Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

sexta-feira, agosto 21, 2015

HILÁRIO LUCCAS



PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 1 de agosto de 2015.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/




ENTREVISTADO: HILÁRIO LUCCAS

Hilário Luccas fará 98 anos no próximo dia 30, nasceu a 30 de agosto de 1917, no bairro rural dos Marins, Município de Piracicaba. É um dos 14 filhos de Thomaz Luccas e Maria Corpas, nascida na Espanha, ela veio para o Brasil em decorrência da Guerra Espanhola de 1924. Hilário estudou até a quarta série primária, junto com seu irmão Antonio iam a pé da sua casa até o grupo escolar, uma distância de dois quilômetros. É pai de Cassia Maria Luccas Cruz. Um fato curioso é que por três vezes os pais de Hilário tiveram filhos gêmeos, sendo que Hilário e Antonio eram gêmeos idênticos. Hilário tem três netos e dois bisnetos. Ele faz parte de um recanto chamado Banco da Amizade, é quem limpa, cuida, onde se reúnem os amigos para uma confraternização regular. Sábado pela manhã, ás seis horas da manhã ele está lavando tudo. Fazem churrasco, fritam peixes, ele participa de tudo. Hilário sempre andou muito de bicicleta, uma da marca Philips, que conserva até hoje. O Então presidente do XV de Novembro de Piracicaba, Beltrame, esteve na casa de Hilário na data do seu aniversário, deu-lhe de presente uma camisa o E.C. XV de Novembro com o nome Hilário Luccas.




Cassia , a senhora e seu marido foram fazer uma visita ao cemitério e ocorreu um fato diferente?
Ao chegarmos, tinha um senhor limpando um túmulo em frente ao túmulo da nossa família. Ele então narrou um fato que havia ocorrido com ele e que o deixou muito chocado. Segundo narrou: “Eu estava fazendo uma visitinha ao túmulo desse senhor, acho uma gracinha ele com seu chapeuzinho, fazendo minha oração por ele, percebi que chegou ao meu lado uma pessoa, quando olhei era a mesma pessoa que estava sepultada, levei um grande susto, achei que era o próprio falecido”. Era Hilário, seu irmão gêmeo! Isso ocorreu há uns dois ou três anos.
O senhor tinha parente residindo no bairro dos Marins?
Nós morávamos em uma casa pequena, meu tio Nicolau, era casado com a irmã do meu pai, chamava-se Dona Emília. Eles tinham uma casa maior, na frente, ali foram realizados muitos casamentos da família. Depois viemos morar na cidade de Piracicaba
no Bairro Alto, na Rua São João, perto do campo do União São João. Dali fomos morar em frente ao Campo do Palmeirinha.
Com quantos anos o senhor começou a trabalhar?
A partir de uns dez anos eu sempre trabalhei. Vendia banana, vendia tudo que aparecia pela frente. O dinheiro que resultava das vendas eu entregava para a minha mãe. Naquele tempo tinha muitas frutas para comprar e vender pelas ruas. Tinha muitas feiras pelas ruas, hoje não existe mais, atualmente há os feirões. De lá da “Capelinha”, situada lá em cima, no Bairro Alto, viemos morar na Rua Vergueiro. Ali morava Benedito Teixeira, advogado, excelente pessoa. Aos treze anos fui trabalhar com o Miro Pinassi, ele era sapateiro, tinha um estabelecimento em frente a Fábrica de Tecido Boyes, Naquela época sapateiro não trabalhava no dia de São Crispim. Eu estava parado, na porta da sapataria, o gerente da Fábrica Boyes, Seu Ernesto, convidou-me para trabalhar na Boyes. Isso foi em 1932, tempo em que Getulio Vargas estava no poder. Naquele tempo ao redor da Ponte do Mirante era só mato. Chico Campeiro era o contramestre da seção. José Tosello era enfermeiro da fábrica. Fui trabalhar como servente de pedreiro, dentro da Fábrica Boyes. Trabalhei como servente de pedreiro na construção das casas da Vila Boyes. Trabalhava com carroça e burro. Eu era mocinho, devia ter uns vinte anos. Quando concluímos as casas voltamos para a fábrica onde construímos o terceiro prédio. Trabalhávamos com carroça e burro. Aonde eu ia o burro “Pinhão” ia atrás de mim. Eu tratava bem dele.
Há um desvio de água do Rio Piracicaba junto a Fábrica Boyes, já havia naquela época?
Aquele córrego eu ajudei a fazer o alicerce, da fábrica até a comporta. Fazia a caixa de madeira dos dois lados e depois enchia de cimento. Sempre fui trabalhador, não parava de trabalhar. Depois fui trabalhar na fábrica, na sala de pano.

