Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

sábado, julho 09, 2016

VALDIZA MARIA CAPRANICO

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 25 de junho de 2016.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADA: VALDIZA MARIA CAPRANICO


                                                         
Valdiza Maria Capranico nasceu em Piracicaba a 29 de julho é filha de Dante Luiz Capranico e Ermida Françoso Capranico que foram os pais de quatro filhas: Maria Wally, Walda Aparecida, Valdiza e Waldizete Maria. Ainda residente no Bairro Alto estudou o primário no Grupo Escolar Dr. Alfredo Cardoso. O ginásio e o colegial estudou no Instituto de Educação Sud Mennucci. Iniciou a Faculdade de Ciências Biológicas em São Paulo concluindo o curso em Santos.  Na cidade de Machado, em Minas Gerais fez o curso de complementação em biologia na Faculdade Sul Mineira de Educação.
Você trabalhou na área de educação?
Por 26 anos trabalhei com Educação, na área de Biologia. Quando me formei a denominação do curso era Ciências Biológicas. Em Santos, fiz o magistério no Instituto de Educação Canadá.
O que a levou a estudar em Santos?
Tive parentes que moravam lá, eram meus padrinhos. Era o irmão do meu pai e sua esposa. Eu fazia a faculdade a noite e o magistério a tarde. Na época Santos era uma cidade muito tranqüila, muito sossegada, essa calmaria era quebrada aos finais de semana e nas férias escolares. Período em que a cidade era freqüentada por muitos turistas.
Depois de formada você retornou a Piracicaba?
Trabalhei como professora de ciências e biologia durante dez anos na cidade vizinha de Santa Bárbara d'Oeste, no Instituto Emílio Romi e no Ginásio Ulisses Valente. Viajava todos os dias de Piracicaba até Santa Bárbara d'Oeste.  Após dez anos sem ter havido concurso na rede estadual de ensino, surgiu um concurso, prestei, fui aprovada e fui lecionar em Leme. Trabalhei no Instituto de Educação Newton Prado no período de oito anos. Voltei à Piracicaba e lecionei na Escola Técnica Estadual Cel. Fernando Febeliano da Costa.onde permaneci por cerca de cinco anos e aposentei-me, como professora de biologia.
Como surgiu a sua relação com o meio ambiente em Piracicaba?
Depois de aposentar-me fui convidada para trabalhar na área de meio ambiente na Prefeitura Municipal de Piracicaba, na Secretaria do Meio Ambiente. Na época o prefeito era José Machado. Trabalhei por quatro anos como assessora do secretário Izio Barbosa de Oliveira. Depois disso nunca mais parei de trabalhar na área de Educação Ambiental.
O seu trabalho na Secretaria Ambiental era mais burocrático ou prático?
Era trabalho de campo. Fui trabalhar na área de arborização urbana.
Como funcionava a arborização urbana?
Inicialmente coletávamos sementes de árvores de Piracicaba e região para o viveiro municipal
Essas sementes eram coletadas em que local?
Até dentro da própria cidade! Tinha uma equipe que sabia a época certa da coleta, coletávamos de espécies das beiras dos rios, da mata nativa, tive muito apoio do pessoal do Departamento de Ciências Florestais da ESALQ.
Essa coleta é feita de que forma?
Através de um equipamento muito simples, dão uma chacoalhada nos galhos da árvore, as sementes caem. Eles recolhem, levam para o viveiro, lá tinha uma engenheira agrônoma que orientava. Cada semente para ela germinar ela tem uma situação diferente: uma tem que ser colocada em água fervendo, outra tem que lixar, outra tem que ser deixada para secar ao sol, o viverista recebia orientação da agrônoma, e depois trocava com outros viveiros da região.
Para centros urbanos existem árvores apropriadas?
