhã e ia para o Tiro de Guerra. As vezes
ia trabalhar já com a farda. Era um tempo em que para encerrar o jornal eram
levadas horas e horas. O jornal fechava as matérias as onze horas da noite, até
fazer todo o jornal era um trabalho desgastante para o pessoal da oficina. E
para o revisor também, tinha que ficar acompanhando, eles traziam a prova para
ser revisada.
Quando você começou a trabalhar em rádio?
Comecei a trabalhar na Rádio “A Voz Agricola do
Brasil” da Rede Piratininga, situada na Rua XV de Novembro, onde atualmente é o
Supermercado Jaú Serv, havia uma padaria
da família Maranhão, existiam poucas padarias na cidade na época, na parte
superior era a rádio. Pela Rua XV tinha uma escada, que dava acesso a parte superior.
Como se deu o seu ingresso na rádio?
Falei com Ary Pedroso, Hugo Pedro Carradore, este
último tinha um programa do meio dia a uma hora da manhã, eu participava um
pouco do programa.Trabalhei com Duarte Filho que era o nome artistico de Miguel Célio Hyppolito, ele tinha um
programa de esportes sobre o futebol amador. Naquele tempo era comum , esse
habito permanece até hoje, a pessoa ter um nome civil e outro artístico.
Na rádio você fazia o que?
Locução. Fiz um teste e passei.
Iniciei trabalhando nos setores de jornalismo e esportes. “Piracicaba em 60
minutos” era um programa comandado pelo Hugo Pedro Carradore, fazia uma
participação a tarde com Duarte Filho e depois passei a ser reporter volante da
equipe de esportes que era comandada pelo Ary Pedroso, um dos melhores
locutores da história de Piracicaba. Ary era muito bom narrador de futebol.
O que é reporter volante?
É o locutor que fica dentro do
campo, fazendo entrevistas com jogadores, com técnicos, é o reporter de campo,
com cabo (fio) até o microfone. O cabo que liga o microfone a central até hoje
é insubistituivel, mantém a fidelidade do som. Existe os aparelhos sem fio, só
que perdem um pouco a qualidade, principalmente onde sofrem interferências. Eu
entrava em campo e ia entrevistar os jogadores de futebol, técnicos, e passando
as informações. Muitas vezes o locutor não via alguma coisa que havia
acontecido embaixo. Entrevistava o juiz, presidente do clube.
Você tinha acesso aos bastidores?
Após o jogo os vestiários eram
abertos, hoje já não é mais assim, há uma sala só para entrevistas. Naquele
tempo entravamos no vestiário, entrevistando jogador por jogador, alguns
tomando banho.
Ali você ouvia os comentários dos
jogadores entre si sobre a partida?
Nós tinhamos bastante afinidade.
Como repórter de campo, sem falsa modéstia, eu era muito bom. Eu tinha umas
tiradas boas. No então Estádio Roberto Gomes Pedrosa, que deu lugar ao Extra-Hipermercado,
na Rua Governador Pedro de Toledo, para chegar até o vestiário tinha um túnel e
os degraus, eu narrava, “Ary, estou no primeiro degrau, segundo degrau,
terceiro degrau.” Batia na porta e dizia: “ -Estou batendo na porta, vamos ver
se alguém abre para me atender!”. Na época isso era novidade.
Era no tempo em que o torcedor ia ao
campo levando seu rádio de pilha?
De cada dez torcedores, oito levavam
seus rádios. A audiência era muito grande dentro e fora do campo. Fiquei nessa
função por pouco tempo, o Ary transferiu-se para a Rádio Difusora e passei a
ser narrador. O programa chamava-se “Papo de Bola”, era das 11:30 às 12:00
horas. A tarde fazia outro programa chamado “Panorama Esportivo”, das 18:00 às
19:00 horas. Meu redator era Luiz Carlos Quartarollo, Rubens de Oliveira Bisson
era meu comentarista. Ai que apareceu Júlio Galvão. A rádio “ Voz Agricola”
peguei o final dela na Rua XV de Novembro, depois ela passou para a Rua Moraes
Barros, 1191. Depois passou para a Rua Moraes Barros, bem em frente ao portão
da Companhia Paulista de Força e Luz, o prédio foi demolido e deu lugar a uma
agência do Banco Itaú. Ficou alguns anos ali quando Francisco Silva Caldeira
comprou a rádio que era da Rede Piratininga. Ele mudou o nome para Voz de
Piracicaba, depois passou a ser Rádio Alvorada, Foi Rádio Antena 1, Rádio
Globo, hoje é a Rádio Onda Livre. Trabalhei um ano com Ulisses Micchi e Raul
Hellu na Rádio Difusora.
Qual foi o primeiro jogo que você
narrou?
Foi XV de Novembro e Palmeiras jogo
disputado no Estádio Roberto Gomes Pedrosa, em Piracicaba.
Você ficava na cabine de transmissão,
tinha que ter um grau de visão muito bom para distinguir os jogadores a
distância.
Naquele tempo ao qual estamos nos referindo, começo da
decada de 60, tinha ponta direita, ponta esquerda, centro avante, zagueiro
central, lateral esquerda eles guardavam mais as posições do que hoje. Após uns
10 minutos você pegava mais ou menos a fisinomia e a localização do jogador em
campo. Quem narra jogo de futebol, não pode corrigir um erro seu ao relatar um
passe de bola, apesar de que muito jogo de futebol que hoje é transmitido pelo
rádio a televisão também o transmite. Quem transmite não pode perder a
sequencia. Voce marca a escalação de 1 a 11, põe em um papael duas fileiras de
números e nomes, dos dois times, o juiz, e aí você comanda a transmissão.
