sexta-feira, novembro 06, 2026

 







 



 


 

 

 

 

LUIS CÉLIO BERNARDINO

 

Luis Célio Bernardino nasceu no dia 8 de outubro de 1959, nasceu no bairro rural denominado Inferninho, pertencente ao município de Saltinho. Essa denominação tem diversas razões. Uma delas é o isolamento e as dificuldades de acesso. Por ser um bairro rural e historicamente afastado dos centros urbanos principais (como Piracicaba ou o centro de Saltinho), os antigos moradores costumavam dizer que o lugar era "o inferninho" por ser longe de tudo e de difícil acesso. Em épocas de chuva, as estradas de terra tornavam-se intransitáveis, transformando o deslocamento em um verdadeiro suplício. Muitas dessas localidades nasceram como colônias de trabalhadores rurais voltadas ao cultivo do café ou da cana-de-açúcar (ligadas ao Engenho Central e grandes propriedades rurais da época). O trabalho braçal pesado sob o sol escaldante do interior fazia com que o cotidiano da colônia ganhasse esse apelido de forma figurada. 

Luís Célio é filho de Antonio José Bernardino e Ana Maria Spada Bernardino que tiveram 9 filhos: 6 mulheres e 3 homens: Iraci, Niderce, Elza, Dilair, Hermínia e Maria. Filhos do sexo masculino são o Sérgio, Celso e Luis Célio. “Fui casado, divorciado, tivemos um filho: Cleiton.

Qual é a profissão do senhor?

Sou funileiro de carro.

O senhor começou a trabalhar na funilaria com que idade?

Eu tinha 8 anos de idade quando fui trabalhar na funilaria!

Com 8 anos de idade o que o senhor fazia na funilaria?

Eu endireitava arame para o funileiro poder trabalhar. Esse arame era para soldar, na época vinha em rolo.

Essa funilaria trabalhava com automóvel?

Naquele tempo trabalhava com tudo! Carro, trator, caminhão. Tinha bastante caminhão que transportava cana-de-açúcar. Carro era comum o DKW, Simca, Gordini. A funilaria ficava na Avenida D. Jane Conceição, ao lado da Transportadora Rodomeu, onde hoje é a funilaria de Jorge Abdalla. Hoje é do Jorginho, filho do Jorge. Ali trabalhei até os 11 anos, com 11 anos de idade entrei na Alvarco. Meu pai conseguiu me colocar com 12 anos.

Na Alvarco o senhor fazia o que?

Eu era aprendiz de macheiro. Macheiro é uma forma de barro que é feita a campana para o fundidor fundir a roda de caminhão. Fazia a campana, parte integrante do sistema de freios do caminhão. Na Alvarco trabalhei só um ano. Ao lado da Alvarco tinha a carregadeira e descarregadeira de gado que eram transportados pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

Ali onde hoje é o leito da Avenida Dr. Paulo de Moraes, esquina com a Rua do Rosário, era a Chácara Nazareth, tinha dois barracões onde eram usados como depósito de sacas de café. Quando pararam de plantar café foi a sede do MAF Futebol Clube. Tinha umas mesas de bilhar, snooker. A Avenida Dr. Paulo de Moraes terminava ali. Havia uma enorme plantação de mangas :a coração-de-boi, a manga espada e outras. Só que tinha também , cães de guarda que eram enormes e muito bravos! Já existia na esquina o Posto Cantagalo, onde um grande cururueiro trabalhava como lavador de carros: o inesquecível Pedro Chiquito!

Qual foi o seu próximo emprego?

Foi na fábrica de Serena, que ficava ao lado do posto, na Rua do Rosário. O proprietário era Anorando Marconi. A Serena hoje é cha- mada de água sanitária. Tinha uma embalagem bonita. Parecia um cacho de uva.

O senhor tinha qual função na  fábrica?

Eu engarrafava Serena, engarrafava pinga. Era tudo manual. Durante o dia engarrafava Serena. À noite, das 18:00 horas até às 22:00 horas, engarrafava groselha, pinga. Entrava para trabalhar as 7:00 horas da manhã. A noite era paga como hora extra. Era um serviço exaustivo. A rotatividade de funcionários era grande.

O senhor saiu e foi trabalhar aonde?