Isso é uma grande tristeza que eu ainda sinto! Existe árvore para todo tipo de calçada, de espaço urbano. Por exemplo, se você mora em uma rua e em frente a sua casa corre a fiação elétrica há uma dezena ou mais de espécies de árvores que nunca irão atingir a rede elétrica pelo seu crescimento. Caso você more em uma calçada no lado oposto a rede elétrica, você pode plantar outras espécies que também vão crescer, mas não irão invadir sua calçada e nem as raízes irão entrar ou afetar sua casa através do solo. Sempre há uma espécie própria.
Muitos proprietários evitam plantar uma árvore por causa das folhas que caem ou para evitar que as raízes levantem a calçada?
Se você plantar a espécie correta em uma cova com tamanho apropriado, jamais terá problema. Quanto a cair folhas, basta ver que nós também perdemos cabelos, pele. Varrer uma calçada não é um esforço descomunal. Geralmente as folhas caem no outono, para trocar a folhagem, não é uma coisa horrorosa. Eu vivi uma experiência muito bonita quando na prefeitura trouxemos Roberto Burle Marx artista plástico brasileiro, renomado internacionalmente ao exercer a profissão de arquiteto-paisagista. Nós o levamos para andar pela cidade, passando pela Estação da Paulista, existiam lá muitas espécies de jacarandá-mimoso, as flores estavam caindo, o chão estava azul. Havia também restos de enxofre, derramado no transporte ferroviário, que estavam espalhados pelo chão. Ele parou e disse: “Isto é uma tapeçaria divina para pisarmos!”. Em outra ocasião eu estava em uma rua do bairro Nova Piracicaba, era inteirinha arborizada por ipê-rosa, era um túnel cor de rosa, o chão forrado de flores. Fui chamada,  os moradores queriam retirar aquelas arvores porque faziam “sujeira” ! Fiquei chocada, arrasada, não autorizei alguns anos depois passei por lá e vi que não havia mais nenhuma árvore. “Sujeira” de folhas ou flores na calçada é uma questão cultural. Acho falta desse verde em nossa cidade, acho muita falta.
Com relação a outras cidades, Piracicaba é arborizada?
Há muitos plantios na cidade. A área central é carente, principalmente porque as árvores antigas caem e as pessoas não gostam de repor, tem medo de plantar por ter plantado anteriormente uma espécie que não era apropriada para o local. Se plantassem mais árvores melhoraria até a temperatura da cidade. Isso fica muito claro quando você anda em uma área arborizada e depois vai ao centro da cidade a diferença de temperatura é gritante.
Após permanecer  quatro anos na Secretaria Ambiental o que você foi fazer?   
Fui para Leme novamente, chamada pelo prefeito. Lá eu criei uma Universidade Livre de Meio Ambiente. Era a única no Estado de São Paulo. Infelizmente a ultima administração encerrou as atividades dessa universidade. Tive a honra de ser convidada pelo presidente da Argentina para montar uma universidade igualzinha entre Ushuaia e Rio Grande, bem no sul da Argentina.
Como descobriram você no Brasil?
A Universidade de Leme era muito famosa! Tínhamos uma parceria com a Universidade Livre do Meio Ambiente de Curitiba, que era a primeira do Brasil. Quando o presidente da República da Argentina quis montar igual, o pessoal de Curitiba nos indicou. Essa universidade existe até hoje na Argentina.
Essa preocupação com o meio ambiente é relativamente nova?
É relativamente recente, envolve fatores culturais, econômicos.
O indígena respeita muito o meio ambiente, isso significa que estamos retrocedendo?
Estamos retrocedendo. Recentemente mandei um artigo para a imprensa dizendo que existe uma febre para fazer condomínios afastados do centro urbano. Eles vão para determinadas áreas, e depois dizem “Com o projeto paisagístico completo!” que não existe! Ninguém replanta nem em outro lugar o que eles tiram. A cidade vai crescendo na expansão geográfica, mas ambientalmente ela vai ficando cada vez mais pobre. O que é ruim não só para o homem, mas para a fauna também, Você vê noticias de que em determinada cidadezinha apareceu onça no quintal, em outra entrou cobra, jacaré. Isso sem falar das aves.
Estamos em uma região de monocultura típica canavieira, há o lado positivo economicamente, e em termos de meio ambiente? 