Qual era o seu bordão na época?
O meu bordão, que ficou famoso era:
“ Enquanto a bola dança, o tempo avança!”. De cinco em cinco minutos eu falava
isso para anunciar o tempo e o placar do jogo. Eu sempre falei: “ O XV é o time
mais importante do mundo!”. Isso para ressaltar a importância que o XV
representava para a cidade de Piracicaba. Como representa até hoje, se bem que
o XV naquele tempo teve uma fase bem melhor do que a fase atual. O XV passou
por várias fases, muitas alternativas, teve uma fase bem próspera com o
Comendador Humberto D `Abronzo. Montou um grande time, em 1967 estavamos na
segunda divisão. Em 1948 o XV foi o
campeão da Lei de Acesso. Foi o primeiro time do interior que ganhou a Lei de
Acesso, passsou a participar da Divisão Especial do Futebol de São Paulo. Foi o
primeiro ganhador em 1948 e 1949. Se manteve até cair em 1965. O presidente era
José Luiz Guidotti. Ai entrou o D`Abronzo, o XV quase subiu em 1966, em 1967
acabou ficando campeão. Seu maior rival era o Paulista de Jundiaí. Lembro-me
perfeitamente que através de nossas rádios lotávamos dezenas de onibus levando
torcedores para assistirem jogos decisivos no Pacaembu, no Estádio Jaime Cintra em Jundiaí onde saia
muitas brigas. Os torcedores esperavam na estrada, sobre os pequenos viadutos e
ficavam jogando pedras nos onibus. Tivemos jogos violentos, tanto em Jundiai
como em Campinas.
O que está acontecendo com o futebol
nos campos, que não levam mais o mesmo perfil de público?
Atualmente há muitas transmissões
por televisão, canal aberto, canal fechado. O público vê pela tevisão grandes
classicos, e em times menores irá ver jogos de menor expressão. Há um grupo de
torcedores do XV que são aficcionados, são no máximo 10.000 pesoas, a média do
XV nesse torneio deve ser em torno de 500 pessoas pagantes. Quando vem
Corinthians, Palmeiras, até dividem o estádio, metade da torcidaa do Palmeiras,
outra metade é para a torcida do XV. A média de público chega a 6.000 pessoas.
O Estádio Municipal Barão de Serra Negra comporta 18.500 pessoas. Eu acompanhei
o XV durante 42 anos. Segundo o saudoso Rocha Netto, eu fui a pessoa que assistiu
mais jogos do XV. Devo ter assistido a uns 2.000 jogos do XV em minha carreira.
Você após ser por muito tempo
narrador dos jogos ocupou outra atividade no rádio esportivo?
Após narrar por uns 15 anos fui ser
comentarista. Conheci Chico de Assis, quando ele passou a narrar bem uma
partida disse-lhe “- Você narra a partida que eu comento!” Diversos
comunicadores iniciaram sua carreira comigo, entre os mais famosos: Roberto
Cabrini, Luiz Carrlos Quartarollo que está na Rádio Jovem Pan ha uns 30 anos,
ele era meu redator, depois o passei a reporter de campo, Rogério Achiles, Tony
José, Tarcisio Chiarinelli que fazia o plantão esportivo, informações sobre
jogos da rodada.
Márcio você fez algum curso de nível
superior?
Sou bacharel em Direito, pela
Faculdade de Direito de São Carlos, sou da segunda turma, me formei em 1973. O
meu pai não admitia que tivesse na família um filho que não fosse diplomado. No Jornal de Piracicaba, quando eu
era revisor escrevia também uma coluna sobre basquete, chamava-se “Basquete
Bolando”. Naquele tempo em que mudei para Piracicaba o forte do XV era o
basquete masculino. OXV foi campeão Sul-Americano, tempo do Vlamir, Filetti,
Pecente, Zé Boquinha, Valdemar Blatkauskas que faleceu em um acidente na Rodovia Anhanguera. Os
melhores times de basquete do interior eram o XV e Franca. Em São Paulo eram o
Palmeiras e o Sírio.
Essas coisas foram acabando por quê?
Nessa época o basquete era esssencialmente amador.
Hoje é profissional, o XV tem um time de basquete, uma luta insana do Caprânico
que é o presidente e mais alguns colaboradores. A diferença de receita do
basquete do XV com relação ao Pinheiros por exemlo é muito grande. Além do
apoio oficial há também patrocinadores.
Quando encerraram as atividades da Rádio Alvorada, você ficou parado?
A Rádio Alvorada foi arrendada para uma instituição
religiosa. Fui convidado pelo Evaldo Vicente para escrever na Tribuna
Piracicabana, logo depois o Jairinho Mattos me convidou para vir trabalhar na
Rádio Educadora. Ele queria lançar um programa jornalístico, e estava
encontrando dificuldades, segundo ele me falou, em encontrar um ancora. Assim
surgiu o programa “Comentaristas da Educadora”, que já está no ar a quase oito
anos, das 12:00 às 13:30, todos os dias de segunda a sexta feira, é o programa
jornalístico de maior audiência de Piracicaba. Esse programa inicialmente
começou comigo, com Waldir Guimarães, Jairinho Mattos participava de alguns
programas, e a Eliana Teixeira. Eu era o produtor e o ancora. De três anos para
cá foi contratado Mauricio Furlan, que tem muita experiencia em rádio, hoje ele
produz o programa e eu continuo sendo o ancora, junto com Waldir Guimarães,
Jairinho Mattos tem uma participação maior agora, o Beto Godoy que está de
férias, e o Paulo Eduardo Carlin, mais o Rogério Leme que faz o noticiário
policial. Essa é a equipe que comanda atualmente o programa “Comentaristas da
Educadora”. O programa começa com o meu comentário que se chama “ A Força da
Opinião”.