Quem era o chefe geral da fábrica?
Era o Boyes! Inclusive quando estourou uma guerra seu filho queria ir servir, era piloto de avião de guerra. No segundo dia em que ele estava na frente de combate foi morto.
Quantos funcionários trabalhavam na Boyes?
Quando entrei na fábrica tinha 40 operários. A medida que foi ampliando o prédio também aumentou o número de funcionários, chegando a ter mais de 1.000. Esse canal que desviava água movia uma usina de energia que distribuía para a fábrica inteira.
Quanto tempo o senhor trabalhou na Boyes?
Fiquei 43 anos. A Boyes recebia o algodão com caroço, em frente à fábrica tinha um depósito, ali ficavam os fardos de algodão bruto. A máquina tirava o caroço, que era vendido, com o algodão, fazia o fio.
O senhor morava em que local nessa época?
Contando  local onde eu resido atualmente morei em cinco lugares diferentes. Minha esposa já é falecida, seu nome é Leonilda Lazaretto, eu a conhecia desde criança, é filha de Romeu Lazaretto. Casamo-nos na Igreja Imaculada Conceição, o celebrante foi o Monsenhor Gallo.
                                                        LEONILDA E HILÁRIO
O senhor gostava de jogar futebol?
Joguei no Infantil XV de Novembro, no Juvenil XV de Novembro e depois vim jogar no Sucrerie. Eu era bom de futebol, o Baltazar, “Cabecinha de Ouro”, dizia que era um absurdo eu jogar bola como jogava e muitos ganhando um dinheirão enquanto eu precisava pagar para jogar. (Despesas normais com uniforme). Eu jogava como meia-direita.
Passava boi por aqui?
Naquele tempo passava muita boiada, o cavaleiro ia com o berrante tocando, e a boiada ia toda atrás. Ia para o matadouro.
O Mirante do Rio Piracicaba era diferente?
Quem remodelou o Mirante foi o prefeito Dr. Francisco Salgot Castillon. Antigamente existia um varão de ferro que ia do inicio do Mirante até o Engenho Central, na Rua Maria Maniero.
O senhor atravessou o Rio Piracicaba?
Eu tinha dois botes e um motor, aos sábados meu irmão Thomaz e eu pegávamos o bote que ficava no Asylo ( Lar dos Velhinhos), ia até Caiuby depois as 4 e meia, cinco horas da tarde descíamos pescando. Usávamos um motor 7e 1/2, Johnson. Naquele tempo trazíamos o motor nas costas, do Lar dos Velhinhos até as imediações do Mirante, onde se situava nossa casa. Hoje só jogo um truque (ou truco) com os amigos, tenho sete medalhas de campeão de truco. 