Infelizmente é um problema! Está dizimando a fauna, a flora. Isso nos deixa muito triste. Frustra.
Ultimamente tem ocorrido noticias de muitas quedas de árvores em área pública.
Temos a considerar que os últimos temporais têm sido muito violentos. Há também aquela parcela do ressecamento do solo. Não mais umidade, espaço para água.
O calçamento do leito carroçável com paralelepípedo permite a penetração da água. Com a camada de asfalto sobre o paralelepípedo causou impermeabilização do solo?
Exatamente! O exemplo típico é a cidade de São Paulo. Qualquer chuva causa transtornos, a água não tem como escoar. Têm-se de um lado o progresso e o conforto, de outro lado temos essa destruição que o homem não está sentindo ainda.
Você teve uma participação no Museu da Água?
Trabalhei quatro anos, em minha segunda volta a Prefeitura Municipal, foi no período de 2001 a 20004 quando fui novamente convidada pelo presidente do SEMAE, José Augusto Seydell, para criar um projeto educativo no Museu da Água. Foi um projeto tão maravilhoso que chamou a atenção de uns professores da Itália, da Universidade de Genova, vieram para Piracicaba, para conhecer o trabalho de Educação Ambiental em Defesa da Água. Esses professores vieram e convidaram-me para apresentar esse trabalho, fui para Genova em novembro de 2004 apresentar o projeto educativo em função da água, que fazíamos aqui. Tinha dois projetos brasileiros em uma apresentação envolvendo muitos países.
Quem era o prefeito?
Novamente o José Machado.
Você dava consciência de consumo de água.
Com dispositivos muito simples e práticos, próprios para economizar, que educavam a criança em particular. Eu tinha uma equipe de estagiários que eram estudantes do curso de Engenharia Ambiental da FUMEP- Fundação Municipal de Ensino. Nós os preparávamos com palestras, mini cursos, e eles passavam depois para as escolas, para os visitantes, era uma loucura o número de visitas, havia mês em que passavam por lá mais de 80.000 pessoas. Recebemos também a visita de um professor da UNESCO que morava em Paris, veio para conhecer o trabalho, ver o material, orientou-nos em algumas coisas, que infelizmente se acabaram no museu.
Após quatro anos o que você passou a fazer?
Eu me desliguei de atividade publica, comecei a escrever.
Quantos livros você lançou?
Na verdade eu consegui lançar só um. É um livro infantil, chama-se “Conto Para Pequeninos”. Junto com a Professora Marly Therezinha Germano Perecin escrevemos uma coleção de dez volumes, também voltados para crianças, adolescentes, que se chama: “Piracicaba Conhece e Preserva”. Tenho alguns outros, na mesma linha de conservação ambiental a procura de patrocínio a algum tempo. É a minha área de paixão.
Você é associada do IHGP – Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, onde já ocupou o cargo de Primeira Secretária, ai você passou a ser Presidente.
Escolheram-me!
Como está o Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba hoje?
Fiquei temerosa em assumir a direção isso porque o presidente anterior Vitor Vencovsky ficou aqui por duas gestões, muito dinâmico e ativo, fez muitas aberturas para o Instituto, a minha maior preocupação é não deixar “a peteca cair”.
Hoje existem quantos associados?
Efetivos, nós somos em 50. Efetivo é aquele mais próximo, que paga anuidade, associados eméritos acredito que temos aproximadamente uns 100. Os eméritos participam mandando trabalhos, vindo a reuniões festivas, lançamentos.
O IHGP tem uma representação bastante expressiva dentro e fora dos limites de Piracicaba?
Tem não só na cidade, como o presidente da gestão anterior conseguiu se relacionar com os demais Institutos Históricos do país. São poucos, aproximadamente uns 50. Em sua maioria em capitais. Com isso trocamos material, programação anual. Isso é muito interessante.