Marcio você casou-se?
Fui casado com Maria de Fátima Pachani, dessa união
que durou quinze anos nasceu uma filha, Maria do Carmo, residente em Los
Angeles nos Estados Unidos, tenho uma neta, Victoria, nascida lá. Uma vez por
ano minha filha vem à Piracicaba.
Você chegou a viajar pelo mundo?
Devo conhecer pelo menos uns 30 países, em 1983 foi
realizado o Prêmio Sanyo de Radialismo, fui eleito o melhor radialista de
Piracicaba, do Interior do Estado de São Paulo, na festa de encerramento
relizada no Maksoud Plaza, envolvendo os radialistas do interior e os grandes
nomes da capital, foi feito um sorteio entre 60 agraciados, fui sorteado com uma
viagem de 30 dias para o Japão, com tudo pago pela Sanyo. Conheci o Japão
inteiro.
Você recebeu convites para trabalhar na capital?
Tive bastante convites para trabalhar em São Paulo,
nunca fui, apenas em 1978 quando teve a Copa do Mundo na Argentina, eu tinha
muita amizade com Osmar Santos e com a equipe dele, fui convidado e participei
pela Rádio Globo de São Paulo, das transmissões, da Argentina mandava os flashs
para Piracicaba e participava das transmissões da Rádio Globo. Conheço bem
Osmar Santos, estive em seu casamento, ele veio diversas vezes me visitar em
Piracicaba. Osmar Santos criou um novo modelo nas transmissões esportivas.
Você já transmitiu algum jogo sem ver a partida?
Cheguei a transmitir um jogo inteirinho, quando
cheguei a Piracicaba a transmissão não tinha ido ao ar. Isso aconteceu umas
quatro ou cinco vezes, hoje é linha dupla, naquele tempo era uma linha só, não
havia o retorno do estúdio para quem estava transmitindo.
Você acha que o rádio melhorou ou piorou?
Acho que os mais antigos radialistas ainda continuam
sendo os melhores de Piracicaba, a renovação não acompanha a mesma capacidade
de antigamente. Com raríssimas exceções a renovação no rádio não alcança a
qualidade dos antigos. O locutor de rádio precisa vender propaganda para
sobreviver, antigamente não era tanto assim. Sempre vendi propaganda, já
tivemos em Piracicaba um caso em que um gago fazia um programa, ele só não era
gago ao falar no microfone, era um bom locutor. Trabalhou comigo muitos anos.
Márcio você participou da política?
Fui vereador durante 10 anos, por duas legislaturas.
Estive na Câmara de primeiro de janeiro de 1983 a 31 de dezembro de 1992, sendo
prefeitos Adilson Maluf e José Machado. Naquele tempo o rádio elegia, hoje não
elege mais, tanto que não temos nenhum radialista na Câmara. Outras profissões
ocuparam espaço na política.
Você realizou entrevistas com personalidades políticas de expressão
nacional?
Entrevistei Laudo Natel, Mário Covas, Fernando
Henrique Cardoso, Paulo Maluf entrevistei dezenas de vezes, tive amizade com
ele por muito tempo, frequentei a casa dele na Rua Costa Rica, 146. Conheci sua
esposa, Dona Sylvia. Almocei na casa dele diversas vezes. Isso quando eu era
vereador. Ele era prefeito de São Paulo.
Você acha que o fato de ser um comunicador ao se envolver com política pode
se comprometer?
Se o tempo voltasse eu nunca teria saido candidato a
vereador. Apenas entrei porque quem me convidou foi Jairo Mattos, que é uma
pessoa integra, honesta, tanto como pessoa como político.
Você já transmitiu algo inusitado?
Transmiti velório e sepultamento do ex-prefeito
Luciano Guidotti, fiz a cobetura total. A queda do Edificio Luiz de Queiroz
(Comurba) eu e Hugo Pedro Carradore ficamos instalados na farmácia do Kalil,
localizada na Rua Prudente de Moraes, durante 15 dias fizemos a cobertura de
todos os acontecimentos.
domingo, setembro 22, 2013
EURIDES GIMENES CASAGRANDE
PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E
MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 12 de setembro de 2013.
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 12 de setembro de 2013.
Entrevista: Publicada aos sábados
no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
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ENTREVISTADA: EURIDES GIMENES CASAGRANDE
Eurides Gimenes Casagrande nasceu a 12 de agosto de
1935, no município de Piracicaba. Filha de João Domingues Gimenes Filho e Isabel
Alonso Gimenes que tiveram quatro filhos: João, Diogo,Eurides e Aparecida. Seus
avós maternos e paternos imigraram da Espanha, os paternos adquiriram uma área
com mais de 100 alqueires de terra, a uns trinta quilômetros de Piracicaba. Ela
tem paixão por animais, pela vida rural, embora resida na cidade, com sua picape
Pampa vai sozinha toda semana até o sítio de sua propriedade. Lá é recepcionada
com muita alegria pelo seu cão de estimação que sem nenhuma cerimônia
cumprimenta ao seu modo a sua amiga, entra na picape e a acompanha até a
abertura da casa da sede do sítio. Patos, pavões, galináceos, desfilam pelo
terreno. Eurides e sua família sempre levaram uma vida de muito trabalho. Aos
11 anos ela já montava em sua égua e conduzia as vacas que estavam mais
afastadas para serem ordenhadas pela sua mãe.