Voltei a trabalhar na funilaria do Sr. Jorge Abdalla, pai do Jorginho que tem a funilaria até hoje. Lá eu trabalhei bastante tempo, já estava me tornando funileiro! Nessa época eu trabalhava com o meu irmão, até que ele decidiu montar uma funilaria no Bairro Alto, na Rua Minas Gerais.

 

O senhor chegou a andar no trem da Companhia Paulista?

Andei!

Fui visitar o pai do meu cunhado em Franco da Rocha.

O senhor saiu da oficina do Jorge Abdalla?

 Fui trabalhar com o sr. Alarico Costa. A famosa oficina de linha pesada chamava-se oficialmente Comércio de Peças e Funilaria Altir Ltda. Ficava na Rua Santos, a especialidade era cabines de caminhões Mercedes Benz que tiveram grandes danos em acidentes. Na época eu morava ali perto. Da Rua Santos para em direção ao Rio Piracicaba era invernada da Chacara Nazareth. A última rua com afalto era a Rua Santos, as demais eram chão de terra.

O senhor disse que quando era criança ia pegar manga na Chácara Nazareth.

Havia cães enormes e furiosos, só o latido do cachorro causava arrepio, saíamos em disparada; isso quando não subia em árvore com o cachorro embaixo, esperando a nossa descida! Era coisa de criança! O Zé Sotto é que era o guarda.

 

O senhor conheceu o trampolim que existia no Rio Piracicaba?

Naquele tempo as enchentes do Rio Piracicaba eram bem expressivas! O volume de água do rio diminuiu com a implantação do Sistema Cantareira. O volume de água era bem maior, eu saltava do andar mais alto do trampolim, que ficava a 10 metros de altura. Logo abaixo da linha de água tinha o “Poção” que ficava a uns 6 metros de profundidade. Meu irmão e eu, não podíamos ver uma ponte, nós pulávamos de cima.  Eu cheguei a beber água desse rio! Meu pai gostava muito de pescar. Ele me levava com o meu irmão, não existia o bairro Nova Piracicaba, era no tempo em que o trem trazia cana para o Engenho Central. Eu disse para o meu pai que estava com sede, ele olhou e viu que esqueceu de trazer água. Olhei para o rio, tinha capim em cima da água. Meu pai disse para abrir um espaço no capim e pegar a águe do rio e beber. Bebi água do rio! Só que isso faz quase 50 anos!

Mas vocês nunca pularam da ponte do Mirante?

A ponte foi projetada pelos irmãos André e Antônio Rebouças, dois dos primeiros engenheiros negros do Brasil. Eles foram figuras proeminentes no movimento abolicionista e deixaram um legado imenso na infraestrutura do país.

Origem da Estrutura: As peças de ferro utilizadas na sua montagem foram totalmente importadas da Europa (viajavam de navio e depois de ferrovia) para serem montadas sobre o Rio Piracicaba, unindo o centro da cidade ao bairro de Vila Rezende). As águas da bacia do Rio Piracicaba começaram a ser desviadas para o Sistema Cantareira no ano de 1973, quando o complexo iniciou oficialmente as suas operações em 29 de dezembro. O volume desviado representa, em média, cerca de 20% da disponibilidade hídrica total da bacia do Rio Piracicaba. As águas da bacia do Rio Piracicaba começaram a ser desviadas para o Sistema Cantareira no ano de 1973, quando o complexo iniciou oficialmente as suas operações em 29 de dezembro. 

Da Ponte do Morato vocês pularam no Rio Piracicaba?