Como o piracicabano vê o Instituto Histórico?              
Muitos ainda não conhecem o nosso trabalho, por isso divulgamos em eventos, estamos abertos a qualquer pessoa que queira conhecer o trabalho. Temos entre nossos associados médicos, advogados, pessoas autônomas, mais simples, é só ter amor a cidade.
Quem pode ser associado ao IHGP?
Vem muitas pessoas nos procurar para se associarem. Na realidade é o Instituto que o convida. rincipio para que seja feito esse convite é para pessoas que tenham feito algum trabalho na cidade, pode ser benemérito, educativo, cultural, qualquer coisa que ela faça em benefício da cidade. O Instituto é muito atento a um tipo de associado que quer apenas constar essa condição em seu currículo. Não importa se a pessoa não tem diploma algum, mas está fazendo a história do bairro dele. Pessoas que gostam de escrever sobre a família, história., sobre a igreja, sociedade que ele participa, quem tem amor a história, que é a finalidade do Instituto.Proteger e preservar a história da cidade. Qualquer pessoa que tenha um trabalho nessa linha é muito bem vinda.
O acervo do IHGP é relevante?
Fico até orgulhosa em dizer isso, mas o nosso acervo jornalístico, principalmente, é muito requisitado. Tivemos professores de universidades, até de outros estados, que passaram por aqui, quase um ano inteiro, pesquisando em nosso acervo. São professores da PUC de Campinas, da Fundação Getulio Vargas, de Londrina, da Unesp. A partir deste ano conseguimos um diretor de acervo que fica aqui um dia por semana a disposição desse pessoal. A pessoa vem o diretor agenda com ela. Todos aqui são voluntários e as pessoas têm os seus afazeres. Ninguém aqui tem salário. O nosso salário é o reconhecimento do público.
Como é feito o manuseio desse material?
É muito especial, o diretor de acervo vem, acompanha, a pessoa tem que usar luvas e máscara. Tivemos problemas sérios até não ter um diretor de acervo. Abríamos para pesquisa feita por pessoas que julgávamos ser de confiança, simplesmente ela cortava aquele pedaço de jornal do seu interesse e levava.
O IHGP está mudando de local?
Estamos realizando a mudança, indo para o bairro Jaraguá. Talvez dificulte o acesso principalmente para pessoas de fora de Piracicaba. O local que recebemos para irmos é um local bom. Nossa grande dificuldade é levar esse acervo. Não pode ser levado sem planejamento. É um material muito pesado, delicado.
O acesso físico ao prédio do IHGP em sua nova sede será mais fácil?
No prédio que ocupamos atualmente há uma enorme escadaria, isso dificulta o acesso de alguns associados. Essa preocupação existe desde outras diretorias. O espaço que recebemos é praticamente para comportar o acervo quer é muito grande.
Qual é a programação para os 50 anos de existência do IHGP?
Essa é uma das maiores preocupações da diretoria, já estamos nos programando para celebrar essa data. Esse é o nosso foco, o que cada membro da diretoria está pensando e começando a agir para o ano que vem, quando Piracicaba fará 250 anos e nós 50 anos. A fundação do Instituto ocorreu no mês de agosto no ano em que Piracicaba completou 200 anos. O objetivo já era de preservar a nossa história. Foi fundado por um grupo de pessoas preocupadas e interessadas nesse aspecto. Para esse ano já estamos recebendo material para a revista anual, temos três livros que estão em processo de lançamento, outros dois em que os autores estão escrevendo para lançar no próximo ano.
A verba é fornecida por quem?
A verba é fornecida através de um convenio com a Secretaria de Ação Cultural. No ano passado tivemos também um convenio com a Secretaria do Meio Ambiente para fazer a digitalização dos 15 livros do Cemitério da Saudade. Estão todos digitalizados, disponível na administração do cemitério. Foi uma prestação de serviço realizada pelo IHGP. Hoje se alguém quiser saber algo sobre um parente sepultado no Cemitério da Saudade, por exemplo, em 1948, localizam-se rapidamente todos os dados do falecido. através do computador antes havia dificuldades, os livros estavam completamente deteriorados. 
Qual é o nível do pesquisador que freqüenta o IHGP?
O maior número de pesquisadores é composto por universitários, doutorandos e professores universitários. É um acervo muito específico.
O que significa História para você?
É a base do que se faz hoje e será deixado para as futuras gerações. Uma forma de evitar cometer erros, dando melhores condições para as novas gerações.
A população, em particular esportistas e admiradores, sabem na ponta da língua a escalação de um time de futebol que jogou em data distante. Porque isso não ocorre com a História?
Acredito que isso deveria acontecer. Mesmo aqui na América do Sul, há países que tem esse cuidado em manter viva a História, esse respeito pelos antepassados, pelo passado, pela História do País. Essa lacuna pode até ser em função da enorme miscigenação de povos e raças com que formamos o país. È toda uma formação cultural que vem decorrendo há séculos.
Qual é a importância da Medalha Prudente de Moraes?
É uma comenda reconhecida pelos poderes públicos, inclusive estadual, pouquíssimas pessoas a tem, e é uma forma de homenagear pessoas que vem se destacando elevando o nome de Piracicaba.
Como você sente-se sendo a segunda mulher a ocupar o cargo de Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba?
Considero-me muito honrada, é um cargo de muita responsabilidade, vou fazer o possível para elevar o nome do IHGP a um nível cada vez mais alto. Todos os membros da diretoria têm uma bagagem maravilhosa, acho que nesse ponto o IHGP tem tudo para crescer, é muito bem visto pelo poder publico e pela mídia. Só tenho que agradecer.

                              

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