Conheceu seu marido quadrando jardim, um bom hábito
cultivado pela juventude da época. Os rapazes circulavam a praça central em um
sentido enquanto as moças andavam no sentido contrário. Foi assim que surgiram
muitos namoros e casamentos. Eurides foi funcionária da famosa Fábrica de
Bolachas Cacique.
Qual era a atividade principal desenvolvida
no sítio?
Era a criação de gado leiteiro.
Criavamos também animais de médio e pequeno porte, como porcos, galinhas. As
plantações eram feitas principalmente para alimentar os animais. A renda
familiar vinha da comercialização de leite, meu tio trazia os latões de leite
para a cidade com uma caminhonete velha de sua propriedade.
Com que idade a senhora começou a trabalhar
no sítio?
Eu tinha onze anos quando comecei
a ajudar a minha mãe na leiteria. Eu montava na Baia, uma égua marrom, muito mansa, para subir tinha que encostá-la
em um barranco. Ia com ela ao encontro das vacas que estavam mais distantes,
elas já sabiam que era para virem em direção a mangueira onde minha mãe as
ordenhava. Ela já era viúva, meu pai faleceu quando eu ia completar nove anos. As
vacas eram muito mansas, vaca brava minha mãe vendia. Quando minha mãe ficou
viúva tínhamos mais de trinta vacas. Às cinco horas da manhã ela já se
levantava para tirar leite.
Mesmo trabalhando a senhora ia à escola?
Estudava, a escola se chamava
Escola Mista da Fazenda Figueira. Lá só estudava-se até o terceiro ano. Minha
primeira professora foi Dona Angélica, a segunda professora foi Dona Lavínia, a terceira Maria de Lurdes Frota
Escobar, que mais tarde tornou-se minha tia ao se casar com meu tio. Nós
entravamos na classe, ninguém falava nada, a primeira coisa que fazíamos era
cantar o Hino Nacional, em pé, com a mão sobre o coração. Na parede havia um
quadro enorme com a fotografia de Getúlio Vargas.
A mãe da senhora fazia o pão que a família
consumia?
Boa parte da nossa alimentação
provinha do próprio sítio, o pão era feito em casa, a lingüiça era caseira.
Com que idade a senhora veio junto com sua
família, residir na cidade de Piracicaba?
Quando mudamos para cá eu tinha
catorze anos. Nós alugamos o sítio para um tio e viemos para a cidade, fomos
morar em uma casa alugada por nós e situada na Rua Dr. Otávio Teixeira Mendes,
no Bairro Alto. Ali eu a minha mãe fazíamos marmitas, antigamente era uma
atividade chamada “dar pensão”. A comida era separada em cinco ou seis marmitas
presas a um varal com uma alça para transportar. Muitas famílias iam buscar, ou
então eu ia levar até a casa delas. Da Rua Dr. Otávio eu ia com dois jogos de
marmitas pesadas lá perto da Igreja Bom Jesus, a pé. Com essa atividade minha
mãe ia nos mantendo. Quando ela parou com o fornecimento de marmitas eu fui
trabalhar na Fábrica de Bolachas Cacique, lá trabalharam também meu irmão e
minha irmã. A Cacique ficava na Rua Santa Cruz, sua proprietária era Dona
Augusta, que foi dona também da Padaria Vosso Pão, onde hoje se situa o
Edifício Canadá, na esquina da Rua Santo Antonio com a Rua Prudente de Moraes.
Que tipos de bolachas eram fabricadas na
Cacique?
Fazíamos as bolachas: maisena, Maria
e a água e sal. Eu ligava a máquina, a estampa ia cortando a massa, iam à
assadeira, outras duas moças colocava-as no forno que tinha de 12 a 15 metros
de comprimento, as bolachas saiam assadas na outra extremidade. Lá existiam
dois batedores, batiam em uma caixa, havia as mesas do lado onde eram
empacotadas. Trabalhei na Cacique por uns dois anos, uma semana eu trabalhava
das cinco horas da manhã até uma e meia da tarde. Na semana seguinte da uma e
meia da tarde até as dez horas da noite. Minha mãe me colocou em uma escola de
costura situada próxima ao Líder Bar, na Rua Governador Pedro de Toledo. As
aulas eram após o almoço, começava a uma hora da tarde, existiam mesas grandes,
as professoras ensinavam a fazer o molde, cortar, tirar as medidas.
A senhora costurava qualquer tipo
de roupa?
Só costurava roupas femininas. Eu
tirava a medida, pegava o pano, fazia o molde, cortava e costurava. Usava-se
muito tecido de algodão, tafetá (Tafetá é um tecido fino e acetinado feito de
seda). Comecei a trabalhar em casa, minha
mãe tinha uma máquina de costura Singer, para funcionar tinha um pedal que
transmitia a força dos pés para uma correia e movimentava a máquina. Costurei
mais para as pessoas de casa, parentes, amigas.
Aos 16 anos conheci José Erasmo Casagrande. Antes de
completar 19 anos nos casamos, foi no dia 25 de julho de 1953. O casamento foi
realizado na Igreja Bom Jesus pelo Padre Martinho Salgot. No tempo em que eu
namorava às 10 horas da noite tinha que estar dentro de casa, a cavalaria
(soldados montados a cavalo) andava pelo bairro inteiro. Eles davam “um
pega”, ficavam bravos, com quem
estivesse na rua depois de 10 horas da noite. A cidade parava, tinha muitos
cavalarianos, e impunham respeito. Quando eu morava no Bairro Alto na Rua
Moraes Barros esquina com a Rua Visconde do Rio Branco havia a sorveteria do
Seu Florindo, era só lá que pegávamos sorvetes.