O senhor lembra-se do bonde?
Lembro-me sim! O meu cunhado Luiz Angelocci era chefe de bonde. No sentido centro-bairro, o bonde quando chegava ao final da ponte sobre o Rio Piracicaba virava a direita, ao lado direito havia uma farmácia, a esquina era do Chico D`Abronzo, ele tinha uma venda, mais abaixo era do filho dele, o Xandrico e ao lado esquerdo um sobrado.
O senhor chegou a conhecer a fábrica de aguardente Tatuzinho?
Bem em frente a fabrica da Tatuzinho, o Humberto D`Abronzo fez um túnel atravessando a Avenida Rui Barbosa, o vasilhame vazio passava pelo túnel, enchia de aguardente e depois voltava para a expedição, onde estacionavam os caminhões já aguardando as garrafas cheias.
O senhor conheceu a Dra. Ana D` Àbronzo?
Gente queridíssima! Eu ia Restaurante do Papini, comer frango com polenta. Jogava boche. Nós jogávamos disputando frango mandava o Papini fazer e comíamos. O dono dos frangos junto conosco. Acabávamos de comer, dizíamos: “-Você sabe de uma coisa? Esse frango tem um gosto de fulano, que era o dono do frango!”. Os frangos eram todos da casa dele. A turma do boche tinha trazido os frangos de lá. Cozinharam o frango, convidaram ele para vir comer e ele veio.
O senhor conheceu Dona Gigeta, do Restaurante Papini?
Conheci, fazia pastéis que eram uma maravilha! Conheci muito o “Joane Vassoureiro”, Giovanni Ferrazzo que mais tarde mudou-se para a Paulista onde passou a fabricar as vasouras “Cantagalo”. Na Vila ele fabricava as vassouras de marca “Elefante”. Onde é o hospital dos Plantadores de Cana, antigamente o terreno era encharcado. O pessoal do Engenho Central ia plantar cana de açúcar, Ali tinha muitos pintassilgos, paca capim.
Havia uma rivalidade entre o os jovens moradores na Vila Rezende e os moradores de outros bairros além da ponte?
Havia e era levada a sério! O pessoal da Vila Rezende não podia ir para a “cidade” e o pessoal da “cidade” não podia vir até a Vila Rezende. Eu tinha uma grande vantagem, pelo fato de ser bom jogador de futebol peguei muita amizade com essa turma da cidade. Havia um cartório logo no inicio da Avenida Rui Barbosa, eles me disseram que iriam me apresentar ao pessoal da Sucrerie para jogar pelo time deles. Foi assim que passei a jogar defendendo as cores do Sucrerie. Onde hoje há um posto de gasolina, na Rua Maria Maniero, esquina com a Avenida Barão de Serra Negra, havia um moinho de fubá. Existiam duas linhas de trem, a da Estrada de Ferro Sorocabana e a do Engenho Central, que transportava cana de açúcar. Quando o trem cruzava a Avenida Barão de Serra Negra, na cabeceira da ponte tinha uma cancela com uma tabuleta que impedia o transito de veículos dando passagem ao trem. As locomotivas do Engenho Central eram fabricadas em Piracicaba pelo gênio da mecânica João Bottene.
O senhor conheceu o Dr. Samuel Neves?
Conheci muito. Uma ocasião fomos mordidos por cachorro louco, ele que nos tratou. Naquele tempo havia muitos cães pelas ruas, era o tempo em que a Prefeitura Municipal pegava cachorro com rede pelas vias publicas.
Além de esporte o que mais o senhor gostava de fazer como diversão?
Gostava muito de dançar, onde tivesse baile eu ia. Na Vila Rezende tinha bailes no Clube Atlético, no Grêmio da Cooperativa.
                        ENCHENTE RUA DO PORTO DIA 24 DE FEVEREIRO DE 1970
Quando falecia alguém onde era o sepultamento?
Era no Cemitério da Saudade. O caixão com o corpo era levado a pé, da Vila Rezende até o cemitério. Subia-se a Rua Moraes Barros, o comércio fechava as suas portas em sinal de respeito quando passava o féretro. Os acompanhantes iam de terno, com o calor, o peso. Não era fácil. Andava um quarteirão e ia trocando quem carregava a urna com o falecido. Um enterro levava no mínimo três horas de percurso.
A Avenida Rui Barbosa era bem diferente?
Quando vim morar na Vila Rezende a Avenida Rui Barbosa era chão de terra.
O senhor conheceu Mário Areas Witier, o Mário da Baronesa?
Conheci! Brincava com o Mário, com sua mãe, tinha uns negros que trabalhavam lá também. Conheci a Baronesa de Rezende, era uma boa mulher. Naquele tempo meu pai conseguiu terreno para plantar batatinha em uma parte do terreno pertencente a Baronesa. A casa da Baronesa era em frente ao Engenho Central. Nós íamos até apanhar frutas lá, lembro-me que tinha uns pés de jaca. Aqui era tudo chão de terra, do Engenho Central adiante era plantação de algodão. Em frente ao jardim da Vila Rezende havia um cinema, pertencia ao Atlético Clube.

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