Dessa ponte pulamos no rio, tem até uma fotografia que está com o meu filho, naquela época as máquinas fotográficas não ofereciam os recursos que temos hoje. Quem tirou a foto com uma máquina Kodak, foi o Laerte, ele ficou embaixo, na beira do rio e eu subi na guarda da ponte e mergulhei no rio! Um dos cuidados ao pular, era não pular na vertical, mas de “prancha”, com um ângulo de aproximadamente 45 graus. Ao mergulhar, acompanhar o ritmo da água, desviando em direção a margem. Há pouco tempo fomos passar o dia em uma chácara em Itu. Logo que chegamos já vi uma piscina de 50 metros de comprimento por 40 de largura. Na hora já fui para lá! Atravessei debaixo da água os 40 metros. Aos oito anos de idade eu já atravessava o Rio Piracicaba nadando! Embaixo da água do rio não tem corredeira! A água tem que ser respeitada, o uso de colete salva-vidas é grande parte da sua segurança. Um pequeno descuido pode custar a vida da pessoa. Em bote, barco, puxando rede, sempre com colete. Já salvei muita gente na água! Salvei um colega na lagoa da Rádio Difusora de Piracicaba, PRD-6, próximo ao Clube da Polícia Militar. Salvei uma menina no Lago Azul, uma menina de uns 7 anos estava afundando, os pais nem perceberam! Pulei na água e trouxe a menina para a margem. Outro caso foi no Lago do Martini, caminho para o Bairro Nova Suíssa. Tinha uma mocinha afundando, foi como pegar um gato num quarto! Eu tinha uns 14 anos, a menina era maior e tinha uns 15 anos, ela me puxava para baixo, puxava meu cabelo, achei que nós dois íamos morrer afogados. Com muito custo consegui arrastá-la até o barranco, ela saiu. Eu saí. Mas foi muito difícil! Na Rua do Rosário, entre a Avenida do Café e Avenida Dr. Edgar Conceição, havia uma casa de ferragem, onde trabalhavam o Hélio e o José Saipp.  Mais tarde o Luiz Marchini montou um depósito de material de construção, no início tinha areia, pedra, tijolos, telhas e cimento. Ali era um terreno aonde parques, circos eram periodicamente montados. Ficava na esquina da Rua do Rosário com a Avenida Dona Jane Conceição. Com muito trabalho e dedicação, Luiz Marchini teve muito sucesso, e uma grande loja de material para construções no mesmo local, a Angemar. Na esquina em frente à Praça Takaki, havia o famoso Bar Serenata, de propriedade de Miguel Fernandes. Na Paulicéia tinha o bar Chaparral. A Avenida Madre Maria Teodoro era chão de terra, o final dela era conhecido como Morro do Enxofre.

O senhor estudou em qual escola?

Estudei no bairro Jaraguá, na Escola Estadual Professora Olívia Bianco.

O senhor conseguia escutar o barulho das águas do Rio Piracicaba no silêncio da noite?

Eu dormia com o barulho das águas do Rio Piracicaba! Sabia quando o rio estava cheio ou estava baixo. Era um tempo que não havia tanta violência. Morei por 42 anos na mesma casa, o portão era quase na altura da cintura, nunca ninguém entrou lá para roubar. Nós éramos muito conhecidos, o meu pai montou um bar, o pessoal dizia “Bar do Seu Antônio”, Bar da Dona Nita”.

Um funileiro quando recebe um veículo para consertar qual é a primeira coisa que ele olha?

Como foi a batida! É feita uma inspeção completa para ver aonde afetou. A funilaria é um serviço ingrato, até hoje não conheço um funileiro que tenha ficado bem de vida financeira. Trabalhei 50 anos e não tenho um gato para puxar pelo rabo! Eu acabava fazendo serviço além do orçamento e não aumentava o orçamento!  O funileiro não faz a pintura, o funileiro só endireita, remenda.

Antigamente a solda era diferente?

Era utilizado o carbureto. Eram as pedras de carbureto, põe dentro do aparelho e adiciona água. O contato da água com a pedra, forma o gás que faz a chama. O oxigênio que é necessário, vem em um tubo, gerando temperaturas muito altas, suficiente para trabalhar com metais. Para realizar a soldagem sempre tem que usar óculos de proteção.

Por muitos anos existia uma gíria “Mixou o carbureto”.

Essa expressão foi utilizada para dizer que algo acabou, não deu certo. Isso porque quando acaba a pedra não forma mais gás! Hoje já não se usa carbureto, é utilizado o acetileno pronto, eliminando a carbureteira. Naquele tempo a máquina era enorme. Você não a carregava de um lugar para outro. Hoje uma máquina de solda elétrica é do tamanho de uma bateria de automóvel.

O senhor trabalhou muito com caminhões, qual era o serviço mais desagradável para o funileiro realizar?