Qual era a profissão do seu marido?
Era pedreiro. Casamos e fomos morar na Rua XV de
Novembro, um pouco acima do Cemitério da Saudade. Na época não havia muitas
casas naquela região, havia muitas chácaras. Residimos ali por uns três anos,
nessa casa nasceu a minha filha Sonia. Continuamos morando na mesma rua, mas
mais abaixo, onde nasceu o nosso filho Celso, voltei a morar na Rua São José,
próximo a Igreja Bom Jesus, passado uns tempos, meu sogro nos deu um casarão
situado na Rua Moraes Barros, após passar o cemitério. Era conhecido como
Bairro Casagrande, tinha muitas famílias com o sobrenome Casagrande. Lá eu tive
minha filha Sandra. Para nos locomovermos usávamos o ônibus que passava em
frente ao cemitério.
A senhora trabalhava na época?
Por três anos fui proprietária do Bar Furlan, situado na
Rua XV de Novembro, tinha boche, as bolas eram feitas de madeira, mais tarde
que vieram as bolas de massa. ( Ou bocha, consiste em
lançar bochas (bolas) e situá-las o mais
perto possível de um bolim (bola pequena), previamente lançado. O adversário por sua vez,
tentará situar as suas bolas mais perto ainda do bolim, ou "remover"
as bolas dos seus oponentes).
Esse bar existe até hoje. Eu fazia polenta com frango para a turma de boche
quando faziam torneio. Também fazia os salgados que eram vendidos no bar. A
noite era meu marido quem tomava conta do bar. A nossa casa era junto ao bar. Em
1969 vendi o bar e fui morar na Avenida Dona Jane Conceição esquina com a Rua
da Palma, na Paulista. Eu ia de ônibus até São Pedro, pegava malas de tecido
com o bordado riscado, bordava, levava de volta para São Pedro. Bordava só o
Ponto Rococó. Por uns cinco anos eu exerci essa atividade.
Qual foi a sua próxima atividade?
Fui limpar casa, fui ser faxineira. Limpava para a minha
tia Araci Gimenes, irmã do meu pai, casada com Otávio Sturion, ele e seus
irmãos Ermelindo e Mário eram os proprietários da Casa Três Irmãos. Permaneci
nesse trabalho por um ano aproximadamente. Meu filho Celso começou a trabalhar com onze
anos. Eu comprava leite, e ele ia vender até a Escola Nossa Senhora da
Assunção. Comprei um carrinho de mão, verdinho, guardo até hoje no sítio os
engradados aonde iam os litros com a tampa de plástico. Eu enchia os litros de
leite, tampava e ele ia vender. Meu irmão trazia o leite, eu comprava dele.
Depois a fiscalização não permitiu mais a venda de leite em via pública. Só
podia ser vendido leite pasteurizado.
O que a senhora fez?
Fui até uma horta de propriedade do Seu Inácio, situada
no Bairro Jaraguá, eu comprava canteiro
de verduras, Seu Inácio cortava, fazia os maços de verdura e o meu filho Celso
ia, enchia o carrinho de verdura, e fazia o mesmo percurso, até a Escola
Assunção. Tenho até hoje uma cadernetinha que o Celso marcava o nome do freguês
para quem ele vendia fiado, quanto era o lucro, quanto eu tinha que pagar para
o Seu Inácio no dia seguinte, ele fazia essa contabilidade na rua, chegava e
dizia: “Está aqui mãe, o dinheiro. Este daqui é da senhora, esse outro é para
pagar o Seu Inácio”. A noite ele
estudava na Escola Estadual Professor Alcides
Guidetti Zagatto.
Minha filha Sonia foi trabalhar na Padaria Suiça do meu tio Francisco Castilho,
vivo até hoje, com 104 anos. A minha outra filha, alguns anos depois, aos 14
anos foi trabalhar em um pequeno escritório, em seguida foi trabalhar na famosa
Casa Raya, de material esportivo. Meus três filhos sempre estudaram em escola
pública, e os três concluiram o curso superior de Administração de Empresas.
Atualmente a senhora é proprietária de um sítio?
Herdei um sítio do meu pai. Quando meu avô Gimenes
repartiu a fazenda com os filhos, a parte do meu pai ficou com a minha mãe. Ela
dividiu para os quatro filhos.
Quando a senhora era mocinha qual era a sua forma de lazer?
Na época era habito das moças e rapazes quadrar o
jardim. Frequentava muito pouco o cinema.
A senhora segue alguma religião?
Sou Católica Apostólica Romana. Frequentava as
Igrejas Bom Jesus, Catedral, dos Frades, São José.
A senhora chegou a usar véu durante a missa?
Para comungar se fosse solteira usava véu branco na
cabeça, e se fosse casada usava véu preto.
A senhora gostava de ouvir rádio?
Gostava muito do Atinilo José. Lembro-me até hoje
quando o radialista Ary Pedroso terminava o seu programa dizia: “- Obrigado
Senhor! Para todos que tem um lar para voltar!”.
No ponto de vista da senhora as mudanças de comportamento ocorridas nesses
anos foram melhores ou piores?
Acho que as mudanças ocorridas no relacionamento humano
pioraram muito. Hoje temos muito mais ofertas de bens materiais do que naquela
época, Tudo era meio esticado, para tomar um refrigerante só em ocasiões muito
especiais, como casamentos, batizados, Natal. Não existia geladeira. Minha mãe
matava um porco, passava o dia inteiro picando. Fritava todos os pedaços no
fogão a lenha, pegava latas de 20 litros que tinham sido usadas para o
transporte de querosene, lavava-as muito bem, conforme ia fritando com toda a
gordura despejava, enchia de duas a três latas com carne, torresmo, gordura.
Elas tinham um aro, eram tampadas as bocas das
latas com um pano preso pelo aro. Amarrava uma tira de pano, na madeira
do telhado havia um gancho, as latas ficavam dependuradas lá, livres de insetos
ou roedores. Cada vez que ia almoçar ou jantar, ela pegava a lata, esquentava
aquela carne, aquilo era a “mistura” (acompanhamento) da refeição. A outra
opção era fritar um ovo. Meus filhos Sonia e Celso iam assistir televisão no
vizinho, o famoso “televizinho”, eles iam a um bar de propriedade da Dona
Helena e do Seu Pedro, isso no Bairro Alto. Eles perguntavam-me: “- Mãe! Posso
ir na Dona Helena assistir televisão?”. Eu os deixava irem.
O marido da senhora chegou a ter automóvel?
O primeiro carro ele adquiriu de um cunhado que morava em
São Caetano, era um Buick, depois ele teve um DKW, mais tarde um Fusca
(Volkswagen sedã). Eu tinha quase quarenta anos quando tirei carta
(habilitação) de motorista. Meu marido comprou uma Belina I, mais tarde uma
caminhonete, vendemos o sítio e adquirimos outro mais próximo da cidade, a uns
15 quilômetros, são nove alqueires de terras no bairro rural da Água Bonita.
Compramos já faz 20 anos. Nessa época adquirimos uma caminhonete Pampa. Quando
meu marido era vivo nós tínhamos gado, tratava no cocho. Depois que ele faleceu
a 19 de agosto de 2005. vendi tudo. Gado, cavalos.
A senhora dirige até hoje?
Dirijo, vou sozinha, eu e Deus.
E se furar um pneu?
Levo meu celular, ligo para meus filhos. Se eu me
esquecer de ligar dizendo que já cheguei, meus filhos já ligam para saber. Eles
cuidam muito de mim. Essa educação, esse carinho, reflete na formação dos meus
sete netos, que me chamam de mãe-avó. O que me ajudou a vencer todas as
dificuldades foi a minha fé e os meus filhos.
Seus filhos nasceram em hospital?
A Sonia e o Celso nasceram em casa, com auxilio de
parteira, a Sandra nasceu na Santa Casa de Misericórdia de Piracicaba, o médico
foi o Dr. Matheus. Na época era costume ter os filhos em casa. Havia o
resguardo de 40 dias após o parto. Não usei fralda descartável para nenhum dos
meus filhos. Eu comprava o tecido e fazia as fraldas, fazia a bainha a maquina
em todas. Existia a calça plástica. Até os netos mais velhos não usaram fraldas
descartáveis.
O que a senhora vê no sítio que acha tão bom?
Gosto de ir lá ver, tenho um cachorro no sítio, o Tufão,
toda vez que chego ele quer me abraçar, abro a porta da caminhonete ele sobe,
me cheira, morde devagarzinho a minha mão. Enquanto não vou abrir a minha casa
ele não para de pular e chamar a atenção. Depois do almoço, deito no sofá ele
deita no tapete,dorme, chega a roncar. No sitio tenho galinha, pavão, ganso,
pato, peru, cordeira, carneiro. Arco-Íris é o nome de um dos pavões, é um pavão
raro, tem penas de todas as cores, inclusive brancas. Outro pavão é o Pitu.
A senhora abate os animais?
No meu sítio eles morrem de morte natural.
JOSÉ TIBUTINO DE SOUZA
PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E
MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 07 de setembro de 2013.
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 07 de setembro de 2013.
Entrevista: Publicada aos sábados
na Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
ENTREVISTADO: JOSÉ TIBUTINO DE SOUZA
Piracicaba criou uma tradição no
setor sucroalcooleiro, principalmente na metalúrgica
voltada a essa atividade. Por muito tempo o setor metalúrgico foi uma das
grandes molas propulsoras do desenvolvimento da cidade. Com isso criou um nome
muito forte e respeitado em todo o país e fora dele. O Brasil, país de extensão
continental, tem regiões onde o desenvolvimento é até hoje bastante precário, a
massa humana, principalmente os mais arrojados, se deslocam de uma região para
outra. Muitos sem o mínimo conhecimento necessário, para exercer qualquer tipo
de atividade dentro de uma indústria. Graças a sua determinação, conseguem com
muito esforço vencer os obstáculos a principio intransponíveis. José Tibutino
de Souza, é um exemplo vivo de que pode-se vencer com a força do trabalho. Nascido a 10 de dezembro de 1930
em Juru, município do estado da Paraíba, filho
de Antonio Tibutino de Souza e Maria Idalina da Conceição que tiveram tres
filhos. Viuvo, Antonio casou-se com Francisca Idalina da Conceição, irmã de Maria
Idalina, com quem teve quase uma dezena de filhos. Até os 22 anos José Tibutino
trabalhou na agricultura de algodão, com o advento de pragas, o algodão perdeu
sua produtividade.
O senhor saiu de Juru e foi para
qual localidade?