Era soldar escapamento de caminhão de cana! Eu deitava embaixo, vinha aquela sujeira de cana, água, terra, aquilo caia na minha cabeça, no corpo. Hoje em dia ninguém sabe o que é “martelinho de bater carne”, uma denominação própria dos funileiros para denominar o martelo que ele usa. O “martelo de bater carne” é um martelo que você bate para puxar a lata. Para “engordar” a lata. 

Ainda tem muito funileiro?

Hoje acabou essa geração de funileiro! Só sabem trocar peça e passar massa plástica! Não compensa mais! Você vai ficar o dia inteiro batendo em um paralama! Para cobrar o que? Você vai na loja e compra um novo por cinquenta reais! Naquele tempo não tinha peça! Hoje não! Qualquer lojinha vende peça! Acabou a função de funileiro! Se você mandar um rapaz endireitar alguma coisa ele nem sabe pegar no martelo.

A pintura continua?

Evoluiu muito. No meu tempo, após eu fazer a funilaria, o pintor passava uma massa preta, levava dois dias para secar. Hoje o pintor começa a dar massa no carro, quando está terminando a frente já está seca! Hoje qualquer um é pintor, é como pintor de parede, é a mesma coisa! Eu comecei na oficina com 8 anos de idade, hoje em dia a molecada não quer nem saber. Também você não pode colocar criança na oficina!

O senhor acha certo ou errado isso?

Errado! Com 14 ou 15 anos não é mais moleque! Com essa idade não pode trabalhar! Mas ter má conduta, exercer práticas proibidas, atos ilícitos, isso é permitido! Tanto eu como os meus dois irmãos começamos a trabalhar na funilaria para a minha mãe não nos deixar sem fazer nada na rua! Quando chegava o dia do nosso pagamento, minha mãe passava o nosso pagamento para o dono da oficina, nós recebíamos e levávamos para a minha mãe! Na nossa cabeça nós estávamos ganhando! Estávamos fazendo um curso profissionalizante na prática! E longe dos riscos de estar à toa na rua.

 Luis Célio Bernadino destacou-se como um dos mais promissores valores do futebol. “Célinho” era o seu nome estampado nas camisetas dos times em que jogou, e não foram poucos. Ele tinha muita habilidade em armar jogadas para os outros jogadores marcarem o gol. Uma das suas características era chutar com as duas pernas e com muita força. Jogava na posição de volante (meio-campista defensivo). Célinho tinha entre outras habilidades a velocidade de arranque. Ele jogou até os 33 anos, no meio de jovens com quase a metade da sua idade. Foi muito fotografado, o álbum está com seu filho que mora em outra cidade. Tinha uma coleção de troféus, doou todos. Ao cobrar pênalti, ele media o canto e “enchia o pé”! Não dava tempo nem do goleiro se mexer, Celinho diz que nem ele via a bola entrar de tão rápida que ela ia! Treinou no Guarani Futebol Clube de Campinas. No início ele jogou na Hidro Diesel de Piracicaba. Fomos escolhidos pelo técnico para ir treinar no Guarani: eu, o “Mãozão, ele pegava a bola com uma das suas mãos enormes e o Taruguinho. Eu tinha 17 anos. Fiquei no Guarani como aspirante. Em uma folga que tive em um fim de semana, o pessoal do E.C. Jaraguá ficou sabendo que eu estava em Piracicaba. Vieram me buscar para inaugurar o campo do Capivariano. Faltava um minuto para terminar o jogo, passei a bola para o meio-esquerda, um jogador do Capivariano veio por trás para puxar a bola e puxou o meu pé. Quebrei o tornozelo. Fiquei um ano parado: seis meses engessado e seis meses de fisioterapia. Voltei a jogar no time do Bairro São Miguel, nome anterior do bairro Castelinho. Mesmo depois disso joguei por muito tempo no Jaraguá Futebol Clube. Entre outros times jogou no Jaraguá Futebol Clube, o “Galo da Paulista”. Quando Celinho foi para o Guarani o time era considerado “um “Celeiro de Craques”! Todo ano mandavam 4 ou 5 jogadores para o futebol profissional. Eu joguei em quase todos os times de várzea. Era convidado e ia. Eu fiquei sabendo que era bom de bola depois que parei de jogar!

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