Naqquele tempo tinha esse negócio de
trazer peão de lá para cá, geralmente iam para o Mato Grosso. Arrumavam um
caminhão, o “Pau-de-Arara”. Um tio meu juntou uma turma e de “Pau-de
Arara”,viemos até o Ceará. Seguimos para Juazeiro, na Bahia, onde ficamos
hospedados em um barracão. A prefeitura fornecia alimentação. Lá permanecemos
esperando alguma condução. O meu destino era vir para São Paulo. Tomamos um
trem da Central do Brasil e viemos até Minas Gerais, em Teofilo Otoni
permanecemos por mais uns quinze dias. Eram vagões especiais, destinados só para
migrantes. Chegamos a São Paulo de trem, na Estação do Norte , no Brás. De São
Paulo fui para Presidente Prudente, trabalhar emuma lavoura de hortelã, cuja
finalidade era produzir óleo. Fui pensando
que não iria trabalhar na enxada, nunca gostei de trabalhar na enxada.
Permaneci por dois meses lá e vim para Piracicaba.
Porque o senhor escolheu Piracicaba?
Eu tinha um irmão aqui, o Moisés e meu
tio, João Nobre que ocupou um posto elevado na Guarda Civil. Cheguei em
Piracicaba em 1952, vim de Ourinhos para cá pela Estrada de Ferro Sorocabana.
Peguei um biriba (taxi) e fui até uma pensão na Vila Rezende, onde meu irmão
morava.
O senhor arrumou algum trabalho?
Eu não sabia fazer nada. Através da
minha tia, fui apresentado ao Luizinho, funcionário da Dedini. Após tirar a
carteira de saúde fui trabalhar na Indústria Dedini. Iniciei na caldeiraria
como ajudante, meu chefe era o Bergamim, que queria que eu trabahasse como
mçariqueiro. Após algum tempo, fiquei sabendo pelos comentários dos colegas,
que a melhor função era a de soldador,
tinha oportunidades de viajar. Ganhava um salário maior. Coloquei como objetivo
o de ser soldador.
O senhor sentiu algum tipo de
preconceito contra pessoas que vinham do norte do país?
Na época tinha demais. Eu não
ligava, levava na esportiva, trazia costumes e linguajar próprios da minha
terra, era conhecido como Paraiba. Eu tinha 22 anos, queria vencer na vida. Por
cinco meses trabalhei como ajudante. Tinha levado nesse período duas
suspensões, porque pegava algum serviço de solda sem o conhecimento do Bergamim. Na terceira vez, acabei me desentendendo
com o Bergamim. Deixei o emprego. Passando perto do Clube Atlético Piracicabano
tinha uma caldeiraria, a Motocana. Eram umas quatro horas da tarde de uma sexta
feira. Perguntei se não estavam precisando de um soldador. Pergutaram em que
empresa tinha trabalhado, quando disse que foi na Dedini, como soldador,
imediatamente fui aceito. Disseram-me que tinha um serviço na Usina São
Martinho, em Ribeirão Preto, mandaram que eu voltasse na segunda-feira, com
minha mala de viagem. Na segunda-feira de madrugada eu já estava lá com a mala.
Quando cheguei na Usina São Marinho, vi que havia uma reforma grande sendo
feita. No momento em que chegeui era uma fase em que estavam usando mais o
maçarico do que a solda e de maçarico eu era bom. Quando chegou a hora da
solda, o chefe era um pernambucano chamado Benicio, naquela época a cana era presa
ao caminhão por cabos de aço, e na ponta eram soldadas ponteiras de latão. Seu
Benício me disse: “-Após o horário de expediente, você quer pegar esse
trabalho?”. Aceitei na hora. Eu ficava até as dez, onze horas da noite para
soldar aquilo. Quando começou a parte de solda para valer, SeuBenicio me chamou
e disse: “ Olha Paraiba, soldador você não é! Mas como você é esforçado, vou te
dar uma chance, vou mandar vir um soldador, e você vai acompanhá-lo. Tive tanta
sorte que o soldador que foi para lá era meu conhecido, era o Toninho Zéfundo. Permaneci
por onze meses na Usina São Martinho. O soldador mandava eu dar o primeiro
passo na solda, ele dava o segundo. Ai eu aprendi a soldar. Quando voltei à
Piracicaba, fui trabalhar em Carioba, na Companhia de Força e Luz. Estavam
precisando de soldador, eu não tinha carteira profissional, na época podia
trabalhar sem carteira profissional. Fiz
um teste, usei o eletrodo 5-P, fui provado. Já com carteira profissional,
registrado. Alguns funcionários que trabalhavam lá eram de São Paulo, me
incentivaram a ir para lá, diziam que lá em São Paulo eu poderia arrumar um
serviço melhor. Fui trabalhar em São Caetano. Foi uma decepeção, permaneci por
quase um ano trabalhando em um lugar com poucas com poucas condições. O lado
bom é que conheci São Paulo. Morava em São Caetano mas trabalhava em Osasco,
São Bernardo. De lá fui trabalhar na Fichet, situada em Santo André. Trabalhava
em montagens em todos os lugares.
O senhor conheceu sua esposa em
Piraicaba?
Em 28 de fevereiro 1960 decidi me
casar, casamos em Piracicaba, na Matriz de Santo Antonio. Eu a conhecia, nós quadravamos o jardim em
Piracicaba. Fomos morar em Piritituba. Eu trabalhava em uma firma no Bom
Retiro, essa empresa estava mudando-se para Cumbica. Foi no período em em que
Brasilia estava sendo construida, tinha muito serviço em São Paulo. Em Santo
André a Mannesmann fabricou grande parte dos postes
de luz de Brasilia, passei a trabalhar lá como soldador. Eu já tinha me
especializado. Da Mannesmann fui trabalhar como terceirizado na Petrobrás em
Capuava, Santo André. Ali soldava
tubulações, depois chegou a solda em aço inoxidável fiz alguns curso de
soldagem passei a soldar com argônio,
aluminio. As coisa melhoraram. Em 1961 nasceu a minha primeira filha. Em
empresas contratadas trabalhei na Sambra, na Liquigáz, comprei um terreno e fiz
uma casinha em Pirituba. Eu sempre vinha a Piracicaba, na época eu tinha um
automóvel Volkswagen. Em uma dessas vezes quando voltei para SãoPaulo,tinha
chovido muito e a água inundou a minha casa. Decidi mudar. Apareceu um
loteamento próximo ao Pico do Jaraguá, ali comprei um terreno. Contratei um
pedreiro e também trabalhei na construção da minha casa. Ali morei mais de 10
anos.
Quando o senhor voltou a Piracicaba para morar definitivamente?
Foi em 2002. Eu já estava aposentado. Comprei uma
casa antiga no centro de Piracicaba, a minha esposa não queria nem ver, de tão
ruim que estava a casa. Derrubei a casa antiga e fiquei um ano construindo uma
nova casa. Eu estava com 70 anos, hoje,2013, estou com 83. Esses dias choveu
muito, entortou a antena parabólica, esperei secar o telhado, subi e endireitei
a antena.
Com 83 anos o senhor subiu no telhado da sua casa para fazer reparos?
Além da antena parabólica, troquei umas telhas que a
chuva tinha danificado. O unico problema de saúde que estou tendo é um gripe
muito forte.
O senhor dirige veiculos ainda?
Dirijo, a renovação da carteira de motorista é feita a
cada três anos.
O senhor pratica algum esporte?
Meu esporte é trabalhar. Sempre gostei de trabalhar com
soldagem.
Qual é a diferença da solda normal para a solda de
alumínio?
Além do material utilizado para soldagem, o argônio, tem
que ter uma mão muito firme.
Atualmente o soldador usa equipamentos de segurança e
proteção, isso já existia quando o senhor começou a trabalhar?
No inicio não usava nada, não sabia, ninguém me
orientava. Quando entrei no Dedini nunca tinha visto isso. Quando me queimava
saia correndo.
Tanques de combustíveis, de grande porte, o senhor
soldava?
Em uma ocasião fui soldar um tanque em Ribeirão Preto,
ele tinha 10 metros de altura. Por uma abertura entrava no tanque, a cada duas
horas saía de lá de dentro com a roupa encharcada de suor, o sapatão tinha que ficar em cima de uma
tábua, isso a noite, durante o dia parecia que do teto saia fogo de tanto
calor.
Tanque de transporte de combustíveis em caminhão o senhor
soldou?
Soldei em Limeira, trabalhei em uma fábrica de tanques de
transporte de combustíveis. Um tanque tem três repartições dentro, em cima só
tem a boca de entrada, trabalhava dentro, onde não dá para ficar em pé.
Soldar tanque de combustível que já foi usado para o
transporte, não é perigoso?
É perigoso explodir. Tem que deixá-lo cheio de água por
bastante tempo, depois tira-la e fazer o serviço. Primeiro tem que ser bem
lavado. O ideal é soldar o tanque usado cheio de água. Se a solda for no fundo,
vira-lo. A água ocupa o espaço onde ficaria o gás residual do combustível
transportado.
O senhor trabalhou em Brasília?
Trabalhei com a Liquigás, fazendo os encanamentos de gás
para os apartamentos funcionais, de propriedade do governo federal. Trabalhei
no Eixo, isso foi na década de 70. O cano que foi colocado era de meia
polegada, de ferro. As curvas feitas no cano para passar da sala para a cozinha
eram feitas a mão. Um serviço de qualidade duvidosa. Eram canos que conduziam
gás, e que com o passar do tempo iriam enferrujar. E nós tínhamos que soldar, o
que aumentava o risco de no futuro ocorrer problemas s´rios de vazamentos.
Não é muito arriscado usar cano de ferro para conduzir
gás?
O correto é usar cano de cobre.
Chuveiro a gás é seguro?
Pessoalmente não acho prático. Levam uns 20 minutos para
poder aquecer a água, ou esquenta demais ou de menos. Não tenho paciência de
ficar regulando a temperatura ideal.
O senhor chegou a trabalhar a solda com carbureto?
A solda a carbureto tem um botijão de oxigênio e o
carbureto que dá a chama. (O Carbureto de Cálcio aplicado em geradores
apropriados reage com água, produzindo o acetileno que quando combinado com
oxigênio, proporciona uma chama quente). Na Petrobras, quando íamos soldar um
tubo era colocado um produto que produzia um ar a baixa temperatura,
internamente, mesmo fazendo a solda por fora do tubo, internamente não ficava nenhuma
rebarba, a superfície interna do tubo, onde foi soldada, ficava totalmente
lisa.
Qual é a solda mais resistente
que existe?
Quem faz a solda ficar mais ou
menos resistente é o soldador. Todas são resistentes, o importante é como a
superfície foi preparada para receber a solda, como essa soldagem foi
realizada. Se não tiver uniformidade na solda, fica um buraco, ali ela perde a
resistência e quebra. Por isso existe um exame de Raio –X em determinadas peças
que foram soldadas, se existir algum ponto fraco, nesse exame aparece.
O senhor como pessoa nascida no
nordeste, experiente, consegue responder por que até hoje o nordeste não
resolveu o problema da seca?
Não há empenho de fato em resolver. Falta orientação,
educação para o povo.
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